Vítima irlandesa de abusos encontra o Papa: “Ele sentiu a minha dor”
Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano
“Não foi culpa minha, mas culpa dos outros.” David Ryan conta que levou quarenta anos para chegar a essa consciência, isto é, de que os abusos que ele e o irmão Mark — hoje falecido — sofreram quando eram crianças no Blackrock College, administrado pelos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos) em Dublin, não eram responsabilidade deles. Quatro décadas para reconciliar-se com a própria história, com a própria vida, com o sofrimento seu e de sua família. Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, como um bálsamo sobre essas feridas, chegaram as palavras do Papa Leão XIV, que o recebeu em audiência privada no Vaticano. Palavras de empatia, de proximidade e de pedido de desculpas para ele, para o irmão e para todas as vítimas da Igreja Católica na Irlanda.
“Ele entendeu a minha dor”
Ryan não contém a emoção ao relatar à imprensa, à margem da audiência, o que viveu no Vaticano: “Que experiência! Nunca vou esquecer, nunca, nunca, nunca”. “Um homem adorável”, assim David define o Papa Leão. Um homem sincero, empático: “Ele entendeu a minha dor; mesmo não a tendo vivido, sabe quanta dor eu e minha família vivemos”. Ele, sua família e todos “os outros sobreviventes que ainda não se manifestaram”. Essa é a esperança que o Papa compartilhou com Ryan: “Ele disse que espera que outras pessoas se manifestem e falem. É isso que eu quero: que outras pessoas se manifestem”.
As denúncias
É uma batalha que David e Mark travaram durante anos em nome de todos os sobreviventes do Blackrock College e da escola primária Willow Park, onde cerca de 350 pessoas denunciaram abusos ocorridos dentro dessas instituições e também em outras escolas igualmente administradas pelos Espiritanos, cometidos por religiosos e por funcionários leigos. Fatos que estão sendo investigados por uma Comissão formal de inquérito, instituída pelo governo irlandês em setembro de 2024.
Empatia com os sobreviventes
“Levei quarenta anos para entender que não era culpa minha, mas culpa deles. Lutamos muito”, explica Ryan. Ao Papa, contou tudo isso: “Falei com ele sobre os abusos… Perguntei por que esses padres ainda fazem isso”. E de Leão garante ter percebido “a sua empatia pelos sobreviventes, pela minha família e pelos meus amigos mais próximos; ele ficou triste. Sei que foi sincero, foi gentil e respirou fundo várias vezes antes de responder a uma pergunta… Mas foi bom, muito bom. Estou muito feliz”. Também Mark, falecido em 2023 aos 62 anos, por suspeita de ataque cardíaco, teria ficado feliz. “Mark estaria muito orgulhoso do que fizemos”.
Ao Papa Leão XIV, o hóspede irlandês mostrou uma foto dos dois juntos, de dezembro de 2022, e presenteou-o com um broche representando a cruz de Santa Brígida, considerada a padroeira da Irlanda, celebrada em 1º de fevereiro, data em que se recorda sua morte. Da audiência participou, apenas nos minutos finais, também Deirdre Kenny, ativista do One In Four, grupo de apoio às vítimas de abusos, entre os principais pontos de referência no país.
Outras audiências com vítimas de abusos
Não é a primeira vez que o Papa Leão recebe vítimas de abusos. Em outubro de 2025, o Pontífice concedeu audiência no Vaticano a seis membros do conselho diretor da ECA Global, associação internacional de direitos humanos que luta por maior apoio e por indenizações às pessoas que sofreram abusos e pede maior empenho e colaboração da Igreja Católica. Em novembro, encontrou-se com 15 pessoas provenientes da Bélgica, vítimas de abusos quando eram menores por parte de membros do clero. Momentos para devolver proximidade e consolação a essas pessoas. Porque, como o próprio Papa afirmou no recente Consistório extraordinário, é “um escândalo” quando aqueles que sofreram abusos não se sentem acolhidos e acompanhados na Igreja.
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