Estar em Tizi Ouzou, na Argélia, moldou-me como missionário - P. Guy Sawadogo
Dulce Araújo - Vatican News
- Padre Guy, obrigada por estar connosco na Rádio Vaticano. Poderia apresentar-se e dizer-nos como é que veio parar a Argel?
Eu sou o Padre Guy Sawadogo, natural do Burkina Faso. Sou da Congregação dos Missionários de África, mais conhecidos por “Padres Brancos”. Cheguei à Argélia há 21 anos como seminarista. Fiz os meus dois anos de estágio pastoral, aqui na Argélia, entre 2005 e 2007. Depois, fui fazer estudos teológicos em Kinshasa. Após a minha ordenação sacerdotal, em julho de 2011, pedi para regressar à Argélia. E quando vim, em vez de ficar na Diocese de Ghardaïa, onde tinha feito o estágio, o meu superior provincial sugeriu que fosse trabalhar na cidade de Tizi Ouzou, Diocese de Argel. Fiquei lá sete anos, a seguir aos quais fui por um ano para Argel; dali ausentei-me do país para fazer estudos de Antropologia Social e Desenvolvimento. Em finais de 2021 voltei de novo para a Argélia. E atualmente estou na Comunidade dos Missionários da África que se ocupa da Basílica “Notre-Dâme-d’Afrique”, em Argel. Mas eu trabalho principalmente no Centro de Estudos Diocesano “Les Glycines”, um Centro Cultural da Diocese de Argel, da Igreja na Argélia.”
- Porque é que pediu para voltar para a Argélia?
Quando fazia o noviciado, lia muito sobre a vida de padres brancos. A Congregação foi fundada aqui na Argélia, em 1868, pelo Cardeal Charles Lavigerie, terceiro bispo de Argel, primeiro arcebispo e primeiro Cardeal da Argélia. E ele nos enviou para levar o Evangelho a diversos países da África. E quando líamos a vida dos primeiros missionários de África, eu ficava impressionado, ao ver, ao ler, ao ouvir os nomes de pessoas, de certos lugares como Ghardaia, Metlili, Ouargla, Basílica “Notre Dâme d’Afrique”... e dizia: “este país gostaria de o conhecer um dia!” Então, quando já estávamos a terminar o período do noviciado, o secretário para a formação foi-nos visitar para saber onde é que queríamos fazer o estágio pastoral. E eu disse que queria ir para um país de maioria muçulmana. Então propuseram-me a Argélia. Vim então para Ghardaia, onde trabalhei sobretudo no nosso centro cultural que se chama “Centro Cultural e de Documentação Subsaariana”. Trabalhava também com os migrantes que ali estavam (trabalhadores), muitos a caminho da Europa e que encontraram ali um lugar onde podiam trabalhar, ganhar algum dinheiro para enviar à família. Havia ali dois grupos: um que tinha, de certo modo, decidido ficar porque o que queriam era ir para a Europa ganhar dinheiro e deram-se conta de que em Ghardaia podiam trabalhar e ganhar dinheiro. Eram pessoas que trabalhavam nos campos de palmeira, nos jardins, pomares, enfim, na agricultura, na rega, que se ocupavam do gado e que trabalhavam também na construção civil, ou em fábricas, oficinas, etc.
Dado que eu falo djola, pois que nasci na região ocidental do Burkina-Faso, onde se fala djola, uma variante da língua bambara, falada no Mali, conseguia comunicar facilmente com eles, pois eram em grande parte malianos. Então quase que me adotaram e muitos deles pediam-me para os ajudar, para os acompanhar ao hospital se necessário, para fazer compras para eles, porque nem sempre conseguiam sair... e eu fazia tudo isso como um irmão, estando ao lado deles, sem infringir as leis, mas simplesmente procurando compreender a sua situação, ajudando-os a suavizar as coisas e a viver sem muitos problemas.
E quando fui ordenado padre e me pediram para regressar à Argélia os meus amigos perguntavam-me como era possível que, estando em Kinshasa, no Congo, país com uma Igreja tão dinâmica, quisesse vir para a Argélia, onde a Igreja é tão pequena, quase insignificante. E disse-lhes que era uma história de amor, que queria conhecer este país, as pessoas e poder fazer algo juntamente com elas, acompanhá-las naquilo que estamos a viver. E, portanto, para mim, foi algo muito, muito interessante, muito agradável vir para aqui.
