Papa: verdade não se fabrica, não se manipula, se acolhe e se busca com humildade
Raimundo de Lima – Vatican News
Após o Encontro com as Autoridades, a sociedade civil e o Corpo Diplomático no Palácio Presidencial, esta terça-feira, 21 de abril, o Papa teve um Encontro com o Mundo da Cultura no Campus Universitário Leão XIV da Universidade Nacional, em Malabo, desde janeiro passado, ex-capital da Guiné Equatorial, última etapa da viagem apostólica internacional do Santo Padre em terras africanas. O evento marcou a inauguração do novo campus da Universidade Nacional da Guiné Equatorial (UNGE), criada em 1995, cuja nova sede universitária recebeu o nome do Pontífice. O Campus Universitário Papa Leão XIV, situado na parte norte da ilha de Bioko, é a estrutura acadêmica mais imponente do país.
Colocar o conhecimento ao serviço do bem comum
Esta inauguração é um gesto de confiança no ser humano: uma afirmação de que vale a pena continuar a apostar na formação das novas gerações e nessa tarefa, tão exigente quanto nobre, que consiste em procurar a verdade e colocar o conhecimento ao serviço do bem comum.
Portanto, continuou o Pontífice, este momento reveste-se de um significado que vai muito além das fronteiras materiais do local e dos edifícios. Hoje abre-se igualmente espaço à esperança, ao encontro e ao progresso. Toda a verdadeira obra educativa, com efeito, é chamada a crescer não só como estrutura, mas como organismo vivo.
Universidade chamada a ser enraizada na busca da verdade
Talvez por isso, afirmou Leão XIV, a imagem da árvore resulte particularmente eloquente para falar da missão universitária. Para a população da Guiné Equatorial, a ceiba, árvore nacional, adquire um elevado valor evocativo. Uma árvore cria raízes profundas, ergue-se para o alto com paciência e força e encerra em si uma fecundidade que não existe por si mesma.
Pela sua grandeza, pela solidez do seu tronco e pela extensão dos seus ramos, esta árvore parece oferecer uma parábola do que uma instituição universitária está chamada a ser: uma realidade firmemente enraizada na seriedade do estudo, na memória viva de um povo e na busca perseverante da verdade.
Simbologia de algumas árvores bíblicas
Só assim poderá crescer firme; só assim será capaz de se elevar sem perder o contato com a realidade histórica em que se insere e de oferecer às novas gerações, para além das ferramentas para o sucesso profissional, razões para viver, critérios para discernir e motivos para servir.
A esse ponto de seu discurso, o Santo Padre ressaltou que a história do homem pode ser interpretada também através da simbologia de algumas árvores bíblicas. No jardim do Livro do Gênesis, junto à árvore da vida, ergue-se a árvore do conhecimento do bem e do mal. O problema não reside, observou o Papa, no conhecimento, mas no seu desvio para uma inteligência que já não procura corresponder à realidade, mas sim moldá-la à sua própria medida, avaliando-a de acordo com a conveniência daquele que pretende conhecê-la. Aí, prossegiuiu o Pontífice, o conhecimento deixa de ser abertura e torna-se posse; deixa de ser caminho para a sabedoria e transforma-se numa afirmação orgulhosa de autossuficiência, dando lugar a desorientações que podem chegar a tornar-se desumanas.
A tradição cristã contempla a árvore da Cruz
Leão XIV observou ainda que a história bíblica não se esgota diante daquela árvore. A tradição cristã contempla outra árvore, a da Cruz, não como uma negação da inteligência humana, mas como um sinal da sua redenção. Se no Gênesis surge a tentação de um conhecimento separado da verdade e do bem, na cruz revela-se, pelo contrário, uma verdade que, longe de impor o seu domínio, se oferece por amor e eleva o homem à dignidade com que foi concebido desde a sua origem.
Ali, o ser humano é convidado a deixar que o seu desejo de conhecer seja curado: a redescobrir que a verdade não se fabrica, não se manipula nem se possui como um troféu, mas se acolhe, se busca com humildade e se serve com responsabilidade.
Amor pelo conhecimento colocado no seu contexto original
Por isso, numa perspetiva cristã, Cristo não se apresenta como uma saída fideísta face ao esforço intelectual, como se a fé começasse onde a razão se detém. Pelo contrário: manifesta-se n’Ele a profunda harmonia entre verdade, razão e liberdade. A verdade apresenta-se como uma realidade que precede o homem, o interpela e o chama a sair de si mesmo, e por isso pode ser procurada com confiança.
Desta forma, disse o Papa, a árvore da Cruz recoloca o amor pelo conhecimento no seu contexto original. Ensina-nos que conhecer significa abrir-se à realidade, acolher o seu sentido e guardar o seu mistério. Assim, a busca da verdade permanece verdadeiramente humana: humilde, séria e aberta a uma verdade que nos precede, nos chama e nos transcende. Leão XIV acrescentou o desejo sincero que a Igreja católica expressa no seu empenho plurisecular no âmbito da educação: “que as novas gerações sejam formadas de maneira integral, para além da mera aparência do sucesso”. Os frutos não tardarão a surgir, enfatizou, fazendo votos de que “estes frutos, além de serem abundantes, sejam ingualmente muito bons”.
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