Missa de Corpo Presente do Pe.  Marcelo Perez, assassinado em San Cristobal de Las Casas, Estado de Chiapas Missa de Corpo Presente do Pe. Marcelo Perez, assassinado em San Cristobal de Las Casas, Estado de Chiapas  (AFP or licensors)

No México, sacerdotes e agentes pastorais são alvos da criminalidade

O "Relatório Anual” sobre a incidência de violência contra sacerdotes, agentes pastorais, fiéis e instituições da Igreja no México, elaborado pelo Centro Multimídia Católico e divulgado nesta quinta-feira, revela um quadro preocupante no país: nos últimos sete anos, diversas comunidades católicas têm sido alvo de uma escalada alarmante de ataques contra lugares de culto, com o objetivo de manter o trabalho social da Igreja e dos sacerdotes em silêncio e no medo.

Federico Piana - Cidade do Vaticano

O relatório destaca diversos atos de violência: “Assassinato do Padre Bertoldo Pantaleón Estrada, cujo corpo foi encontrado crivado de balas, em 4 de outubro do ano passado, dois dias após seu desaparecimento; assassinato de oito jovens, ocorrido em 16 de março de 2025, em um campo adjacente à paróquia de São José de Mendoza, em Salamanca, Guanajuato, enquanto se preparavam para a Semana Santa; grave ferimento do Padre Héctor Alejandro Pérez, pároco da igreja de São Francisco de Assis, em Las Gaviotas de Villahermosa, no estado de Tabasco, ocorrido em 30 de junho do ano passado”.

A força do novo Relatório Anual, sobre a incidência de violência contra sacerdotes, agentes pastorais, fiéis e instituições da Igreja no México, consiste em descrever histórias de violência e dor, cuja síntese trágica encontra-se, claramente, no prólogo do documento: "Embora os crimes contra sacerdotes tenham diminuído um pouco, em relação aos anos anteriores, diversas comunidades católicas, nos últimos sete anos, têm sido alvo de uma alarmante escalada de ataques contra lugares de culto, que não só profanam a sacralidade das coisas, mas também revelam o que todos estão sofrendo: uma profunda crise de segurança e valores em nossa sociedade".

Alvos fáceis

 

O relatório foi elaborado pela “Unidade de investigações especiais do Centro multimídia católico”, fundada e dirigida pelo Padre Sergio Omar Sotelo Aguilar, sacerdote Paulino e jornalista, alvo de cartéis criminosos mexicanos, por sua decisão de combater os chefes do narcotráfico e do crime organizado, sobretudo, através dos meios de comunicação. A edição do relatório, este ano, esclarece, mais uma vez, que, certamente, não é mera coincidência que "todo este tipo de violência possa ocorrer em regiões com altos índices de criminalidade. Organizações criminosas, narcotráfico e delinquência comum veem as igrejas como alvos fáceis, não protegidas por um Estado laico, que deveria garantir a liberdade religiosa".

Nenhuma obstinação

 

Atenção: o relatório explica claramente que, oficialmente, não há perseguição contra a Igreja, nem limitações à liberdade religiosa ou à liberdade de culto e tampouco ódio contra a fé. Contudo, as causas da violência mudaram, profundamente, nos últimos cinco anos, como o Padre Sotelo Aguilar declarou à mídia vaticana: "A violência contra sacerdotes, religiosos, agentes pastorais e instituições eclesiásticas tornou-se um ato constante de assédio porque provém de grupos criminosos e órgãos políticos em níveis municipal, estadual e até federal. Os motivos, devido a muitos fatores, visam manter a Igreja e seus sacerdotes, em silêncio e amedrontados, por serem agentes de estabilização social".

Atos preocupantes

 

Ações preocupantes de intimidação, como a que ocorreu em agosto de 2025, em São Miguel de Allende, no estado de Guanajuato, onde a capela da Virgem de São João dos Lagos foi palco de violentos confrontos, que envolveram até a paróquia de Santo Antônio. Porém, os leigos também são alvos, cada vez mais frequentes, segundo o diretor do Centro Multimídia Católico: "Infelizmente, o ano passado foi marcado por extremas ondas de violência contra colaboradores diretos da Igreja e catequistas. O aspecto dramático é que muitos deles são muito jovens, como aconteceu aos 15 jovens, assassinados em diferentes regiões do país.

Não só assassinatos

 

Não se trata apenas de agressões, assassinatos e desaparecimentos suspeitos, atribuídos à criminalidade comum e organizada, inclusive clãs e cartéis da droga. Os ataques a edifícios religiosos também estão em aumento, adverte o relatório: "Estes incluem roubos, profanações, extorsões e incêndios criminosos, com uma média entre 26 a 28 por semana e cerca de 1.400 por ano". Na década de 1990, apenas quatro ataques eram relatados por semana: hoje, este número é quase sete vezes maior.

Impunidade generalizada

 

Outra estatística alarmante é revelada pelo próprio Padre Sotelo Aguilar: "80% dos casos de assassinatos de sacerdotes estão, atualmente, em total impunidade. Os processos de investigação foram esquecidos e, muitas vezes, até arquivados, sem fazer nenhuma justiça às famílias".

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02 fevereiro 2026, 08:45