Bispo de Kharkiv-Zaporizhzhia: queremos a paz e somos pela paz

Em um encontro no Meeting de Rimini intitulado “A esperança para a Ucrânia”, os testemunhos da escritora Yaryna Grusha e do bispo latino de Kharkiv-Zaporizhzhia, Pavlo Honcharuk, que afirma: “Tentamos sobreviver. Todos os dias chegam drones; infelizmente, nossos jovens são obrigados a crescer depressa. Queremos defender nossa pátria, queremos que o coração do ser humano seja preenchido pelo amor que vem de Deus.” Publicamos aqui a transmissão da conferência..

Roberto Paglialonga

Como é possível cultivar a esperança sob as bombas? Como é possível conviver com o sentimento de impotência sem cair em um ódio desenfreado contra o outro?

É a partir dessas perguntas que se desenvolvem os testemunhos de Yaryna Grusha, escritora ucraniana que reside permanentemente na Itália desde 2015, e do bispo latino de Kharkiv-Zaporizhzhia, dom Pavlo Honcharuk, durante uma mesa-redonda realizada nesta terça-feira no Meeting de Rimini e intitulada “A esperança para a Ucrânia”.

Um desafio já presente no próprio título — afirma Bernhard Scholz, presidente da Fundação Meeting para a Amizade entre os Povos e moderador do encontro —, para evitar que ele se transforme em uma pergunta: “Porque já no ano passado, refletindo sobre a guerra, ficou claro que são as pessoas, que vivem uma esperança certa que lhes permite enfrentar as injustiças, que se tornam elas próprias esperança. São elas que vivem a esperança”.

A guerra como normalidade

 

Diante da brutalidade do conflito, iniciado em 2014 e que assumiu grandes proporções a partir da invasão russa de 24 de fevereiro de 2022, “simplesmente tentamos sobreviver todos os dias”, começa dizendo o bispo Honcharuk. “Também nesta noite, a minha cidade” foi alvo de mísseis. “Os drones são algo normal, chegam todos os dias, e quase todos os dias, durante 10 ou 12 horas, existe um perigo real”, devido ao qual “as pessoas não podem sair às ruas”, explica. A guerra tornou-se a nova normalidade. “Mas nós vivemos”.

Honcharuk: o ódio mata quem odeia

 

Para não ser dominado pelo ódio, é preciso cultivar o amor e pedir que ele preencha o coração, acrescenta o bispo. “O ódio mata quem odeia. O ódio mata o coração da pessoa que carrega esse ódio, e quem carrega o ódio no coração não sobreviverá”. Certamente, reconhece, “temos dor, raiva, força para lutar, mas não permitimos que o ódio entre em nosso coração, porque ele corrompe o pensamento e leva embora a paz. A nossa força, ao contrário, é o amor pelos nossos irmãos e irmãs, pelas esposas... e é isso que nos impulsiona a defendê-los” e a defender o próprio país.

“Não queremos ser reduzidos a um organismo que depois é chamado a matar outros povos”, acrescenta. “Queremos a paz e estamos a favor da paz. Fomos educados segundo o Evangelho, segundo os valores cristãos, para os quais o homem e a mulher são pai e mãe, para os quais existem filhos e pais, e cada um tem uma grande família”.

A pessoa é pessoa pelo amor

 

O bispo volta então ao conceito de amor, que também dá título ao Meeting: “O que torna uma pessoa verdadeiramente pessoa é o amor que existe em seu coração”, e dá um exemplo: “Uma lâmpada, por si só, mesmo sem eletricidade, pode ser bonita, mas não tem sentido; da mesma forma, o coração de uma pessoa pode ser bem construído, mas, se não tiver amor dentro dele, está vazio. E Deus coloca o amor no coração para fazer renascer em mim, em cada um de nós, a pessoa. Somente então ela cria cultura e preserva uma civilização da vida”.

O ponto de partida é que “eu não posso mudar o mundo — reconhece —, mas o importante é como sou eu no mundo”, diante da realidade e da vida.

Grusha: a cultura como fator de esperança

 

Um sinal distintivo de esperança e de reconhecimento entre os povos é a cultura. “Com o meu livro — afirma Yaryna Grusha, que em fevereiro de 2026 publicou pela Bompiani L'album blu (O álbum azul) —, eu também desejava tentar aproximar a cultura ucraniana da italiana; queria contar quão longa e rica é a nossa história”.

Grusha, que desde 2018 ensina Literatura Ucraniana na Universidade Estatal de Milão, mas que chegou pela primeira vez à Itália aos nove anos, no âmbito de um projeto de acolhimento para crianças que haviam deixado, com suas famílias, a região de Chernobyl — onde, em abril de 1986, explodiu um dos reatores da usina nuclear —, explica que, em sua opinião, “faltavam na Itália algumas peças para compreender” o seu país, conhecer suas razões e “entender por que as famílias ucranianas decidiram resistir à invasão russa. Mas essa história de resistência está profundamente enraizada na Ucrânia, desde os tempos da União Soviética”.

Reduzir o espaço para fake news e propaganda

 

Seu livro percorre as etapas da vida do povo ucraniano, voltando ao início do século XX, contando também histórias autobiográficas de seus avós e amigos e passando pelas experiências de quatro amigos diante do destino e das reviravoltas da História, até a independência, em 1991, e a Revolução Laranja e a Revolução da Dignidade, o Euromaidan.

“Eu queria que nos conhecessem melhor, reduzindo assim o espaço para fake news e propaganda”, afirma. Ela também confessa ter se apaixonado pela língua italiana ao ouvir a canção “Felicità”, de Al Bano e Romina Power: “Eu desejava compreender as particularidades da língua de vocês e descobrir, assim, o significado da palavra felicità”, diz.

Segundo a escritora, foi vivendo na Itália que compreendeu a diferença entre a vida “em um Estado democrático e aquela em um Estado autoritário”, como o da época soviética, onde “não se podia fazer perguntas, era preciso permanecer em silêncio sobre tudo”.

O coração como um ônibus conduzido pelo amor de Deus

 

A parte final do encontro é dedicada ao perdão nas circunstâncias atuais. “Há três etapas: perdão, pedido de desculpas e reconciliação”, observa o bispo de Kharkiv. “Eu concedo o perdão quando alguém me pede; depois há a terceira etapa, que é a reconciliação. E eu a vejo quando compreendo a origem do mal no mundo: o coração está vazio sem Deus, se não há amor”.

“Pelo vazio, o som não passa, não há elementos que transmitam a vibração; um coração vazio não sente a vibração do outro, e essa é a causa das guerras”. Mas, conclui com uma metáfora, “o meu coração é como um ônibus, no qual estão sentados a dor, a raiva... há muitas coisas. Mas, ao volante, deve estar sentado o amor”.

Muitas coisas podem perturbá-lo, e não é realista pensar que não se experimentarão sentimentos negativos. “Mas eu sou uma pessoa e devo preocupar-me em continuar sendo pessoa: ao volante deve estar o amor que vem de Deus”.

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25 agosto 2026, 21:24