Assembleia da CNBB em Aparecidade - foto de arquivo Assembleia da CNBB em Aparecidade - foto de arquivo 

Cardeal Tempesta: Encontros dos bispos das grandes cidades

“Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19). 16º Encontro em 2026 será realizado em Goiânia ou Recife, ainda a ser confirmado o local.

Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro

O mandato de Cristo continua a ecoar no coração da Igreja como um chamado permanente à missão. “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” não é apenas uma frase do Evangelho, mas a alma da evangelização em todos os tempos. Impulsionados por esse apelo, os bispos das grandes cidades do Brasil têm se reunido para refletir sobre os desafios e as possibilidades da missão nos contextos urbanos, onde a fé é chamada a dialogar com realidades marcadas pela diversidade cultural, pela rapidez da vida moderna e pelos novos modos de comunicação. Somos chamados a ser “alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração e enviados em missão”, pois “no Cristo, somos um para que todos sejam um” – missão e unidade dentro de nossas realidades!

O Papa Francisco em 2014 ao receber os membros do Congresso Internacional sobre a pastoral nas grandes cidades, assim se expressou:

“Na Evangelii gaudium eu quis chamar a atenção para a pastoral urbana, mas sem oposição à pastoral rural. Trata-se de uma excelente ocasião para aprofundar desafios e possíveis horizontes de uma pastoral urbana. Desafios, ou seja, lugares onde Deus nos chama; horizonte, isto é, aspectos aos quais, na minha opinião, deveríamos prestar uma atenção especial.”

O Encontro dos Bispos das Grandes Cidades nasceu em 2011, com o primeiro encontro realizado em São Paulo, por nossa iniciativa que víamos a necessidade um encontro informal sobre a nossa realidade. O Arcebispo de São Paulo aceitou e assim iniciamos nossos encontros. A inspiração surgiu logo depois de ter assumido a missão em nossa ArqRio e da constatação da necessidade de fortalecer a presença evangelizadora da Igreja nas grandes metrópoles, onde convivem contrastes intensos entre fé e indiferença, abundância e carência, comunhão e solidão. Tínhamos desafios comuns e poderíamos partilhar de inspirações e soluções. Aquele primeiro momento de partilha e oração reuniu os bispos das Arquidioceses do Rio de Janeiro e de São Paulo (arcebispos e bispos auxiliares).

Desde então, esse fórum de comunhão episcopal se tornou um espaço privilegiado de diálogo e discernimento pastoral e, aos poucos, foram chegando outros irmãos bispos de outras grandes cidades. Também foram convidados e participaram os bispos das dioceses das regiões metropolitanas afins. Em cada edição, os bispos têm refletido sobre a pastoral urbana, o testemunho da fé em sociedades pluralistas e os novos rostos da evangelização. A proposta é fortalecer uma Igreja próxima, acolhedora e missionária, capaz de falar ao coração dos homens e mulheres que vivem o ritmo intenso das cidades na partilha de nossas experiências. Nesse interim tivemos também um grande encontro internacional na Espanha com várias metrópoles do mundo concluindo em Roma com audiência com o Santo Padre.

A edição mais recente, de cunho acadêmico e testemunhal, realizada em Curitiba, reafirmou a importância de uma Igreja que caminha junto, escuta e testemunha a esperança cristã nas realidades urbanas. O encontro destacou os desafios e as perspectivas da evangelização em contextos urbanos. Esses encontros são expressão concreta da sinodalidade e da vitalidade missionária da Igreja. Revelam uma comunhão que ultrapassa fronteiras e mostra que o Evangelho continua a ser boa notícia para todos os povos, inclusive nas grandes cidades, onde tantas vozes clamam por sentido, esperança e presença fraterna.

Desde a sua primeira edição, a Arquidiocese do Rio de Janeiro tem participado sendo que aos poucos a Diocese anfitriã escolhida para sediar o evento organiza tudo, conduzindo com zelo e espírito de comunhão essa iniciativa que busca fortalecer a presença evangelizadora da Igreja nas metrópoles. Agora, em um gesto de continuidade e corresponsabilidade pastoral, a pedido da presidência da CNBB, essa missão passa a ser assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que dará sequência ao trabalho, promovendo ainda mais a unidade e o diálogo entre as Igrejas particulares diante dos desafios da evangelização urbana.

