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Magnifica humanitas: "É urgente colocar o ser humano no centro, e não a máquina"

Em uma entrevista dedicada ao Capítulo 4 da Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV, o Pe. Boniface Mbouzao, SJ, doutor em engenharia da computação, analisa os desafios da inteligência artificial sob a perspectiva da "verdade como bem comum", da dignidade do trabalho e da liberdade humana. Para este acadêmico jesuíta, a África e o mundo devem evitar se tornarem "objetos da tecnologia" e, em vez disso, investir principalmente em formação e regulamentação para se tornarem "sujeitos" dela.

Moriba Camara, S.J. - Cidade do Vaticano

Um dos maiores desafios levantados pelo desenvolvimento da inteligência artificial diz respeito à nossa relação com a verdade, destaca o Padre Mbouzao. No ambiente digital, “a verdade tende a ser definida como a informação mais amplamente compartilhada”. A busca por fatos e objetividade pode, então, dar lugar à visibilidade e à popularidade. A desinformação, a manipulação digital e a influência sobre as percepções do mundo e da humanidade constituem, portanto, desafios significativos. O sacerdote jesuíta apela especialmente aos jovens para que estejam vigilantes: “Devemos ser mais vigilantes, não acreditar em tudo o que encontramos e depositar mais confiança na mídia e nos especialistas da área para nos fornecer informações precisas”.

Colocar a IA a serviço da humanidade

 

A transformação do mundo do trabalho pela IA constitui outro desafio fundamental. Muitos empregos estão destinados a ser transformados, ou mesmo a desaparecer, o que levanta a questão do respeito à dignidade dos trabalhadores. Para este doutor em engenharia da computação, a questão fundamental é, portanto: “Como podemos garantir que a IA permaneça a serviço da humanidade e do bem comum?”

Sua resposta reside, antes de tudo, na formação e no estabelecimento de regras capazes de nortear a pesquisa. "No campo da inteligência artificial, a pesquisa deve agora ser guiada por um certo padrão ético", acredita ele, apelando aos governos para que implementem legislação destinada a proteger os indivíduos.

O padre Mbouzao recorda ainda que o progresso tecnológico não pode ser separado do bem-estar humano. Para ilustrar seu ponto de vista, o pesquisador jesuíta cita diretamente a encíclica do Papa: "A justiça também vem pelo acesso aos benefícios da inovação: cuidado, conhecimento, ferramentas, oportunidades". Mas, enfatiza ele, "o ser humano deve permanecer o objetivo, e não simplesmente um meio para atingir esse fim".



África enfrenta o risco da dependência tecnológica

 

No contexto africano, o desafio é ainda mais significativo, visto que as capacidades tecnológicas e de pesquisa em inteligência artificial permanecem limitadas em diversas regiões. O professor, especialista na área de tecnologia, menciona especificamente as dificuldades relacionadas ao acesso à eletricidade e a uma conexão permanente, bem como a falta de legislação para regulamentar o desenvolvimento da IA. Ele, portanto, convoca os países africanos a começarem a pensar agora em uma estrutura que coloque "os seres humanos no centro, não as máquinas ou a produção". O desafio é também evitar novas formas de dependência de tecnologias e algoritmos.

O risco, alerta ele, é o surgimento de "novas formas de subordinação global, especialmente na África", contrárias ao princípio da dignidade humana. A dependência tecnológica excessiva pode levar a "novas formas de escravidão", transformando até mesmo os africanos em "objetos da tecnologia em vez de seus sujeitos".

Formar jovens em pensamento crítico: um imperativo

 

Para evitar essa dependência, o jesuíta coloca a educação no centro da solução. “Precisamos preparar nossos jovens para enfrentar esses desafios e enxergar a tecnologia como um meio, não um fim; como uma ferramenta, não um fim em si mesma”, afirma. O padre propõe, em particular, a introdução da inteligência artificial nos currículos escolares para que os jovens possam compreender seu funcionamento e suas limitações.

“A tecnologia deve, portanto, servir à humanidade, e não a humanidade a serviço da tecnologia"

 

Essa formação deve também preservar o pensamento crítico, a originalidade e a criatividade. Diante dos algoritmos, os jovens devem cultivar seu pensamento crítico e manter “maior liberdade e distanciamento”. Para ele, o perigo seria, em última análise, reduzir a realidade ao que os algoritmos podem mostrar. “O que, na realidade, é apenas parte da verdade”, lembra-nos, ao mesmo tempo que nos exorta a não “considerar uma parte da verdade como ‘a verdade’”. Por meio dessa leitura do capítulo 4 da Magnifica humanitas, o padre Mbouzao argumenta que o desafio é preservar a humanidade, não rejeitar o progresso tecnológico. É, portanto, necessário educar, proteger e libertar o indivíduo para que a inteligência artificial permaneça um instrumento a serviço do bem comum.

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14 agosto 2026, 11:25