Rússia de volta ao futuro
Pe. Stefano Caprio*
Como todos os anos, nas semanas após as festividades de janeiro, realizaram-se na Rússia as XXXIV "Leituras de Natal", Roždestvenskye Čtenija, uma série de encontros e conferências nos âmbitos eclesiástico, social e política para debater as perspectivas da Igreja e do país nos campos da cultura e da educação.
Nos anos noventa, esses encontros reuniam todos aqueles que viam no renascimento religioso da Rússia um campo de grande diálogo entre o passado ateu e o futuro das comunidades, não somente da Igreja Ortodoxa, mas também de outras confissões e religiões, e das diferentes abordagens teológicas e espirituais, enquanto hoje o foco está nas grandes visões do patriotismo ortodoxo de Estado.
Um dos eventos com maior participação foi a conferência realizada no Centro Nacional Rossija, em Moscou, com o tema "De volta para o futuro", organizada pelo movimento ultraconservador Sorok Sorokov, "Quarenta Quarantenas" (nome que recorda as igrejas de Moscou do passado), em conjunto com o Departamento Sinodal do Patriarcado de Moscou para as Relações com a sociedade e os meios de comunicação. Tomaram parte na comferência mais de 60 palestrantes e milhares de ouvintes, membros do clero e políticos, deputados e esportistas famosos, além de especialistas nos âmbitos da demografia, cultura e educação, para aprofundar o tema proposto em um dos últimos decretos do presidente Vladimir Putin sobre os "Objetivos Nacionais de Desenvolvimento da Federação Russa", referindo-se à experiência milenar do caminho espiritual da Rússia.
"De Volta para o Futuro" é a definição da abordagem fundamentalista que visa fortalecer a consciência dos russos, segundo a qual somente baseando-se nos princípios originais da civilização e nos valores tradicionais transmitidos pelos ancestrais é possível construir efetivamente o futuro do país, um futuro que corresponda aos objetivos nacionais contemporâneos.
O moderador Andrei Kormukhin, fundador do movimento das Quarentenas, declarou que "a Rússia está no início de um grande e novo caminho para se estabelecer como um país civilizador, no centro dos polos do mundo multipolar, grande em sua milenar bogotsentričnost [a "centralidade divina"]". A seu ver, somente por meio do renascimento dessa grande história será possível "corrigir a situação demográfica, o clima ético e moral e a vida social e econômica, passando de uma sociedade de consumo que gera vícios e corrupção para uma relação social baseada na justiça e na solidariedade".
Segundo a vice-presidente da Duma, Anna Kuznetsova, "somos chamados a realizar o objetivo da tutela do povo [outro neologismo de narodosbereženi] como um objetivo nacional, que só pode ser alcançado por um Estado soberano que reivindica o seu direito", especialmente para "garantir um futuro feliz e estável para nossos filhos".
O governador da região de Vologda, o ultraconservador Georgy Filimonov, apresentou o programa regional "Família: pedra angular da Rússia setentrional", que no ano passado alcançou seu objetivo de aumentar os nascimentos dos "primeiros filhos" pela primeira vez, graças a "medidas preventivas contra o aborto", às restrições à venda de álcool e cigarros eletrônicos e aos financiamento concedidos às jovens, incluindo menores de idade, disponíveis a engravidar.
O arcebispo das Ilhas de Sakhalin e Curilas, no Extremo Oriente, Nikanor (Anfilatov), explicou que o papel de país civilizador da Rússia "baseia-se não apenas em normas do direito, mas sobretudo em fundamentos espirituais", e que os desafios do presente só podem ser enfrentados "restaurando a lei moral nos corações das pessoas, para fortalecer a harmonia social".
Vakhtang Kipšidze, vice-presidente do Departamento Sinodal, acrescentou que "devemos oferecer uma interpretação cristã das urgências atuais, como a inteligência artificial". Ele traça um paralelo com a Rússia do século XV, período de renascimento após o jugo tártaro, "quando a IA não existia, mas vimos como tudo pode mudar e devemos nos preparar para não sucumbir às novas tecnologias".
O presidente da Comissão Patriarcal para a Família, padre Feodor Lukyanov, recordou o apelo do Patriarca Kirill para combater a magia e os rituais ocultos, que "espalhavam sentimentos radicais e hostis contra o ministério dos sacerdotes", causando uma degradação espiritual da sociedade, “com a publicidade obsessiva dessas práticas”, que sempre foram muito difundidas na Rússia desde a coexistência do Batismo cristão e dos antigos ritos pagãos.