Abaixo o registro a ser aprofundado com mais especificidade de datas e temas, mas que reflete um pouco a caminhada desses encontros (sujeito a correções):

Linha do tempo dos encontros dos bispos das grandes cidades

1° Encontro: São Paulo - 2011

2º Encontro: Rio de Janeiro – 2011

3º Encontro: São Paulo - 2012

4º Encontro: Rio de Janeiro - 2012

5º Encontro: Barcelona - 2014 (Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades)

6º Encontro: Rio de Janeiro - 2015

7º Encontro: São Paulo - 2016

8º Encontro: Rio de Janeiro - 2016

9º Encontro: Rio de Janeiro - 2017 (II Congresso Internacional de Ecologia e Grandes Cidades)

10º Encontro: São Paulo - 2017

11º Encontro: Salvador – 2018

12º Encontro: Florianópolis – 2019

13º Encontro: Brasília – 2023

14º Encontro: Porto Alegre - 2024

15 º Encontro: Curitiba – 2025

16º Encontro: Goiânia ou Recife – 2026 a ser realizado

Esses encontros, (que no início eram dois ao ano e que depois permaneceu um a cada ano), nasceram como partilha fraterna entre os Bispos das duas metrópoles do sudeste foi se ampliando e, mesmo tendo alguns vácuos na linha do tempo que não conseguimos detectar as notícias, foi uma constante e um crescimento. Em 2013 foi o ano da JMJ do Rio de Janeiro e houve também a interrupção nos anos da pandemia da COVID. Esses encontros que nasceram de uma inspiração nossa de troca de experiência foram se aprofundando e tomando rumos de aprofundamentos e cresceram para ser um fórum importante sobre a pastoral urbana nas grandes cidades. Que eu me recorde, em todas as ocasiões, desde que iniciou tivemos encontros importantes de partilha e aprofundamento.

Já há uns três encontros atrás (desde 2019) que a Presidência da CNBB assinalava que desejava colaborar de modo mais efetivo nesse trabalho. Inclusive já havia sido agendado o encontro seguinte (junho de 2020) na sede da Conferência Episcopal, mas que devido à pandemia, não aconteceu. No encontro de Curitiba (2025) anunciamos que, a partir desse momento, essa atividade passaria a ser coordenada e animada pela nossa Conferência Episcopal através de um departamento próprio. Já escrevemos a presidência oficializando esse passo (2026) e enviando um relatório sucinto desses encontros ocorridos.

Resta-me agradecer a Deus que inspirou esse trabalho e partilha e pedir ao Senhor que pelo seu Espírito Santo conduza os próximos passos a serem dados. A Igreja que iniciou nas grandes cidades da época, hoje é desafiada a encontrar caminhos de evangelização nesta mudança de época que vivemos, em que, a maioria da população migrou para os centros urbanos. Agradeço também a todos os irmãos que durante esses anos colaboraram e participaram desses momentos importantes de partilha que nos enriqueceram a todos, de modo especial ao Arcebispo de São Paulo, D. Odilo Pedro, Cardeal Scherer, que desde o início, quando fiz a proposta, foi parceiro nessa iniciativa e caminhamos juntos até agora. Foram belos momentos vividos nessa iniciativa que se ampliou em número de (arqui)dioceses participantes e, sempre, em curtos encontros, em geral, de apenas um dia, mas cheios que rica espiritualidade e busca de soluções para nossos desafios. Os trabalhos do Cardeal Sistach de Barcelona com o Congresso Teológico (2014), depois com o encontro com os (arce) bispos das grandes metrópoles do mundo tendo a conclusão em Roma trouxe uma grande luz para esse trabalho, além de ele ter vindo para participar do encontro em 2017 no Rio de Janeiro. Desses encontros internacionais foram publicados livros atinentes ao evento,

O desafio da pastoral urbana continua e temos já um caminho percorrido que fará a diferença para o futuro dessa pastoral. Deus seja louvado e que a Igreja continue sendo esperança para nosso povo que luta no seu dia a dia para viver na caminhada da vida.

O Papa Francisco quando nos recebeu no dia 27 de novembro de 2014 pronunciou um belo discurso que continua atual e que merece ser aprofundado, e, em entre outras questões, ele assinalou:

“Temos mais facilidade para fazer crescer a fé do que para a ajudar a nascer. Acho de deveríamos continuar a aprofundar as mudanças necessárias nas nossas várias catequeses, substancialmente nas nossas formas pedagógicas, a fim de que os seus conteúdos sejam melhor compreendidos, mas, ao mesmo tempo, temos necessidade de aprender a despertar nos nossos interlocutores a curiosidade e o interesse por Jesus Cristo. Esta curiosidade tem um santo padroeiro: é Zaqueu! Peçamos-lhe que nos ajude a despertá-la. E então, a convidar a aderir a Ele e a segui-lo. Devemos aprender a suscitar a fé! Suscitar a fé! E depois, não ir por aqui e por ali... Não! É preciso semear! Se a fé brotar, será o Espírito que em seguida fará com que aquele indivíduo venha ter comigo, ou com outra pessoa, para pedir mais um passo, um passo a mais... Mas é preciso suscitar a fé!”

Que suas palavras proféticas continuem a despertar um santo desafio a todos nós que habitamos nas regiões metropolitanas, e que, com a atual situação midiática, essa cultura penetra, e muito, em todas as regiões, mesmo as de menor densidade populacional. É uma realidade que nos atinge a todos. Cabe a nós continuarmos a procurar respostas e dinamizar atividades e soluções olhando com a “esperança que não decepciona” (jubileu) para o futuro, numa caminhada de unidade pois somos “Um em Cristo, unidos na missão” (Leão XIV).

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16 fevereiro 2026, 10:12