O deserto florescerá: o profundo e transformador sentido da Quaresma
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
A liturgia da Igreja muda de cor e se veste de roxo. O canto solene do “Aleluia” se cala em nossos lábios. Um clima de nobre sobriedade toma conta de nossas celebrações, dos nossos paramentos e do nosso espírito. Nós iniciamos agora, com a graça de Deus, o sagrado e favorável tempo da Quaresma. Percebo que muitos católicos ainda olham para este período litúrgico com um sentimento equivocado de medo, tristeza ou peso. Eles pensam que a Quaresma significa apenas sofrimento, dor, proibição e rosto fechado. Precisamos corrigir esse olhar com urgência.
A Igreja não instituiu a Quaresma para celebrar a dor. A Igreja nos dá a Quaresma para celebrar a preparação para a Vitória definitiva. Nós entramos num grande retiro espiritual de quarenta dias para redescobrir quem nós somos de verdade e quem Deus é para nós. O nosso amado Papa Leão XIV nos lembrou recentemente, em sua pregação, que “a Quaresma é a primavera da alma”. O Pontífice diz que precisamos ter a coragem de podar os galhos secos e mortos para que a vida nova brote com vigor na manhã da Páscoa.
O número quarenta possui um simbolismo riquíssimo nas Sagradas Escrituras e orienta a nossa compreensão deste tempo. O povo de Israel caminhou quarenta anos pelo deserto, entre a escravidão do Egito e a liberdade da Terra Prometida, para aprender a confiar na providência divina. O profeta Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites até a montanha de Deus para renovar a sua vocação profética. O próprio Jesus, impelido pelo Espírito, jejuou quarenta dias no deserto antes de começar sua missão pública e enfrentar o tentador.
Esse número indica um tempo necessário para uma obra completa e madura. Deus não faz as coisas de qualquer jeito nem com pressa. Deus respeita o tempo de amadurecimento da semente. Nós vivemos hoje na cultura do “tudo agora”, do “clique rápido”, da resposta imediata e da ansiedade. A Quaresma freia essa pressa doentia. Ela nos ensina que a verdadeira conversão exige paciência, processo, pedagogia e perseverança.
O significado central e profundo da Quaresma gira em torno da palavra grega metanoia. Essa palavra significa muito mais do que apenas pedir desculpas por um erro pontual. Ela significa “mudança de mentalidade”. Converter-se quer dizer mudar a direção do olhar, dos pensamentos e dos passos. Nós caminhamos muitas vezes distraídos pela vida, focados apenas no lucro financeiro, no prazer imediato ou na vaidade pessoal. A Quaresma nos para no meio do caminho e pergunta: para onde você está indo com tanta pressa? Será que essa estrada larga leva para a vida plena ou para o abismo do vazio? O profeta Joel grita na liturgia: “Voltai para mim de todo o coração”. Deus não quer apenas ritos externos ou aparências de piedade. Deus quer a nossa vontade sintonizada com a vontade dele.
Nós podemos entender a riqueza teológica da Quaresma através de três chaves de leitura fundamentais que a Igreja nos oferece: a dimensão batismal, a dimensão penitencial e a dimensão da Paixão.
Primeiro, olhemos para a dimensão batismal. Nos primeiros séculos da Igreja, a Quaresma servia principalmente como a reta final de preparação intensa para os catecúmenos que receberiam o Batismo na noite santa da Páscoa. Toda a comunidade cristã rezava, jejuava e instruía esses novos irmãos. Hoje, nós já somos batizados, mas precisamos renovar a nossa escolha fundamental por Cristo. A rotina e o pecado mancham a nossa veste branca.
A Quaresma nos convida a limpar essa veste. Nós caminhamos para a Vigília Pascal com o desejo ardente de renovar as nossas promessas batismais com consciência e fervor. Nós queremos ter a força de dizer “não” ao demônio e às suas seduções e dizer “sim” a Deus com uma maturidade nova. A Quaresma funciona como um grande retiro para recuperarmos a dignidade de filhos amados que o Batismo nos deu.
Segundo, consideramos a dimensão penitencial. Nós reconhecemos com humildade que somos pecadores. Não adianta esconder a sujeira debaixo do tapete ou fingir uma santidade que não temos. O cristão realista sabe que carrega fraquezas, vícios e tendências ao mal.