E quando cheguei em Tizi Ouzou como jovem padre, as pessoas com que tinha trabalhado antes já não eram as mesmas. Já não eram propriamente migrantes trabalhadores, mas sobretudo estudantes — estudantes argelinos, claro, mas também muitos estudantes estrangeiros, de quase todos os países da África subsariana. E foi interessante trabalhar com jovens que procuravam adquirir conhecimentos intelectuais e académicos, e outros que estavam em formação profissional. E foi bonito ver como jovens que chegaram à Argélia aos dezassete anos, que lá passaram quatro, cinco o mais anos se tornaram adultos maduros e regressaram para as suas terras com uma riqueza de experiências e de conhecimentos do que viveram, tanto a nível pessoal como intelectual, aqui na Argélia. Isso realmente impressionou-me.
Fiquei, portanto, sete anos com os jovens em Tizi Ouzou. Claro que havia também a comunidade cristã com alguns cristãos argelinos e todos esses estudantes estrangeiros. Trabalhamos em conjunto para construir uma paróquia, uma comunidade cristã unida. E funcionou muito, muito bem. Estou verdadeiramente grato por estes sete anos que passei em Tizi-Ouzou, anos que me moldaram como missionário, como um Padre Branco.
- Agora, aqui em Argel, o que é que faz exatamente?
Bem, estou em Argel desde 2018. No primeiro ano, trabalhei quase a tempo inteiro na Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, a receber visitantes, a maioria muçulmanos. Em média, recebemos mais de 500 pessoas por dia nessa Basílica. Pessoas que vêm visitar a Basílica, que estão a descobrir a Igreja pela primeira vez, que fazem perguntas sobre o cristianismo para o compreender um pouco melhor e também para participar neste tipo de diálogo, uma espécie de abordagem... Portanto, o nosso papel aqui é principalmente fomentar o diálogo entre cristãos e muçulmanos, mostrar-lhes quem somos e perguntar-lhes quem são enquanto muçulmanos. E eles, por sua vez, dizem-nos quem são, é uma abordagem. Portanto, não estamos aqui para dizer: "Vocês, muçulmanos, são..." Não! Eles dizem-nos quem são e nós lhes dizemos quem somos como cristãos.
Desde 2022, trabalho sobretudo no Centro Diocesano de Estudos “Les Glycines”, fundado há 60 anos pelo Cardeal Étienne Duval. Este Centro acolhe pessoas interessadas em aprender o árabe argelino, o árabe clássico e outras línguas. Temos uma biblioteca bastante grande, formada mediante legados de comunidades religiosas que deixaram a Argélia nas décadas de 1960 e 70, bem como de argelinos ilustres que doaram as suas coleções, ou de pessoas que trabalharam em Argel e doaram os seus acervos à biblioteca. Académicos de todo o mundo consultam o nosso catálogo online e vêm fazer investigações na nossa coleção ou noutras coleções em Argel, aproveitando também a oportunidade para visitar o nosso Centro.
Organizamos também conferências, sempre relacionadas com a Argélia. O nosso foco principal é a Argélia, vista sob diferentes perspetivas, pois o nosso Centro é especializado em Ciências Humanas e Sociais. Temos coleções de arqueologia, arquitetura, história, sociologia, antropologia, etnologia e, claro, religião também. Assim, as pessoas vêm e encontram o que procuram. É isso!
- Poderia falar-nos um pouco sobre a realidade dos trabalhadores imigrantes aqui em Argel e na Argélia em geral? Como é a vida deles e que dificuldades enfrentam? Como é a relação deles com a sociedade? Como funciona exatamente?
Bem, não vemos trabalhadores estrangeiros com muita frequência. No que toca a imigrantes, sobretudo trabalhadores e africanos da África subsariana, vemo-los nalguns estaleiros de construção e também nas ruas. E em conversas com funcionários da OIM, na sede desta Organização Internacional para as Migrações, aqui em Argel, compreendi que está a ser feito um enorme trabalho para ver como podem ser ajudados a ter um estatuto legal na Argélia, a trabalhar legalmente e a deslocar-se com mais facilidade. Se isto se concretizar, será realmente maravilhoso para estas pessoas que se encontram na Argélia de passagem ou procurando contruir uma vida melhor nos seus países de origem. Vejo por exemplo, trabalhadores asiáticos, principalmente chineses, que vêm trabalhar em obras de construção, imagino que de uma forma muito regulamentada e legal. Assim, se pudéssemos fazer o mesmo para os trabalhadores vindos da África subsariana, seria um grande mérito para a Argélia em relação aos africanos.
- Tem-se alguma ideia de quantos são? E a maioria deles é “clandestina” (entre aspas)?
Não sei o número exato. Depende das regiões. Estão muito mais presentes nalgumas regiões do que noutras. Em Argel, por ser a capital, vemo-los um pouco mais em obras de construção civil, e noutras regiões, mais em trabalhos agrícolas... mas, em zonas como Tizi Ouzou, que não está na rota migratória, vemos muito poucos migrantes. Ali, os estrangeiros, vindos da África subsariana, são sobretudo estudantes. Mas noutras regiões como Argel, Orão e ao longo da costa argelina, nas grandes cidades, e por vezes mesmo no Saara argelino, vemos migrantes que estão apenas de passagem, a caminho da Europa. Mas é difícil dizer quantos são; talvez as autoridades, talvez o ACNUR, possam fornecer alguns dados. Eu vejo muitos, muitos mesmo. Mas, não sei quantos são.
