Conceição Lima - A Poética Transcendente da Afro-insularidade
Dulce Araújo - Vatican News
Todas as atenções, especialmente na África de expressão oficial portuguesa, mas não só, estavam viradas para a homenagem, prevista para inícios de julho deste ano, em São Tomé e Príncipe (STP), à figura histórica do país, Alda Espírito Santo, no âmbito duma Conferência internacional para marcar o Centenário de Nascimento daquela que foi também poeta e "Matriarca da Nação".
Conceição Lima fazia parte da Comissão organizadora e tinha a seu cargo a parte cultural. Agora ela vai ser certamente também homenageada. Disto está convicta a sua conterrânea, amiga e apreciadora da sua obra literária, Inocência Mata, estudiosa de Literaturas africanas e docente na Universidade de Lisboa.
Incredulidade
Interpelada para falar de Conceição Lima, no programa "África em Clave em Clave Cultural: personagens e eventos", a professora Inocência Mata manifestou a sua incredulidade perante a morte repentina e prematura da Conceição, que definiu como "uma das vozes mais lúcidas, mais éticas, mais pan-africanista e mais poeticamente densas do espaço literário." Ela soube transformar os contos tradicionais em narrativa de autor e elevar a experiência do arquipélago santomense ao nível de uma reflexão universal sobre a cultura - disse.
Entre a esperança e o desencanto
A sua escrita, refere ainda a académica santomense, situa-se entre a esperança e o desencanto pelo percurso do país entre o pré e o pós-independência. E para este país que já estava no mapa da literatura, graças a escritores como José Tenreiro, mas também à poeta, Alda Espírito Santo, e outros, a catedrática da Universidade de Lisboa, embora louvando os escritos de Conceição Lima, não concorda com quem considere que com a autora de "O Útero da Casa" se fecha um ciclo no percurso da literatura santomense. "Uma pessoa só não faz um ciclo" - afirma, acrescentando que "havia outros" nessa geração da transição do colonial para o pós-colonial a que Conceição pertenceu, e há escritores mais novos que, devagar, devagar, estão a surgir.
O Mundo visto do meio
Instada a indicar alguma obra da Conceição que mais reflete a complexidade da sua escrita e a sua convicção de que, não obstante os desvios em relação aos objetivos da independência, STP era e é um país viável, Inocência Mata respondeu: "Todas, porque ela construiu uma geografia afetiva e histórica de São Tomé e Príncipe muito particular (...)”.
Mesmo assim, esta docente universitária indica alguns títulos, a começar por "O Mundo visto do meio", livro de crónicas sobre STP e sobre o mundo; ou ainda "O Útero da Casa"; "O País de Akendengué"; "Quando Florirem Salambás no Teto do Pico" ; ou "Quando os Cães Deixaram de Falar", cada uma pondo a tónica num aspeto, mas todas "atravessadas por uma ética da vigilância crítica", fazendo uma "arqueologia do poder, mas também da cultura."
Uma vergonha
A professora Inocência Mata não deixa de recordar as perseguições políticas de que Conceição Lima foi outrora vítima e quão desgastante foi para ela, mais recentemente, o facto de não se ter dado o ponta-pé-de-saída no dia 30 de abril de 2026 às comemorações do Centenário de Nascimento de Alda Espírito Santo, que foi a primeira Presidente do Parlamento de STP e a primeira mulher a desempenhar este cargo em África. "É uma cena vergonhosa", ligada à "qualidade de políticos que aquele país tem" - disse Inocência Mata.
Também o jurista, poeta, escritor e antigo Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, ficou desapontado com a morte de Conceição Lima.
Tinha tido a ocasião de a conhecer pessoalmente quando, em 2017, ela apresentou, brilhantemente, em STP, um dos seus livros e, só por coincidências um pouco adversas não chegou a apresentar outros dois. Mas debatiam muito por correspondência assuntos literários e políticos e ele tinha grande admiração pelos escritos dela, pela suavidade com que dissentia quando não estava de acordo com alguma ideia, e pelo “rigor com que lidava com a matéria literária”, o que estava em contraste - afirma o escritor cabo-verdiano - com a sua débil saúde.
Jorge Carlos Fonseca considera ainda que Conceição Lima era talvez muito exigente consigo própria, o que a levava a ser sempre um pouco receosa em aceitar convites para atividades intelectuais, embora fosse, claramente, muito competente.
Tal como a professora Inocência Mata, também o autor de "Porcos em Delírio" - obra poética traduzida para o inglês com a mediação de Conceição Lima - acredita que essa poetisa santomense terá deixado muitos escritos por publicar. Uma vez chegou mesmo a dizer-lhe que ela podia ser candidata ao Prémio Camões, tendo ela, naturalmente, fugido logo à ideia.
Enfim, ao longo do tempo, mesmo tendo-se encontrado pessoalmente uma única vez, os dois poetas foram “tecendo cumplicidade e amizade” e Jorge Carlos Fonseca está convicto de que Conceição Lima vai "ser lembrada pela qualidade da sua escrita".
Por sua vez, o poeta, ensaísta e editor, Filinto Elísio (Rosa de Porcelana Editora), parceiro do Programa "África em Clave Cultural: personagens e eventos", revela, na sua cróncia, o percurso de Conceção Lima, cuja poetica vai para além das suas ilhas e da África, colocando-se no patamar universal.
