Nigéria: as sementes de esperança lançadas em campos de deslocados internos
Linda Ugwu
«Ninguém deixa a casa a não ser que... e ninguém escolhe os campos de refugiados...»: são dois versos da poesia de Warsan Shire “Casa”, que mostram como a Casa é o último lugar de onde as pessoas fogem e o primeiro para onde esperam regressar.
O Relatório sobre as tendências globais do ACNUR (2024) revela que, não obstante os níveis recorde de migrações, o desejo de regressar a casa continua a ser forte. Este desejo é partilhado por muitos migrantes internos na Nigéria, que continuam a ter a esperança de regressar aos seus povoados ancestrais.
Contexto de referência
Desde 2012, a Nigéria experimenta uma crescente insegurança em diferentes regiões. Os ataques por parte de grupos armados levaram a uma perda generalizada de vidas humanas e de propriedades, assim como a um medo profundo, com uma violência que varia na sua natureza e intensidade de região para região.
Na região central (Middle Belt), os reiterados ataques contra aldeias e terras agrícolas ao longo dos últimos dez anos obrigaram milhares de famílias a refugiar-se em campos para deslocados internos. As explicações para a crise são diversas e incluem tanto as tensões relacionadas com o uso do solo, como fatores étnicos, religiosos, políticos ou ideológicos.
A falta de soluções duradouras deixou muitas comunidades numa situação de migração prolongada, marcada pela incerteza e por um profundo desejo de paz e de um lar.
Encontrar esperança em tempos de emigração
Em Yelwata, na Guma Local Government Area, no Estado de Benue, mais de 200 pessoas foram assassinadas nos dias 13 e 14 de junho de 2025, durante um ataque noturno. Hoje, muitos dos sobreviventes vivem no campo do mercado internacional de Makurdi, capital do Estado de Benue. As recordações daquela noite permanecem vivas.
Cypraian Targule, pai de quatro filhos, recorda que ouviu tiros. Fugiu para a floresta sem uma resposta de segurança imediata. Chegou ao campo dois dias mais tarde. Embora se sinta mais seguro ali, já não é possível dedicar-se à agricultura, que é o seu principal meio de subsistência. «A parte mais difícil é não poder cultivar. As religiosas trazem comida e encorajamento. Isto infunde esperança», afirmou.
«O campo não é um bom lugar para mim», declarou Dekaa Elizabeth, mãe de dois filhos, que perdeu vários membros da família, entre os quais um irmão e os seus quatro filhos. A vida no campo oferece-lhe uma certa segurança, mas subsistem os desafios diários, incluindo a falta de água, as instalações higiénicas, as taxas escolares e um filho com necessidades psicológicas. Quando lhe perguntaram o que faz para ir em frente, respondeu: «Deus dá-me esperança; a sua palavra toca o meu coração». A presença das religiosas, acrescentou, encoraja-a e sustenta-a.
Joseph Angur, que fugiu com a esposa e os filhos, recorda que se escondeu em silêncio, enquanto os agressores percorriam o seu povoado, queimando as casas. A fome e a falta de água continuam a ser lutas quotidianas, mas ele tem confiança. «Quero que as pessoas procurem a paz em cada momento», desejou. «Espero deixar este lugar e voltar para casa. Não há lugar como o lar!»
Lançar sementes de esperança
A partir de 2022, as Irmãs Missionárias do Santo Rosário acompanharam os refugiados internos em vários campos por todo o Estado de Benue, incluindo Daudu 1, Itcwa, Agagbe e o campo do mercado internacional. O seu trabalho começou com a ajuda alimentar e cresceu até incluir a formação profissional para jovens mulheres e homens em costura, lavandaria, cabeleireiro, sapateiro e hidráulica.
Após a formação, os participantes recebem kits iniciais para os ajudar a ganhar a vida. Gradualmente, alguns conseguiram ir além da vida nos campos. A irmã Mary Unwuchola e os seus colaboradores oferecem também visitas regulares, orações e aconselhamento, encorajando as famílias a ter esperança de que a paz regresse.
Da condição de refugiados à dignidade
No campo de Daudu, a irmã Mary conheceu Regina Nyamve, que tinha chegado ao campo com quinze anos. Dois anos depois, as irmãs ajudaram-na a regressar à escola. Concluiu o ensino secundário em 2025 e agora estuda numa escola de moda em Makurdi.
«Permanecendo no campo de refugiados, terminei o ensino secundário», afirmou. «Agora aprendo uma profissão. Quero estudar ciências de enfermagem». A sua formação permite-lhe imaginar um futuro diferente com confiança.
A irmã Mary reconhece os desafios das necessidades que ainda devem ser satisfeitas e da escassez de alimentos, mas observou: «Os deslocados internos poderiam ser qualquer um de nós. Quando sentires algo, não te limites a dizer algo, faz algo».
A esperança que perdura
Nos campos de refugiados, as famílias continuam a esperar pela paz e pelo regresso a casa. Não obstante as perdas e a incerteza, a fé, o apoio da comunidade e simples gestos de solidariedade podem sustentá-las.
As religiosas permanecem presentes, oferecendo aquilo que podem, embora não tenham todas as respostas. Existem desafios, mas existe também a esperança, «porque não há lugar como o lar».
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