África do Sul: Igreja acompanha migrantes afetados pelos protestos
Por Sheila Pires, em Joanesburgo
Na quinta-feira, 9 de julho, o Gabinete para os Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC) reuniu os coordenadores diocesanos de toda a África do Sul para avaliar a resposta da Igreja antes, durante e depois das manifestações nacionais contra os migrantes realizadas a 30 de junho.
Representantes de várias dioceses sul-africanas partilharam relatos do terreno, destacando tanto o sofrimento das famílias deslocadas como o trabalho discreto, mas determinado, das paróquias, congregações religiosas e organizações católicas que acompanham as pessoas afetadas.
"A Igreja não pode permanecer em silêncio", afirmou D. Kizito aos participantes. "Temos de responder àqueles que batem às nossas portas. À semelhança de Jesus, respondemos através das nossas palavras, das nossas ações e da nossa colaboração com os outros."
Uma Igreja que se preparou antes da crise
Muito antes das manifestações de 30 de junho, a Igreja já se preparava para o agravamento das tensões.
Em maio, o Gabinete para os Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC convocou uma reunião regional online com a Associação Inter-Regional dos Bispos da África Austral (IMBISA), reunindo responsáveis da Igreja e representantes de organizações da sociedade civil de toda a África Austral para refletirem sobre os protestos previstos e as suas possíveis consequências humanitárias. A SACBC publicou igualmente apelos públicos, exortando ao respeito pela dignidade de toda a pessoa humana e incentivando as dioceses a reforçarem a colaboração com a sociedade civil, organizações humanitárias e autoridades locais.
Medo nas ruas, esperança nas comunidades locais
Embora muitas dioceses tenham comunicado que as manifestações decorreram de forma pacífica, o medo espalhou-se rapidamente entre as comunidades migrantes.
Muitos estabelecimentos comerciais encerraram, as famílias permaneceram em casa e numerosos migrantes indocumentados procuraram refúgio em igrejas ou junto de vizinhos.
Numa diocese, uma religiosa recordou que várias famílias requerentes de asilo lhe pediram que mantivesse os portões da missão abertos caso irrompesse violência.
"Disseram-me: Irmã, se acontecer alguma coisa, por favor deixe os portões abertos para podermos correr para aqui e encontrar abrigo.” Mais tarde, acompanhou migrantes com documentação caducada e apoiou famílias que procuravam proteção na sequência de operações policiais.
Outro coordenador diocesano relatou que muitas comunidades locais resistiram aos sentimentos de hostilidade. "Os nossos migrantes passaram a fazer parte das nossas comunidades. Muitos sul-africanos protegeram-nos porque reconhecem o contributo que dão aos negócios locais e ao emprego."
Acompanhar os deslocados
Noutras dioceses, porém, os protestos rapidamente evoluíram para uma emergência humanitária.
Numa cidade costeira, centenas de migrantes concentraram-se junto do consulado do seu país à procura de assistência, antes de serem transferidos para centros temporários de acolhimento.
Trabalhando em conjunto com Igrejas de diferentes denominações cristãs, organizações humanitárias e comunidades locais, a Cáritas coordenou a resposta de emergência, distribuindo kits de higiene, artigos para bebés, alimentos e outros bens essenciais.
Uma coordenadora da Cáritas explicou que aquilo que começou como uma resposta de emergência evoluiu para um desafio humanitário muito mais amplo, sendo que muitas famílias deslocadas continuam a necessitar de acompanhamento a longo prazo, para além da assistência imediata.
Noutra região, uma equipa diocesana da pastoral dos refugiados acompanha centenas de migrantes deslocados que permanecem junto de um Centro de Receção de Refugiados, depois de terem sido expulsos das comunidades onde viviam.
A coordenadora descreveu as difíceis condições enfrentadas por mais de 350 pessoas, entre elas muitas crianças. "Dormem nos passeios, sem condições adequadas de saneamento, e dependem totalmente da comida confeccionada que lhes é levada por pessoas de boa vontade."
Em vez de criar campos temporários permanentes, a Igreja local está a trabalhar com organizações humanitárias e parceiros locais para ajudar as famílias a reintegrarem-se em segurança nas comunidades, sempre que possível.
Musina no centro da resposta humanitária
Um dos testemunhos mais comoventes foi dado por uma Irmã missionária que trabalha num abrigo para mulheres e crianças vulneráveis em Musina, perto da fronteira entre a África do Sul e o Zimbabué.
Falando a partir do próprio centro de repatriamento, descreveu uma operação humanitária sem precedentes. "Na primeira noite havia literalmente milhares de pessoas. Ninguém esperava uma afluência desta dimensão", afirmou.
Estimou que mais de 20 mil migrantes passaram inicialmente pelas instalações temporárias antes de começarem as operações de transporte, por autocarro, para os países vizinhos. No momento da reunião, cerca de mil pessoas permaneciam no centro à espera de transporte.
Em colaboração com o Departamento dos Assuntos Internos, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e várias organizações de solidariedade, voluntários da Igreja continuam a prestar alimentos, acompanhamento pastoral e apoio prático.
A Irmã sublinhou, contudo, que continuam a existir necessidades significativas.
"Há muito sofrimento, sobretudo quando as famílias foram separadas. Muitas pessoas estão assustadas e vivem na incerteza quanto ao futuro."
Entre as necessidades mais urgentes, destacou alimentos para bebés, produtos de higiene, toalhas e acompanhamento pastoral.
"O nosso papel é também estar presentes: escutar, consolar e caminhar com pessoas que perderam quase tudo."
Continuar a acompanhar
A reunião realizou-se numa altura em que os organizadores das manifestações de 30 de junho anunciaram que os protestos contra os migrantes passariam a realizar-se semanalmente em várias zonas da África do Sul.
Embora reconhecendo as preocupações legítimas relacionadas com a migração irregular, os representantes da Igreja insistiram repetidamente que qualquer resposta deve respeitar a dignidade e os direitos de toda a pessoa humana.
Os participantes manifestaram igualmente preocupação pelo facto de refugiados, requerentes de asilo e migrantes com documentação válida estarem cada vez mais a ser afetados juntamente com os migrantes indocumentados, enquanto alguns cidadãos sul-africanos também se tornaram vítimas, depois de terem sido erradamente identificados como estrangeiros.
Ao encerrar o encontro, D. Kizito recordou aos participantes que a missão da Igreja não termina com a resposta imediata à crise.
"Não se trata simplesmente de um acontecimento", afirmou. "É um processo que continuará. Haverá muitas consequências e devemos continuar a responder com compaixão, colaboração e esperança."
D. Kizito confirmou ainda que os relatórios apresentados pelas dioceses serão levados aos bispos da SACBC durante a Assembleia Plenária de agosto, à medida que a Conferência continua o seu discernimento sobre a resposta pastoral da Igreja.
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