2026.05.25 Promulgazione della Lettera Enciclica "Magnifica Humanitas"

“Sem regredir o coração”: um olhar inicial para a Encíclica "Magnifica humanitas"

Com a publicação da primeira encíclica de Leão XIV, Pe. Maicon Malacarne assina artigo e reitera que o Papa "não propõe um fechamento à tecnologia, mas um 'desarmamento' dos seus perigos". É preciso "estabelecer critérios éticos rigorosos que impeçam uma ideologia tecnocrática capaz de tornar o ser humano descartável e produzir novas formas de escravidão e dominação concentradas nas mãos de grupos altamente poderosos. É preciso 'desarmar' a IA para garantir a evolução do coração humano".

Pe. Maicon A. Malacarne*

A primeira Encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, era aguardada com grande expectativa. O tema central diz respeito à salvaguarda da dignidade da pessoa humana na era da Inteligência Artificial e da revolução digital e se coloca na esteira da celebração dos 135 anos da publicação da Encíclica Rerum novarum, do Papa Leão XIII, que deu impulso ao que hoje chamamos de Doutrina Social da Igreja.

Leão XIV dá corpo ao seu texto em 245 números divididos em cinco capítulos: 1) Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho; 2) Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja; 3) Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da Inteligência Artificial; 4) Salvaguardar o humano na transformação. Verdade, trabalho, liberdade; e 5) A cultura do poder e a civilização do amor.

Longe de querer esgotar a interpretação de um conteúdo vasto, profundo e altamente desafiador — sobretudo porque a Encíclica se propõe a atualizar os fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja dentro de um contexto profundamente marcado pelas transformações da inteligência artificial — gostaria de destacar dois pontos deste olhar inicial.

1) A “forma” do anúncio de Jesus Cristo

Ao iniciar o texto, Leão XIV recorre a um paradoxo bíblico: diante dos desafios do nosso tempo, podemos construir uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. A tensão entre confusão e harmonia, caos e diálogo, prossegue com uma afirmação potente: “cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo” (n. 1).

Aquilo que está em jogo não é apenas uma questão de conteúdo, mas também de forma: levar a sério o real, a pastoral, os sujeitos envolvidos e suas biografias concretas. O Papa Leão incorpora aqui aquele princípio intuído por Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii gaudium: “a realidade é superior à ideia” (n. 231). Tal fundamento exige combater todas as formas de ocultação do real em nome de propostas imaginárias ou idealizadas.

A forma torna-se decisiva para enfrentar um mundo em transformação. Nos Evangelhos, encontramos Jesus Cristo em “forma” concreta: um caminhante que ensinava, orientava e curava através de um estilo particularmente humano, marcado por toques, olhares, sorrisos, encontros e linguagens que as pessoas conseguiam compreender e acolher como proposta de vida nova.

2) A promoção da humanidade a partir do “coração”

A preocupação com a forma é, de fato, um enfrentamento concreto da era dos algoritmos. O Papa Leão não propõe um fechamento à tecnologia, mas um “desarmamento” dos seus perigos e de sua ampla instrumentalização. A Inteligência Artificial não pode transformar-se em negação do humano; ao contrário, deve servir à salvaguarda da pessoa humana e orientar processos de humanização contra toda forma descontrolada de dominação tecnológica:

Na era da Inteligência Artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa (n. 15).

A expressão “dever urgente de permanecer profundamente humanos” é emblemática. É a humanização que possibilita uma verdadeira experiência do coração. A técnica pela técnica, o algoritmo pelo algoritmo, não têm afeto, pele, presença. Não alcançam — por mais sofisticados que se tornem — aquela integralidade à qual apenas o coração humano consegue dar sentido: o abraço, o olhar, o sorriso, o toque, a lágrima, a saudade.

Se a tecnologia não para de avançar, também o coração precisa dilatar-se, tornar-se maior, à medida do humano. Isso não significa proibir os avanços tecnológicos ou interromper todas as pesquisas científicas, mas estabelecer critérios éticos rigorosos que impeçam uma ideologia tecnocrática capaz de tornar o ser humano descartável e produzir novas formas de escravidão e dominação concentradas nas mãos de grupos altamente poderosos. É preciso “desarmar” a IA para garantir a evolução do coração humano.

A forma relacional é capaz de impedir que o coração regrida – “um coração aberto ao outro”. No encontro com as outras pessoas — inclusive mediado pelas redes sociais e pelas mídias digitais — que o coração pode aquecer-se e ativar caminhos de humanização. Contudo, também é verdade que muitas dessas redes se tornaram “antissociais”: afastam, desintegram e fortalecem dinâmicas de ódio e divisão incompatíveis com os vínculos de felicidade e com a teia de encontros que ajudam a humanidade a tornar-se mais humana.

Leão XIV nos convida a enfrentar a realidade e a alargar o coração para distanciar-se da torre de Babel e possibilitar a “Jerusalém” onde Deus e a humanidade habitam juntos. Trata-se, como escreveu Luís de Camões em Os Lusíadas, dar forma a “novos mundos ao mundo”.

* professor de Teologia Moral e pároco da Paróquia São Cristóvão - diocese de Erexim/RS

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27 maio 2026, 09:36