CF 2026: fé e ação na promoção de moradias dignas
Mariane Rodrigues
A goiana Vaneide Sousa Araújo, de 44 anos, viveu por muitos anos de aluguel. A muito custo, ela conseguiu comprar um terreno. Era o caminho para a casa própria. No entanto, sua condição de vulnerabilidade social impediu que o sonho de um lar se concretizasse. No lugar de um imóvel digno, ela improvisou um barraco de madeira com lonas para viver com os filhos, hoje com 7, 12 e 15 anos de idade.
Foi somente em março de 2025 que o sonho de Vaneide saiu do campo abstrato e se concretizou. O projeto Pastoral da Moradia – Casas Para Jesus, da Paróquia Santo Inácio de Loyola, em Goiânia, fez parte dessa história ao construir, com a ajuda de uma rede de voluntários, uma casa para Vaneide e seus filhos. O imóvel fica localizado em Aparecida de Goiânia (GO).
“Como a casa era de madeira e lona, tanto o sol quanto a chuva destroem. Não tem duração. E eu tinha medo do barracão começar a cair e eu não tinha condição de jeito nenhum de construir uma casa”, relata Vaneide.
A nova casa de Vaneide foi construída com tijolos, revestida com cerâmica e entregue com todo o sistema elétrico e hidráulico instalado, garantindo uma moradia digna para ela e os filhos.
A casa de Vaneide é apenas uma das 218 que já foram entregues pela Pastoral da Moradia a famílias que antes viviam em condições precárias, em estruturas sem acesso à água potável e até a um banheiro. A iniciativa começou em 2002, com seis casais que participavam do grupo Casais com Cristo, da Paróquia Santo Inácio de Loyola, e queriam vivenciar ações concretas dentro da Igreja. Em abril daquele ano, eles construíram a primeira casa.
Atualmente, a paróquia, por meio da Pastoral da Moradia, trabalha com o envolvimento de uma rede solidária de pessoas que atuam desde a coordenação, passando pela direção espiritual, pelas compras e pela triagem dos beneficiários, até as atividades de obra. Mais de mil pessoas já foram impactadas ao longo de 23 anos de projeto. Em fevereiro, a ação pastoral e paroquial chega à casa 219.
“A Pastoral da Moradia da Paróquia Santo Inácio de Loyola tem uma importância enorme, tanto espiritual quanto social, porque ela concretiza o evangelho na vida das pessoas mais vulneráveis. Não é só construir casas, é construir dignidade, esperança e comunidade. A sua importância está em promover dignidade humana, oferecendo moradia digna a famílias que vivem em situação de extrema vulnerabilidade, unir fé e ação, mostrando que a Igreja não é apenas palavra, mas também gesto concreto e caridade”, explana o coordenador da pastoral na paróquia, Sílvio de Araújo.
Ele destaca que o imóvel vai além de ser um espaço físico: é também um modelo de transformação na vida de uma família, de valor simbólico, que garante o sentimento de pertencimento aos beneficiados e mudança de perspectiva para o futuro de muitas crianças.
“Um ambiente digno favorece estudo, saúde e desenvolvimento. É um fortalecimento de fé porque muitas famílias passam a sentir que Deus não as abandonou, e a reconstrução de esperança porque a casa se torna símbolo de recomeço. Não é só uma obra física, é uma obra de vida. É o papel social da Igreja com a paróquia e com a Pastoral da Moradia”, finaliza Sílvio.
Moradia Digna e Campanha da Fraternidade
A Campanha da Fraternidade de 2026 leva, durante a Quaresma, não só discussões, mas também ações concretas sobre a moradia digna no Brasil. Com o lema “Ele veio morar entre nós”, ela faz a seguinte reflexão: “É bom que todos nos perguntemos: por que estão sem casa estes nossos irmãos? Não têm um teto, por quê?”.
O período quaresmal, em que os cristãos buscam uma conversão espiritual mais intensa com Cristo, também é propício para a conversão social. No ano passado, o meio ambiente esteve no centro da campanha. Neste ano, o direito a um teto de qualidade para os mais vulneráveis estará no eixo da atenção da Igreja no Brasil.
A Campanha da Fraternidade é uma ação desenvolvida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e nasceu na cidade de Nísia Floresta (RN), durante a Quaresma de 1962.
Desde o início, o objetivo é promover, anualmente, uma ampla mobilização sobre um tema que aponte para uma necessidade social, com arrecadação financeira a ser convertida em uma rede de solidariedade voltada àqueles que mais precisam, concretizando, assim, o espírito de fraternidade entre os cristãos.
A moradia já havia sido tema da Campanha da Fraternidade em 1993, quando denunciou a desigualdade nas grandes cidades, expondo o contraste entre localidades planejadas e aquelas marcadas por favelas e moradias precárias.
O tema deste ano foi uma sugestão da Pastoral Nacional da Moradia e Favela. “É um grande apelo para a Igreja ser presença junto às novas periferias. Há tantas áreas que vêm se tornando periferia, favelas, cortiços ou áreas ameaçadas de despejo ou de risco. Também com a emergência climática, muitas áreas vão agravando a situação com mais chuvas, enchentes e um calor crescente”, pontua o coordenador nacional da pastoral, Frei Marcelo Toyansk OFMCap.
Frei Marcelo aponta que a presença não só da Pastoral da Moradia, mas também de outras, como a da Criança, da Saúde, Carcerária, do Migrante, Afro e Juventude, tem forte impacto junto às áreas periféricas.