A penitência funciona como um remédio amargo, mas necessário, e não como um castigo vingativo. Quando a Igreja pede jejum, abstinência e obras de caridade, ela oferece uma terapia para a alma. O jejum cura o nosso apego desordenado aos sentidos e ao conforto. A esmola cura o nosso apego à segurança do dinheiro e à ganância. A oração cura o apego ao próprio ego e à soberba.
O Papa Leão XIV insiste vigorosamente que a penitência moderna precisa incluir o “jejum da indiferença”. O Papa nos ensina que precisamos sentir a dor do outro na nossa própria carne. A penitência quebra a casca dura do nosso coração endurecido e nos faz mais humanos, mais fraternos e mais sensíveis à voz de Deus.
Terceiro, vivemos a dimensão da Paixão. Nós acompanhamos Jesus que sobe decididamente para Jerusalém. Ele sabe que a Cruz e o sofrimento o esperam. Mesmo assim, Ele caminha com decisão, liberdade e amor infinito. A Quaresma nos ensina a abraçar as nossas cruzes cotidianas sem revolta. O desemprego que assusta, a doença que debilita, a violência urbana que fere o nosso Rio de Janeiro, as crises familiares que nos entristecem. Tudo isso pesa nos nossos ombros. Mas a Quaresma nos diz que não carregamos esse peso sozinhos. Cristo carrega a cruz conosco. E, mais importante ainda, a Cruz não é o fim da linha. A Cruz serve de passagem, de ponte. O sofrimento, quando vivido em união com Cristo, ganha valor de redenção e de amor.
Nós vivemos na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, uma cidade maravilhosa que muitas vezes parece um deserto de concreto, de violência armada e de barulho ensurdecedor. Precisamos criar “oásis” de silêncio e oração no meio desse caos. O deserto bíblico era o lugar da prova e da tentação, mas também era o lugar do encontro íntimo e exclusivo com Deus. O Senhor disse pelo profeta Oseias: “Eu a conduzi ao deserto e falarei ao seu coração”. Eu peço que vocês aproveitem estes dias santos para desligar um pouco o rádio, a televisão e as notificações do celular. Deus fala na brisa suave do silêncio. Se nós não silenciamos o exterior e o interior, nós não escutamos a voz suave do Espírito Santo.
O combate espiritual marca profundamente este tempo litúrgico. O diabo tentou Jesus no deserto e tenta a nós hoje com as mesmas estratégias. Ele oferece o ter, o poder e o prazer como caminhos de felicidade. Ele sugere que a realização está no dinheiro fácil, na corrupção, na exploração do próximo ou na satisfação imediata dos instintos.
A liturgia da Quaresma nos dá as armas espirituais para vencer esse combate mortal: a Palavra de Deus e os Sacramentos. Leiam a Bíblia Sagrada diariamente nestes quarenta dias. Meditem os Evangelhos. Confessem seus pecados com arrependimento sincero. O confessionário é o tribunal da misericórdia, onde a sentença é sempre o perdão para quem se arrepende. Recebam a Eucaristia com frequência. O cristão bem alimentado com o Corpo de Cristo não cai nas armadilhas do inimigo.
Eu exorto cada católico, cada família, cada jovem e cada idoso desta Arquidiocese a viver a Quaresma com seriedade, profundidade e também com alegria interior. Não mostrem um rosto triste aos homens, como Jesus pediu no Evangelho de Mateus. Perfumem a cabeça com a caridade fraterna e lavem o rosto com a esperança cristã. A Quaresma prepara a grande festa da Vida. Se nós morrermos para o pecado agora, nós ressuscitaremos verdadeiramente com Cristo na Páscoa. O sepulcro vazio nos espera. A vitória já pertence a Cristo, mas nós precisamos tomar posse dela através da nossa conversão diária e constante.
Que a Virgem Maria, a Senhora das Dores e da Esperança, a primeira discípula que fez o caminho da Cruz até o fim, nos acompanhe nesta jornada. Que Ela nos ensine a fidelidade e a coragem de permanecer de pé diante das cruzes da vida. Não tenham medo da conversão. Deus espera por nós de braços abertos, como o Pai da parábola do Filho Pródigo esperava o filho que partiu. O Pai tem saudades de nós. Vamos voltar para casa. Vamos voltar para o abraço de Deus.
Uma santa, abençoada e fecunda caminhada quaresmal a todos vocês.
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