Há esperança, a despeito dos males que afetam o mundo
Dulce Araújo - Annaba
Tal como Argel, também Annaba, antiga Hipona, cidade de que Santo Agostinho foi bispo do ano 396 a 430, acolheu o Papa, neste dia 14 de abril, com céu nublado e muita chuva. Mas, o programa cumpriu-se: visita às ruínas da antiga cidade portuária, ao Lar de Idosos, almoço com os confrades, celebração da missa na Basílica de Santo Agostinho e, às 18 horas, regresso a Argel, onde aterrou depois de uma hora de voo. Acolhimento com cântico de crianças e adolescentes em trajes tradicionais que lhe deram as boas-vindas com recitações em árabe e italiano, realçando a riqueza da história e civilização dessa cidade, em cujo aeroporto bandeiras do Vaticano ondulavam ao lado da nacional, assim como também nas mãos de pessoas à espera de ver o Papa.
Raízes históricas antigas
Annaba tem efetivamente raízes históricas antigas. Por ela passaram os fenícios, os romanos, os vândalos, até chegar aos dias de hoje com o seu esplendor. A Basílica de Santo Agostinho e a zona arqueológica atraem turistas de várias origens e religiões. A Basílica, restaurada em 2013, foi construída entre 1881 e 1907, por iniciativa de Dom Lavigerie, para dar a esse lugar o seu brilho de outrora. Dispõe de um Presbyterium para os agostinianos (três, todos da África subsaariana) e, desde há um ano, do “Espaço Santa Mónica”, onde são conservadas as obras de Santo Agostinho e as de estudos sobre ele. Ao lado, está o Lar de Idosos, onde as Pequenas Irmãs dos Pobres acolhem 40 idosos necessitados, quase todos muçulmanos. Um dos idosos é o arcebispo emérito de Argel, Dom Paul Desfarges. Para além de auxiliar o Lar de Idosos com serviços espirituais e temporais, como disse a superiora, irmã Filomena, os agostinianos apoiam também estudantes vindos doutras partes da África com diversas atividades sobre vida comunitária, bem comum, descoberta dos próprios talentos.
Um sorriso e um aperto de mão alegram a vida
O espírito da vivência no Lar ficou patente nas palavras que os idosos dirigiram ao Santo Padre, a começar por Dom Paul Desfarge: “viver é amor”, aqui “somos servidos e servidores, um sorriso, um aperto-de-mão tornam a vida agradável”. O ambiente de alegria, ternura e respeito da religião de cada um foi enaltecido por Saleh Bouchenal, para quem esta visita do Papa aumenta ainda mais a alegria de viver juntos no Lar. A irmã Filomena, superiora do Lar vê na visita do Papa a valorização da assistência aos anciãos, carisma da sua Congregação. Leão XIV agradeceu e sublinhou que afinal há esperança, contrariamente às guerras, conflitos, injustiças e mentiras do mundo de hoje. À Casa dos Anciãos, o Papa ofereceu um quadro com o crucificado, símbolo de sacrifício, mas também fonte de renovação e caridade.
Lugar de encontro e diálogo
Em Annaba, o Pontífice não podia deixar de encontrar os seus confrades (P. Fred Wekesa do Quénia, P. Dominique Habakkuk Juma Gbefe, sul-sudanês e P. Leviticus Longzem Shailong, nigeriano), que têm ali a tarefa de preservar a memória de Santo Agostinho, fazendo da Basílica um lugar de encontro e de diálogo, projeto com o qual Prevost já concordara já quando era Prior dos Agostinianos, Ordem religiosa presente em Annaba desde 1935. Leão XIV almoçou com eles e ofereceu-lhes um quadro da Última Ceia, vendo na Eucaristia ali representada, uma fonte de união, algo que lhe está muito a peito.
Simbiose com a terra de Argélia
Foi assim o culminar duma manhã que teve como primeira etapa, não obstante a chuva e o vento, a visita à zona arqueológica da cidade, onde o Papa se deteve por um momento em meditação silenciosa e plantou uma Oliveira, símbolo de paz, tão necessária no mundo de hoje. E como que em simbiose com o solo argelino, Leão XIV ficou com um pouco de terra colada à mão nesse ato de plantação em que foi auxiliado por alguns escuteiros, tendo ao lado o Bispo de Constantina/Hipona, Dom Michel Guillaud.
A Missa na Basílica Santo Agostinho
A Basílica, cor de marfim, ergue-se orgulhosa, com as suas duas torres sineiras e a cúpula, sobre a colina contornada de árvores e a zona arqueológica no sopé. Ali se congregaram à tarde, dentro e fora, cerca 1500 pessoas vindas das quatro dioceses da Argélia, para participar na Missa presidida por Leão XIV. Uma comovedora festa litúrgica que reuniu eclesiásticos e fiéis de várias cores e nacionalidades, com cantos e orações que chegavam ao profundo do coração certamente também do Pontífice, visivelmente satisfeito ao ingressar na Basílica.
Renovação com base no que vem de Cristo
Leão XIV centrou a sua homilia sob o signo da renovação, renovação que vem de Cristo e nos dá a certeza de que a história pode mudar, não obstante tudo. A isso convidava já Santo Agostinho. O código da renovação e mudança deve ser a caridade não um contrato social, disse o Papa que exortou os cristãos na Argélia a permanecerem como sinal humilde e fiel ao amor de Cristo, a serem o incenso que perfuma o ambiente sem se mostrar. Exortou-os igualmente a serem herdeiros da tradição dos que semearam a fé e amaram estas terras da Argélia.
Obrigado! Um dom de Deus, esta viagem. Deus ama a todos
No final da Missa, Prevost agradeceu as autoridades eclesiais e civis por todo o esforço feito pelo bom êxito da visita que classificou como um dom de Deus a toda a Igreja através dum Papa agostiniano. “Deus é amor, ama a todos, é Pai de todos os homens e todas as mulheres, tornemo-nos para Ele com humildade”, pois que a situação negativa do mundo provém “do nosso orgulho” – rematou. Com Ele e vivendo como irmão podemos caminhar na via da justiça, do desenvolvimento integral e da comunhão. “Obrigado, muito obrigado a todos”, concluiu.
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