O trabalho da conferência foi dividido em várias áreas temáticas, a primeira das quais foi “Família: superação da mentalidade egocêntrica e regeneração da mentalidade sobornica [a partir do conceito de sobornost, “comunhão universal”]”, com muitos especialistas em demografia e políticas da família, enfatizando que “a crise familiar é em grande parte uma crise de significado” e, portanto, requer “a restauração da hierarquia de valores, colocando a responsabilidade compartilhada e o sacrifício amoroso no lugar do conforto pessoal”. Por esse motivo, os subsídios estatais para as famílias não devem ser apenas ajuda material, mas “apoio ao corpo espiritual”. As outras sessões abordaram temas da “Ortodoxia e do esporte”, da “Família, casa e crianças” no campo da habitação familiar urbana e rural, fo “Futuro da juventude”, do “Renascimento da Santa Rus' no Campo da Cultura” e o “Papel dos empreendedores tradicionalistas na redescoberta da Santa Rússia”.
O momento central de todas as iniciativas das Leituras de Natal foi o discurso do Patriarca Kirill (Gundyaev) de Moscou na sessão plenária da Duma e do Conselho da Federação, uma variante “institucional” introduzida neste evento apenas nos últimos anos para enfatizar “o esforço conjunto da Igreja e dos representantes do poder legislativo, que compartilham a responsabilidade pelo destino do povo”, como enfatizou o patriarca. É necessário “fortalecer não apenas o Estado, mas também a soberania espiritual, para que o povo cresça moralmente na expressão de seu potencial intelectual, cultural e criativo”, proclamou Kirill, para alcançar uma salvação que não adie um futuro Reino dos Céus, porque “ele começa aqui, na terra”. E se, ao contrário, o homem “tem o inferno na alma e sua consciência vive nas trevas”, esse estado miserável continuará por toda a eternidade.
O patriarca discorre sobre o papel da Igreja em colaboração com o Estado, “certamente com aqueles representantes do poder que concordam com a defesa dos valores tradicionais”, mesmo que a Igreja não participe diretamente da luta política, mas “não se furte à luta para afirmar a verdade divina, mesmo em debates abertos com aqueles que a contestam”. Na “sinfonia” dos poderes, portanto, a Igreja deve intervir para explicar e defender a “soberania espiritual” que é benéfica não apenas para as instituições estatais, mas “para toda a sociedade civil e para todos os verdadeiros patriotas da Rússia”.
A estes somam-se os muitos cidadãos de outros países que desejam mudar-se para a Rússia, porque em seus países de origem "correm o risco de perder seus empregos, ou mesmo de acabar na prisão, por defenderem princípios morais", e, portanto, a Rússia deve assumir a responsabilidade de representar a "arca universal da salvação" para todos. Kirill assegura que "este não é um pensamento meu, uma imagem que se formou em minha mente enquanto eu escrevia este texto, mas são coisas que me foram ditas por pessoas que vivem em países da Europa Ocidental". O Patriarca agradece a Deus pela decisão do presidente Putin, em agosto de 2024, de assinar o decreto que acolhe estrangeiros que compartilham os valores da Rússia e "não concordam com a ideologia neoliberal que lhes está sendo imposta".
A colaboração entre a Igreja e o Estado é, portanto, particularmente necessária nos tempos atuais da operação militar especial, assegura o patriarca, "quando nossos soldados na linha de frente enfrentam a morte todos os dias e devem responder à questão fundamental de todo ser humano sobre o sentido da vida, defendendo heroicamente os valores fundamentais de nosso povo: os da verdade, da bondade e da justiça".
Recordando o seu sacrifício, "não temos o direito de nos entregarmos ao medo e à preguiça, como infelizmente acontece a uma parte significativa da nossa população", aludindo à política generalizada de indiferença perante tudo o que acontece, típica dos cidadãos de Moscou e São Petersburgo e de todas as grandes cidades da Rússia, onde se tem a sensação de já estar no Reino dos Céus.
O patriarca recomendou então que os políticos resolvessem a questão do estatuto dos capelães militares, "indispensáveis para os compromissos das operações militares especiais", muitas vezes marginalizados pelos "círculos militares que tratam do treino e da formação", pois "quem mais poderá encontrar as palavras certas para confortar aqueles que enfrentam a morte?". Para justificar esta insistência na presença da Igreja no exército, o Patriarca Kirill recorda "toda a história das forças armadas da Rússia", remontando aos monges guerreiros enviados por São Sérgio de Radonezh para acompanhar o Príncipe Dmitry Donskoy na Batalha de Kulikovo em 1380, quando os russos derrotaram os tártaros pela primeira vez, destacando o papel salvador da Santa Rússia. O último ponto abordado foi a necessidade de banir a vulgaridade da língua russa comum, o que pareceu uma crítica velada às expressões típicas "de rua" do presidente Putin, que, em última análise, também são um legado da língua russa do passado (quase todos os palavrões russos mais frequentes são encontrados nas cartas de Ivan, o Terrível, do século XVI). A Igreja e o Estado na Rússia estão, portanto, buscando conjuntamente olhar para o futuro, mas também para o passado.
*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui