Irmã Marivane: “O Jubileu do Bienvenu Shelter celebra vidas reconstruídas pela esperança”
Por Sheila Pires, em Joanesburgo
Ao longo destas duas décadas e meia, milhares de mulheres e crianças passaram pelas suas portas. Muitas fugiam da guerra, da violência, da pobreza extrema ou da perseguição. Outras procuravam apenas um lugar seguro para recomeçar.
Para Irmã Marivane Chiesa, directora do abrigo e religiosa Scalabriniana, o jubileu não é apenas uma celebração institucional, mas sobretudo uma memória viva de pessoas concretas, histórias concretas e vidas transformadas. “Não celebramos simplesmente 25 anos de existência. Celebramos a esperança, a solidariedade e tantas vidas reconstruídas ao longo deste caminho”, afirma.
Segundo a religiosa, o Bienvenu Shelter nasceu de “um sonho de compaixão” partilhado entre várias congregações religiosas e organismos da Igreja Católica. Desde o início, a missão foi construída em conjunto pelas Irmãs Scalabrinianas, as Irmãs da Sagrada Família, o Serviço Jesuíta aos Refugiados e a Arquidiocese de Joanesburgo. “Foi uma obra construída por muitas mãos. Muitas pessoas acreditaram nesta missão e continuam ainda hoje a caminhar connosco”, reitera a religiosa.
Um lugar onde as mulheres reencontram dignidade
Ao entrar no Bienvenu Shelter, não se encontra apenas um abrigo temporário. Encontra-se um espaço onde mulheres feridas pela violência, pelo medo e pela exclusão podem voltar a acreditar em si próprias.
Irmã Marivane explica que o acolhimento vai muito além da assistência básica. “As mulheres recebem acompanhamento humano, psicológico, espiritual e social. Procuramos ajudá-las a recuperar a confiança e a dignidade.”
Esse percurso continua no Madre Assunta Centre, um centro de formação ligado ao abrigo, onde as mulheres frequentam cursos de costura, culinária, informática, beleza e empreendedorismo. “O objectivo é que elas possam sair daqui com ferramentas para reconstruírem a própria vida e sustentarem os seus filhos.”
Segundo a responsável, muitas mulheres conseguem posteriormente iniciar pequenos negócios e tornar-se financeiramente independentes.
“Aprendemos mais do que ensinamos”
Entre as pessoas que acompanham diariamente esta missão está Adelia de Sousa, coordenadora do projecto e uma das colaboradoras mais antigas da instituição. “Estou aqui há 25 anos. Tenho praticamente a mesma idade do abrigo”, conta.
Ao recordar o percurso vivido, Adelia fala de uma experiência profundamente humana. “Aprendemos mais do que ensinamos. Trabalhar com migrantes e refugiados ensina-nos que o mundo precisa de mais cuidado, mais amor e mais empoderamento.”
Ela explica que o Bienvenu Shelter acolhe actualmente não apenas migrantes e refugiadas, mas também mulheres sul-africanas em situação de vulnerabilidade. “As nossas portas estão abertas para todas, sem discriminação e sem rótulos de nacionalidade.”
No centro de formação, mulheres provenientes do Congo, Zimbabwe, Lesoto, Moçambique, Malawi e também da própria África do Sul acabam por descobrir algo que vai além das diferenças culturais.
“No início chegam tímidas e desconfiadas. Mas, pouco tempo depois, já não vemos nacionalidades. Vemos amigas.”
A Igreja respondeu a uma necessidade urgente
A origem do abrigo remonta ao início dos anos 2000, numa altura em que Joanesburgo recebia um número crescente de mulheres migrantes com crianças, sem qualquer apoio ou lugar seguro para ficar.
Padre Rampe Hlobo SJ, ligado ao Serviço Jesuíta aos Refugiados desde os primeiros anos do projecto, recorda que praticamente não existiam estruturas preparadas para acolher mulheres com filhos.
“Havia abrigos para homens ou para mulheres sozinhas, mas não para mães com crianças.”
Segundo ele, o nascimento do Bienvenu Shelter foi uma resposta concreta da Igreja à realidade dos mais vulneráveis.
“As Irmãs da Sagrada Família disponibilizaram o edifício. As Scalabrinianas assumiram a gestão da missão. O Serviço Jesuíta aos Refugiados fazia o encaminhamento das mulheres. Foi um verdadeiro trabalho conjunto.”
Para o sacerdote, esta colaboração continua a ser um exemplo concreto de sinodalidade.
“A sinodalidade não é apenas caminhar juntos em teoria. É discernir juntos e agir juntos em favor dos marginalizados.”
Um testemunho de esperança num mundo marcado pela xenofobia
O trabalho do abrigo continua num contexto social cada vez mais desafiante. Nos últimos anos, a África do Sul voltou a enfrentar tensões ligadas à imigração e episódios de xenofobia.
Irmã Marivane reconhece que estas situações afectam profundamente as mulheres acolhidas.
“Muitas revivem os traumas que já carregam dos seus países ou do percurso migratório.”
Durante momentos de violência ou protestos, algumas mulheres deixam de frequentar os cursos ou têm medo de circular nas ruas. Apesar disso, a religiosa insiste que o trabalho do centro continua baseado na integração e na dignidade humana.
“Todos somos migrantes neste mundo.”
Também o Cardinal Stephen Brislin considera o Bienvenu Shelter um sinal profético para a sociedade sul-africana.
“O centro recorda-nos aquilo que somos chamados a ser como cristãos: pessoas que acolhem, protegem, promovem e integram.”
O Cardeal afirma que, num mundo marcado pela exclusão e pela indiferença, o abrigo permanece “uma boa notícia”.
“Entre tantas histórias de sofrimento, aqui encontramos uma história de esperança.”
“O Evangelho não nos deixa acomodados”
Para Irmã Analita Candaten, provincial das Irmãs Scalabrinianas que participou nas celebrações jubilares, o percurso destes 25 anos mostra a força transformadora da solidariedade.
“Muitas mulheres chegam sem esperança, mas conseguem reencontrar aqui um novo sentido para a vida.”
Ela sublinha que a missão junto dos migrantes continua a ser uma expressão concreta do Evangelho.
“O Evangelho não nos deixa acomodados. Chama-nos continuamente a acolher, ouvir e caminhar com os mais vulneráveis.”
A religiosa recorda ainda as palavras de Cristo: “Era estrangeiro e acolheste-me.”
“Quando acolhemos os migrantes e refugiados, acolhemos o próprio Cristo.”
Caminhar ano após ano
Apesar das dificuldades financeiras e da redução de financiamentos internacionais destinados a projectos humanitários, Irmã Marivane mantém uma visão marcada pela confiança.
“Vamos caminhando passo a passo, ano após ano.”
Segundo ela, o Bienvenu Shelter continua graças à generosidade de doadores, voluntários, organizações parceiras e pessoas comuns que acreditam na missão.
“Quando um trabalho é feito com amor, Deus nunca abandona.”
Vinte e cinco anos depois da sua fundação, o Bienvenu Shelter continua a ser muito mais do que um abrigo. Continua a ser um lugar onde mulheres e crianças redescobrem a própria dignidade, recuperam a esperança e encontram forças para recomeçar.
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