MYANMAR-KACHIN-CONFLICT

Bispo em Mianmar: "Sem a ajuda de Deus não podemos fazer nada"

"Estamos todos cansados ​​do conflito. Centenas de milhares de deslocados estão sofrendo", diz o bispo de Myitkyina, sobre as aproximadamente 250.000 pessoas no Estado de Kachin, segundo estimativas recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, instalados em campos de refugiados ou em pequenos acampamentos. "Todos vivem juntos: cristãos e budistas. De vez em quando vou visitá-los e celebramos a Missa juntos. Nos meses de 2026, celebrei um total de 900 confirmações de crianças"

Vatican News

O Estado de Kachin, no norte de Mianmar, é palco de intensos combates entre o exército e grupos de oposição, que unem as Forças de Defesa Popular e grupos armados de minorias étnicas, como o Exército da Independência Kachin (KIA), e a situação permanece altamente instável.

Em meio aos confrontos, está a população civil, incluindo os fiéis católicos, a quem o bispo de Myitkyina, dom John Mung Ngawn La Sam, pede mais orações. Ele recorda à Agência Fides que Jesus no Evangelho diz: "não tenhais medo. E este - explica  - é o meu lema. Deus nos ajudará, aconteça o que acontecer. Em nossa situação, devemos confiar em Deus. Digo ao meu povo: rezemos mais." 

Luta pela sobrevivência

 

"As pessoas estão lutando para sobreviver", conta o prelado, e embora todo o sistema escolar esteja fragmentado ou interrompido devido à guerra, a educação também é confiada "à boa vontade de muitos, como as religiosas e catequistas que organizam aulas informais para crianças e jovens."

"Na nossa situação - continua ele - vivemos um dia de cada vez. Os fiéis tiveram que deixar seus povoados e paróquias, foram forçados a fugir, mas em muitos lugares, como campos de refugiados e assentamentos informais, dada a persistência da vida de deslocados, um certo equilíbrio foi quase encontrado. Ou seja, as pessoas quase se acostumaram a essa vida precária, mas esse não pode ser o nosso futuro", afirma.

"Estamos todos cansados ​​do conflito. Centenas de milhares de deslocados estão sofrendo", diz ele, referindo-se ao grave impacto humanitário sobre aproximadamente 250.000 pessoas no Estado de Kachin, segundo estimativas recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. “Eles estão instalados em campos de refugiados ou em pequenos acampamentos em áreas arborizadas onde se reuniram. Todos vivem juntos: cristãos e budistas. De vez em quando, vou visitá-los e celebramos a Missa juntos. Nos meses de 2026, celebrei um total de 900 confirmações de crianças entre 12 e 15 anos. São crianças com a luz de Cristo nos olhos e nos corações: são a nossa esperança, as suas vidas são um grande sinal de esperança”, recorda.

Rezar mais

 

“Ouço o sofrimento dos deslocados e comovo-me", diz o bispo. "Por meio da Karuna, a nossa Cáritas, ajudamo-los e fornecemos-lhes as necessidades básicas. E só digo uma coisa: devemos rezar mais, não há outra solução. A oração é importante, é o vínculo que nos mantém unidos ao Senhor, peçamos-Lhe que nos ajude e cuide de nós nesta situação precária”, afirma. O bispo ainda pode morar na catedral de Myitkyina porque, segundo ele, "não há combates na cidade, pois Myitkyina é controlada pelo exército regular", mas as tensões ainda são sentidas.

"Devemos ter fé e esperança de todo o coração. Devemos acreditar que o próximo ano será melhor do que este. Devemos rezar mais, eu sempre digo aos fiéis." "Não podemos fazer nada além de esperar e rezar. Porque sem a ajuda de Deus, não podemos fazer nada. Então, esperamos que um caminho de reconciliação nacional possa ser iniciado, o qual, se Deus quiser, será possível e restaurará a paz", conclui ele.

Localizado no extremo norte do país, na fronteira com a China e a Índia, o Estado de Kachin é um dos mais afetados pela guerra civil que eclodiu após o golpe militar de fevereiro de 2021. O conflito na região, no entanto, tem raízes mais antigas: a trégua entre o exército birmanês e o KIA já havia entrado em colapso em 2011, e o conflito também envolvia o controle de recursos naturais, como madeira e jade, abundantes na região.

A capital do Estado de Kachin, Myitkyina, abriga atualmente o quartel-general do Comando Militar do Norte do exército birmanês e permanece fortemente protegida pelas forças governamentais. Nas áreas circundantes, o território é palco de confrontos, combates, emboscadas e bombardeios que atingem aldeias, com graves repercussões para a população civil.

Nessa emergência humanitária, a Igreja Católica local representa um dos poucos bastiões de assistência, apoio psicológico, educação, coesão social e inter-religiosa e orientação espiritual para os refugiados.

*Com Agência Fides

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.

24 junho 2026, 10:21