Os Relatórios Finais do Sínodo sobre a poligamia e o clamor dos pobres e da terra
Vatican News
A Secretaria Geral do Sínodo publicou nesta terça-feira (24/03) o Relatório Final do Grupo de Estudo n.º 2 sobre Escutar o clamor dos pobres e da terra e o da Comissão SCEAM (Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagascar) sobre O desafio pastoral da poligamia.
O Relatório sobre o clamor dos pobres e da terra
O Relatório Final do Grupo de Estudo n.º 2 desenvolve-se em várias seções. Precedido por uma reflexão do cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o Relatório pretende responder às cinco perguntas fundamentais confiadas ao Grupo sobre como a Igreja pode ouvir melhor o clamor dos pobres e da terra. O documento parte da convicção teológica de que escutar os pobres e a terra não é uma opção pastoral, mas um ato de fé constitutivo da missão eclesial, enraizado no duplo mandamento do amor e no exemplo do Bom Samaritano.
Como recorda o cardeal Czerny no prefácio, o termo «escuta» designa um processo integral que compreende o encontro, a compreensão do problema, a ação, a avaliação e o apoio espiritual, e que diz respeito a todos os cristãos, mesmo aqueles que se sentem pobres. A questão orientadora de todo o trabalho do Grupo torna-se, portanto: como pode a Igreja escutar melhor estes dois gritos interligados, consciente de que responder ao grito dos pobres significa também responder ao grito da terra, e vice-versa?
Posteriormente, após delinear as modalidades de trabalho, os limites encontrados e as lições aprendidas, o Relatório identifica os instrumentos já disponíveis na Igreja — paróquias, comunidades de base, movimentos, organismos da Caritas, redes ecumênicas e internacionais — e valoriza a sua riqueza, convidando ao mesmo tempo a superar a tentação de uma delegação ilegítima a estruturas especializadas, apelando à corresponsabilidade de cada batizado. Entre as propostas concretas figura a criação de um Observatório Eclesial sobre a Deficiência, sugerido por um subgrupo composto maioritariamente por pessoas com deficiência, como modelo replicável à escala local e regional para dar voz a todos os grupos marginalizados.
No plano teológico, o Relatório recorda a necessidade de uma teologia que nasça da escuta dos pobres e da terra como lugares teológicos autênticos (loci theologici), e pede que teólogos provenientes das comunidades mais frágeis sejam ativamente envolvidos na elaboração dos documentos magisteriais. É dada grande atenção à formação: os programas de formação para leigos, religiosos e seminaristas devem integrar o encontro direto com as periferias existenciais, a competência na escuta como disciplina espiritual — e não apenas como técnica — e a análise social. O documento conclui com uma visão de uma Igreja sinodal capaz de se tornar ela própria um instrumento de escuta, não se limitando a ter estruturas para escutar, mas transformando cada um dos seus membros numa presença missionária ao lado dos mais vulneráveis.
O Relatório do SCEAM sobre a poligamia
O Simpósio das Conferências Episcopais da África e de Madagascar (SCEAM) elaborou uma reflexão orgânica sobre o desafio pastoral da poligamia, enraizada no contexto cultural, antropológico e teológico do continente africano. O Relatório parte do reconhecimento do valor sagrado da família africana, fundada na aliança entre os grupos humanos, com os antepassados e com Deus, na qual o filho é considerado uma bênção divina e o desejo de uma descendência numerosa parte integrante da identidade comunitária. É neste horizonte que se insere historicamente a existência da poligamia, fenômeno não exclusivo da África, mas aí particularmente enraizado e pastoralmente urgente.
A análise bíblica revela a sua ambivalência: tolerada no Antigo Testamento, é progressivamente superada pela revelação do Novo Testamento, na qual Jesus — remetendo para o desígnio originário do Criador — afirma com clareza a unidade e a indissolubilidade do matrimônio. O documento reafirma com firmeza a doutrina da Igreja: o matrimônio cristão é monogâmico por natureza teológica e não por imposição cultural.
No plano pastoral, o SCEAM exclui qualquer forma de reconhecimento da poligamia e recomenda que os catecumenos polígamos não sejam admitidos ao batismo antes de terem abraçado livremente o compromisso com o matrimônio monogâmico. Não se trata de exclusão ou estigmatização, mas sim de um acompanhamento paciente e respeitoso, inspirado na misericórdia de Cristo. A dignidade da mulher é colocada no centro desta pastoral, com Maria — mãe de Jesus — apresentada como modelo de uma evangelização encarnada na cultura. A conclusão abre caminho para uma «pastoral de proximidade» capaz de abrir as portas da Igreja a todos aqueles que vivem nas periferias espirituais e existenciais, reconhecendo em cada pessoa um filho de Deus chamado ao amor fiel e à Aliança.
Ambos os Relatórios, na sua diversidade temática, testemunham o caminho sinodal da Igreja: uma Igreja que escuta, que discerne, que acompanha e que, enraizada no Evangelho, não cessa de se aproximar de cada homem e mulher, respondendo aos desafios do nosso tempo. Os Relatórios Finais e uma breve síntese em cinco línguas estão disponíveis no site da Secretaria Geral do Sínodo: www.synod.va
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