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Síria: cristãos permaneçam como ponte de diálogo, diz núncio Cona

Entrevista ao novo representante pontifício no país, para onde chegará em 21 de maio. Recordando a experiência na Jordânia, onde ajudou 10 mil deslocados iraquianos em fuga de Mossul, o prelado confia em colaborar com as autoridades sírias: já desde agora ofereço minha total e absoluta disponibilidade para promover espaços de encontro, a fim de construirmos juntos, unindo forças. E ainda, de San Salvador, uma reflexão sobre dom Romero, 46 anos após o assassinato.

Antonella Palermo - Vatican News

Os cristãos sírios aguardam a chegada do novo núncio apostólico, dom Luigi Roberto Cona, nomeado pelo Papa Leão XIV no último dia 19 de março. O diplomata vaticano, que assume o cargo ocupado por 17 anos pelo cardeal Mario Zenari, chegará ao país, marcado por fragilidades sociopolíticas e pelos temores de uma escalada bélica no Oriente Médio, no próximo dia 21 de maio. De El Salvador, onde ainda se encontra nestas semanas, responde às perguntas da mídia vaticana:

Excelência, com qual espírito o senhor se prepara para assumir esta nova missão como representante pontifício na Síria?

Em primeiro lugar, com gratidão ao Santo Padre. Ele me deu a oportunidade de retornar ao Oriente Médio, já que eu havia estado por três anos em Amã, de 2014 a 2017. Portanto, volto àquela região com muita alegria, estou realmente contente. Há tantos elementos tão belos na cultura do Oriente Médio! Poderei servir mais de perto as comunidades cristãs que lá estão presentes; por isso, estou contente, sereno e confiante de que, com a ajuda de Deus, poderemos prestar um bom serviço para o bem daquela Igreja e daquele povo.

Conte-nos um pouco mais sobre essa experiência na Jordânia. O que, nesses anos, o senhor guardou mais intimamente como um dom recebido desses povos do Oriente Médio?

Para mim, foi realmente uma experiência enriquecedora, tanto como sacerdote quanto, principalmente, como cristão, pois cheguei à Jordânia no início da guerra contra o Daesh e, nos três anos em que estive lá, com a ajuda de diversas instituições humanitárias e também de algumas embaixadas acreditadas na Jordânia, bem como, de maneira especial, da Conferência Episcopal Italiana, conseguimos acolher cerca de 10 mil deslocados iraquianos que fugiam de Mossul. Eles vinham para a Jordânia em busca de refúgio, infelizmente à espera de novos destinos. De fato, todas essas pessoas foram para a Europa e a maioria para a América, entre os Estados Unidos e o Canadá, e para a Austrália. Foi uma experiência maravilhosa, pois se via como esses cristãos, que haviam testemunhado de perto tantas atrocidades, preferiram deixar tudo para não abandonar sua fé em Cristo. Por isso, considerei um dever poder assisti-los, ajudá-los, procurando suprir todas as suas necessidades. Isso me enriqueceu imensamente no plano humano, ao ver, de fato, ao tocar com as próprias mãos o que significava deixar tudo pelo amor de Cristo. Foi realmente algo lindo.

Os cristãos na Síria sentem-se continuamente na encruzilhada entre permanecer e encontrar uma via de fuga. O que será do futuro deles?

Olha, por enquanto não tenho muitas informações concretas, porque ainda preciso chegar lá. Espero que se possam criar condições para que eles possam permanecer. Também muitos muçulmanos, creio que inclusive na Síria, e até mesmo alguns responsáveis daquele país, são da opinião de que a presença cristã na Síria é uma riqueza, uma riqueza que se pode garantir não apenas do ponto de vista cultural ou artístico, considerando também os vestígios cristãos que ali se conservam, mas uma presença importante por si só. A comunidade cristã sempre foi uma comunidade de ligação que promoveu o diálogo e também deu muitas contribuições valiosas para a construção daquele país, inclusive do ponto de vista jurídico, administrativo e empresarial. Espero que essas competências e qualidades possam permanecer e servir de base para a construção de um país mais rico, não apenas do ponto de vista econômico, mas também cultural e, principalmente, humano, relacionando-se com os demais sírios, com os sírios de outras religiões, em pé de igualdade.

A Síria é um país com um longo histórico de guerra civil, que busca arduamente um caminho para a estabilização. Como o senhor, na qualidade de núncio apostólico, pretende cooperar com o governo que sucedeu a Bashar Al-Assad? Há uma população, um mosaico de culturas e credos, que vive no medo constante de represálias, de atos de violência por parte de extremistas… Na sua opinião, como será possível reconstruir um senso de cidadania e uma participação na liderança política?