- E a sociedade aceita-os facilmente. Ou é verdade que há um pouco de racismo, como alguns dizem?
Bem, os que trabalham, significa que estão em contacto com parceiros ou dadores de trabalho argelinos. E, portanto, se trabalham, significa que, de forma ou doutra, há aceitação. E dizer se é há racismo ou não, bem, as experiências podem ser diferentes, dependem da região, das pessoas e do que fazem. Depende se as pessoas os vêm como trabalhadores aplicados, que trabalham arduamente, ou se são pessoas que estão ali a pedir esmola, a apanhar ou simplesmente a andar pelas ruas, então talvez a abordagem seja diferente. Também alguns estudantes dizem que sofrem com um certo olhar, um olhar de desprezo e tudo mais. Mas, mais uma vez, também depende, pois quando se chega se depara com uma sociedade muito diferente, por isso ser aceite no contexto dessa diferença, nem sempre é fácil, leva tempo. Depende como é que cada um reage. Alguns ficam logo frustrados, outros um pouco desorientados, outros são talvez mais resilientes e as coisas são para elas mais fáceis. Por isso, não posso dizer que seja fácil ou difícil. Não! É complexo, isso sim! Não há dúvida de que é uma verdadeira luta. Mas quando se conhece estas pessoas, se conhece este país, bem, é um país como qualquer outro, com os seus altos e baixos, com pessoas muito acolhedoras e pessoas nada acolhedoras. Acontece em qualquer lugar do mundo.”
- Mais duas perguntas rápidas, Padre Guy. Em frente à Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, vê-se um monumento que representa um túmulo, um caixão. Fale-nos um pouco desse monumento. E qual é a sua ligação com os imigrantes que, suponho, também morrem nas costas da Argélia?
Sim, é um cenotáfio que existe ali há mais de 150 anos. Desde a criação da Basílica, os padres fizeram esse monumento, em forma de caixão, em memória de todos aqueles que morreram no mar a tentar atravessar. E creio que, na altura da sua construção, foi sobretudo para os trabalhadores que morreram no mar, pois havia muitos pescadores à volta da Basílica. E é certo que, posteriormente, houve muito movimento de pessoas que iam e vinham, sobretudo de sul para norte, por mar, tentando atravessar para chegar à Europa. Tantas pessoas morrem, portanto, embora nas costas argelinas quase que não se ouve falar disso. De vez em quando ouve-se, todavia, dizer que na costa ocidental ou oriental algum barco virou. Aqui na Argélia, existe um fenómeno chamado "harraga". São pessoas que utilizam pequenos barcos para tentar emigrar. Mas isto é severamente punido pela lei argelina. É uma forma de desencorajar os jovens que desejam migrar ilegalmente. Este monumento nos recorda a cada instante que é preciso fazer algo por uma vida melhor, por um mundo melhor, um mundo onde todos se possam sentir como cidadãos. Por ocasião da visita de Leão XIV esse túmulo foi renovado, caiado, para que ficasse com melhor aspeto. A inscrição que lá está é a mesma que está lá desde os tempos de Leão XIII, porque a basílica foi estabelecida como basílica durante o pontificado de Leão XIII. Foi Leão XIII quem nomeou o Cardeal Charles Lavigerie.
- Uma última questão, P. Guy. Antes da entrevista referiu-se a cabo-verdianos, entre os emigrantes ou estudantes que auxiliais. Fale-nos um pouco sobre a presença de pessoas de países africanos de língua oficial portuguesa aqui e de que países são provenientes exatamente?
Ah, sim, há estudantes de língua portuguesa aqui na Argélia, principalmente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. São enviados pelos seus governos e são bolseiros. Quando chegam, a primeira coisa que fazem é aprender francês. Depois, continuam os seus estudos em diferentes lugares. E nos últimos anos, não sei qual é a quota que os países lusófonos têm para enviar estudantes, mas há cerca de dez anos, havia muitos, muitos, muitos falantes de português, muitos cabo-verdianos, muitos angolanos, muitos moçambicanos e muitos guineenses. Eram muitos. Portanto, havia estes quatro países juntos, o que significava centenas de estudantes aqui na Argélia, em diferentes províncias, em diferentes cidades, a encontrarem-se, a deslocarem-se muito juntos, e podia-se reconhecê-los pelos seus sotaques e, bem, também pela sua alegria de viver.
Entrevista realizada, em Agerl, a 13/4/2026, durante a visita do Papa à Argélia.
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