Crónica
"Conceição Lima: A Poética Transcendente da Afro-insularidade
Morreu no passado dia 15 de maio, Conceição Lima, a poeta que escreveu sobre o legado nas ilhas de híbridas palavras e tétricas plantações, engenhos enferrujados proas sem alento, nomes sonoros aristocráticos e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras.
Nascera Maria da Conceição Lima, em Santana, São Tomé e Príncipe, a 8 de dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1961. Em São Tomé e Príncipe, fez os seus estudos primários e secundários. Começou a escrever poesia muito jovem e, em 1979, participou na 6ª Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, que teve lugar em Luanda.
No início da década de 1980, estudou jornalismo em Portugal. Ao regressar a São Tomé, trabalhou para dois jornais: Revolução e Notícias. De 1985 a 1988, foi responsável pelo departamento de Programação e Transmissões da Rádio Nacional. Foi também correspondente da Agência de Notícias LUSA.
Em 1988, mudou-se para o Reino Unido, onde iniciou uma longa carreira na BBC e, posteriormente, integrou a equipe da redação da emissora em Londres. Na primeira metade da década de 1990, trabalhou como correspondente do jornal português Público e da Rádio France Internationale. Em 1991 e 1992, trabalhou com o PNUD, formando jornalistas e profissionais da imprensa no seu país.
Em 1993 fundou o semanário O País Hoje. De 1995 a 2008, foi repórter e produtora da BBC, produzindo programas e séries de televisão sobre temas políticos, sociais e culturais. Durante sua estadia em Londres, obteve uma licenciatura em Estudos Portugueses, Brasileiros e Africanos pelo King's College London e um mestrado em Estudos Africanos pela Escola de Estudos Orientais e Africanos.
O seu primeiro livro, O Útero da Casa, em 2004, foi uma estrondosa revelação, ainda que os seus poemas já tivessem saído antes nalgumas antologias e revistas literárias. Desse seu livro, alguns dos seus poemas mais emblemáticos como “Mátria”:
(...) Quero-me desperta/ se ao útero retorno/ para tactear a diurnal penumbra/ das paredes/ na pele dos dedos reviver a maciez/ dos dias subterrâneos/ os momentos idos (...)
Ou o poema ‘’Afroinsularidade’’ que viria, muito mais tarde, a vencer o concurso de tradução Poems in Translation 2021 promovido, nos Estados Unidos da América, pela revista Words Without Borders e a Academia Americana de Poetas. Poema esse em que discorria nestes termos:
(...) E nas roças ficaram pegadas vivas/ como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um/ escravo morto/ E nas ilhas ficaram/ incisivas arrogantes estátuas nas esquinas/ cento e tal igrejas e capelas/ para mil quilómetros quadrados/ e o insurreto sincretismo dos paços natalícios./ E ficou a cadência palaciana da ússua/ o aroma do alho e do zêtê dóchi/ no témpi e na ubaga tela/ e no calulú o louro misturado ao óleo de palma/ e o perfume do alecrim/ e do mlajincon nos quintais dos luchans/ E aos relógios insulares se fundiram/ os espectros –ferramentas do império/ numa estrutura de ambíguas claridades/ e seculares condimentos/ santos padroeiros e fortalezas derrubadas/ vinhos baratos e auroras partilhadas (...)
Em 2005, produziu uma série de televisão sobre o 30º aniversário da independência de Angola, com foco no Acordo de Paz de 2002 na sociedade angolana. Em 2006, nasce-lhe o livro A Dolorosa Raiz do Micondó, profundamente marcado pela história de São Tomé e Príncipe, bem como pelo diálogo com escritores que lhe eram de referência como Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo.
Em 2009, funda e dirige o programa televisivo Em Directo, dedicado ao debate político na emissora pública de São Tomé. O programa, o mais visto na televisão do país, foi reconhecido como referência do debate democrático. Em 2010, porém, o Governo mandou cancelar o programa, o que resultou em protestos de jornalistas nacionais e estrangeiros. Conceição Lima passa a escrever regularmente para a revista online Téla Nón e para a Revista África 21 (angolana).
Em 2011, o livro O País de Akendenguê, poesia pan-africanista, com vários versos dedicados aos líderes africanos como Amílcar Cabral, Patrice Lumumba e Nkwame Nkrumah.
Em 2013, apresentou um novo programa de televisão, Cartas na mesa, dedicado ao debate político. Em 2015, publicou Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico, com versos como:
[...] Água Grande não tão Congo não tão Nilo/Água Grande sem canoas sem regatas/ Apenas rio/ Cumprindo no mar seu destino de água. / Mas tu que conheces todas as cidades/ Tu de tantos rios peregrino habitante/ Não conheces o rosto de minha cidade/ Não conheces o rio no corpo da minha cidade. / Água Grande além de todas as viagens/ Rio apenas, irmão de todos os rios. (...)
Conceição Lima é o nome mais traduzido da literatura são-tomense, com livros e poemas em alemão, árabe, espanhol, checo, francês, galego, italiano, inglês, shona, servo-croata e turco. Foi membro-fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses (UNEAS) e, em 2021, foi nomeada coordenadora nacional, para São Tomé e Príncipe, do Movimento Poético Mundial. E permanecerá como a voz poética transcendente da afroinsularidade."
Link do podcast da emissão:
https://www.vaticannews.va/pt/podcast/africa-em-clave-cultural-personagens-e-eventos/2026/05/africa-em-clave-cultural-personagens-e-eventos-21-05-2026.html
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