Acredito que o Santo Padre Leão já tenha dado, podemos dizer, uma orientação fundamental. Várias vezes, ouvimo-lo ao longo destes últimos Angelus, reiterar a centralidade e a urgência de voltar ao diálogo. Com a guerra, claramente, tudo está perdido; este é, de certa forma, o magistério dos sumos pontífices deste último século; com a paz, tudo é possível. E o fundamento da paz é o diálogo entre as diferenças para que se possam encontrar pontos de encontro. Por isso, já a partir de agora, ofereço minha total e absoluta disponibilidade para promover espaços de encontro e diálogo, a fim de que possamos construir juntos, unindo forças, insistindo, portanto, não tanto no que nos divide, mas no que nos une. Pois é justamente o que nos une a base para construir um futuro melhor. 

Gostaria também de recordar o terremoto que, há três anos, atingiu a Síria, assim como a Turquia. Qual é o seu pensamento para aqueles que ainda não têm um teto?

Sem dúvida, uma das missões do anúncio apostólico é colaborar e promover o bem-estar do povo para o qual é enviado pelo Santo Padre; por isso, procurarei me empenhar para ver se é possível elaborar projetos de construção. Procurarei me colocar à disposição, na medida do possível, para promover condições de vida mais dignas para as pessoas que ainda sofrem com a perda de suas casas.

Ontem, o exército sírio informou que uma de suas bases foi atacada por mísseis lançados do Iraque. Nos últimos dias, a aviação israelense chegou a atacar Serghaya, na região do Antilíbano, entre a região de Damasco e o vale da Bekaa. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos relatou um ataque com drones à base norte-americana de Harab al-Jir, na zona rural do norte da província de al-Hasakah. Neste contexto tão instável, que cenários o senhor vislumbra para a Síria? O senhor acha que continuará sendo o que ainda hoje se tende a considerar o único país “tranquilo” no Oriente Médio?

Sim, espero que os governantes façam de tudo para não ceder a essas pressões e que possam, ao contrário, atuar ativamente no diálogo pacífico, em vez de responder olho por olho, dente por dente.

A escalada bélica faz temer que a diplomacia esteja falhando em sua tarefa de mediação. O que o senhor acha disso?

Estou convencido de que a diplomacia é bastante ativa. Um grande diplomata pontifício, o cardeal Sodano, falava de uma diplomacia da ausência, ou seja, uma diplomacia que permanece ativa no silêncio, tão ativa e tão silenciosa que parece realmente ausente. Isso não significa que não se trabalhe. Estou convencido de que é melhor trabalhar no silêncio, na penumbra, do que por meio de ações espalhafatosas, que no fim das contas podem, às vezes, ser até contraproducentes.

Há 46 anos, o arcebispo salvadorenho Oscar Romero, enquanto celebrava a missa na pequena capela do hospital oncológico La Divina Providencia, em San Salvador, foi assassinado pelas mãos de um esquadrão da morte de extrema direita. Canonizado em 2018, permanece seu legado de defesa dos direitos humanos nos anos que antecederam a guerra civil (1980-1992), que, lembremos, causou a morte de cerca de 75 mil pessoas. Hoje, do que o senhor mais sente falta em uma figura como a dele?

Veja bem, o que mais falta é ver um pastor que não tome partido. Infelizmente, São Oscar foi puxado pelas duas direções opostas, que o consideravam seu santo, seu campeão. Na verdade, São Oscar não agia por ideologias; ele defendia os direitos humanos porque isso é uma exigência pastoral, faz parte do Evangelho, assim como faz parte da Doutrina Social da Igreja. Ao levar adiante sua luta desarmada e pacífica, ele não fazia outra coisa senão cumprir e responder, de alguma forma, ao chamado que lhe vinha da missão pastoral que havia recebido. Gosto da imagem dele porque, exatamente como você disse, ele foi assassinado enquanto celebrava a missa, mais precisamente no momento do ofertório. Ele tinha as hóstias nas mãos, estava levantando a patena com as hóstias e viu claramente diante de si o assassino. Eu gosto dessa imagem desse sacerdote, desse arcebispo que, diante do risco de perder a vida, não recua, não foge, não se esconde, permanece ali indo ao encontro de seu destino. Naquelas hóstias que oferecia, ele entregava a própria vida à misericórdia de Deus. O que falta, às vezes, é justamente essa coragem dos pastores formados pela Doutrina Social da Igreja e pela caridade pastoral que vem do Evangelho, e que possam dedicar-se ao bem do povo e à salvação não apenas corporal, mas também espiritual.

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25 março 2026, 15:49