“Quantas e quantas pastorais sociais também são presença e buscam articular os direitos básicos junto às populações mais periféricas? Quantos projetos sociais também a Igreja realiza junto a áreas mais vulneráveis?”, lembra ele.
Ele enfatiza ainda que a sociedade tem se estruturado de forma excludente, fomentando a periferização e a gentrificação, criando abismos entre duas realidades distintas. “A periferia, que muitas vezes é abandonada, é excluída também do direito à cidade, dos equipamentos públicos e, ao mesmo tempo, também das oportunidades. Essa estrutura social é marcante e, junto a isso, vem uma mentalidade individualista, com vínculos frágeis”, expõe.
No entanto, para Frei Marcelo, há uma inquietação intrínseca ao ser humano diante dessa realidade, que possibilita a criação de vínculos e o compromisso com a vida digna em uma sociedade igualitária.
“À medida que o serviço pastoral pode ajudar a despertar e fortalecer essa inquietação, esse descontentamento com essa realidade da nossa sociedade, nós podemos despertar forças para uma transformação dessa sociedade. [...] Esse é o caminho da Igreja, tão insistido pelo magistério do Papa Francisco e pelos pronunciamentos da Igreja. A Igreja em saída é aquela que, biblicamente, responde aos apelos do evangelho e, ao mesmo tempo, responde aos dias de hoje”, conclui ele.
É na direção da Igreja em saída que a Paróquia Bom Pastor, de Itapetininga (SP), atua com um projeto social que também promove doações de casas às famílias em situação de vulnerabilidade. Já foram entregues três imóveis, cada um deles com 50 m², compostos por dois quartos, um banheiro, sala, cozinha, varanda, lavanderia e pintura completa.
“O próprio evangelho nos provoca a ir ao encontro das pessoas, dos mais necessitados, dos sofridos. É o próprio Jesus quando olhava à multidão passando fome, sem alimento, sem abrigo, sentia compaixão. Esse Jesus que nos move, esse evangelho que nos toca, isso é Igreja”, explana o pároco da Paróquia Bom Pastor, Padre Fernando Carvalho.
Situada em uma área periférica, a Paróquia Bom Pastor observou a necessidade de algumas famílias, muitas delas desabrigadas e outras em estruturas precárias, expostas à chuva e com ausência de higiene. Assim, começou uma rede solidária, na qual cada pessoa envolvida levou sua experiência profissional para enriquecer a iniciativa.
Entre os beneficiados está um casal de idosos, afirma o padre Fernando. Eles moravam em uma casa sem a mínima estrutura, com o telhado caindo e as paredes prestes a desabar. Quando chovia, o medo era constante. A água entrava, e ele sempre perdia algum móvel. “É para aquelas pessoas que verdadeiramente necessitam, que não têm renda, que são sofridas. Então a Igreja vai ao encontro, doa a casa e a dignidade”, finaliza o padre.
Terra, Teto e Trabalho
Durante o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 2014, o Papa Francisco levou aos fiéis presentes a mensagem da Igreja sobre o que ficou conhecido como os três Ts: Terra, Teto e Trabalho. Naquela ocasião, Francisco lembrava que o amor pelos pobres está no centro do evangelho. "Terra, teto e trabalho, aquilo pelo que lutais, são direitos sagrados. Exigi-lo não é estranho, é a doutrina social da Igreja", pontuou o pontífice.
Para o Papa Francisco, moradia e família andam de mãos dadas. Ele foi além: o conceito de moradia ultrapassa os limites de um teto; tem dimensão de lar e de comunidade, pois é por meio da moradia que as famílias constroem laços no bairro, entre vizinhos, criando um sentimento de pertencimento e convivência.
“Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários, mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias. Como faz mal ouvir que as povoações pobres são marginalizadas ou, pior ainda, que as querem deslocar! São cruéis as imagens dos despejos, das gruas que abatem barracas, imagens tão parecidas com as da guerra. E hoje vê-se isto”, enfatizou o pontífice.
Em novembro do ano passado, o Papa Leão XIV recebeu em audiência, na Sala Paulo VI, os participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Ele seguiu na mesma direção de Francisco. “Repetindo os pedidos de Francisco, hoje eu digo: terra, teto e trabalho são direitos sagrados, pelos quais vale a pena lutar por ele e quero que vocês me ouçam dizer: ‘Estou dentro! Estou com vocês’”, enfatizou Leão.
O Papa Leão XIV reforçou ainda: “A Igreja deve estar com vocês: uma Igreja pobre para os pobres, uma Igreja que se aproxima, uma Igreja que corre riscos, uma Igreja corajosa, profética e alegre!”
Moradia no Brasil
Uma pesquisa da Fundação João Pinheiro, publicada em 2025, aponta que o Brasil tinha um déficit habitacional de 5.977.317 domicílios em 2023. O número representa 7,6% do total de domicílios particulares em todo o país.
Os números demonstram ainda que o componente predominante desse déficit continua sendo o ônus excessivo com aluguel urbano, que corresponde a 3.665.440 domicílios (61,3%), seguido por habitações precárias (1.241.437) e coabitação (1.070.440).
O Sudeste (2,31 milhões) e o Nordeste (1,63 milhões) são as regiões com maiores contingentes absolutos do déficit, seguidos por Norte, Sul e Centro-Oeste.
FOTOS: Gabriel Côrtes - Voluntário
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