Dom João Carlos: “sofrimento do povo moçambicano não é indiferente à Igreja universal”
Padre Bernardo Suate – Vatican News
O gesto do Santo Padre “confirma que o sofrimento do povo moçambicano não é invisível nem indiferente à Igreja inteira, que somos todos uma família única e quando o Papa pronuncia estas palavras nos mostra que aquilo que atinge os pobres, a população sem capacidades, crianças e pessoas vulneráveis, é sentido pela Igreja universal”, sublinhou o Arcebispo, para quem a voz do Papa Leão dá voz e visibilidade ao drama que se vive em Moçambique, e a todos interpela à caridade, proximidade para com todos os que sofrem.
Situação das populações afetadas pelas cheias
Dom Hatoa Nunes falou em seguida da situação, neste momento, das populações afetadas pelas cheias, para reafirmar que, desta vez, as cheias atingiram sobretudo a zona Sul, ou seja, a província de Gaza (epicentro das inundações), onde quase toda a cidade de Xai-Xai está submersa, mas também as províncias de Maputo e parte da província de Inhambane. E no Centro do País, observou o prelado, também Beira e partes da Zambézia foram atingidas.
“Só em Maputo mais de 235 mil ficaram afetadas pelas inundações; em Gaza o dobro, quase 500 mil pessoas; em Maputo 8 pessoas perderam a vida e em Gaza quase 15, e depois tem os desaparecidos que são vários”, informou Dom João Carlos.
Resposta da Igreja em Moçambique
Desde o primeiro momento, prosseguiu o prelado, muitos, entre Congregações, Consagrados, e não só, procuraram ajudar quem a dado momento se viu sem nada por causa das águas que invadiram as casas e encheram os rios. Foi então, que as Caritas foram acionadas e os Bispos começaram a se pronunciar, lançando apelos à solidariedade. Então, a Caritas de Maputo, primeiro criou um Centro de recolha e processamento de dados, e em seguida organizou campanhas de recolha e de solidariedade e, em terceiro lugar, cuidou do relacionamento com as outras instituições e organizações (Igrejas e várias outras entidades), e assim foi possível, só em Maputo, criar 60 Centros, e em Gaza 42.
Ação concertada e intervenção de muitos ajudou a evitar o pior
“Neste momento, a nível da Igreja católica em Maputo, apenas um Centro agora se mantém aberto, e em Gaza ainda 4 Centros acolhendo muitas famílias (num total de perto de 42 mil pessoas)”, reitera Dom João Carlos acrescentando que, graças à ação concertada e a intervenção de muitos (organizações, famílias a título pessoal ou em grupo) que quiseram ajudar com os meios que tinham, foi possível conter o número de óbitos.
Desafio do regresso e da reconstrução
Para o prelado moçambicano, o desafio será agora de ajudar as pessoas a regressar às suas zonas ou a novos centros de reassentamento oferecidos pelo Governo e, em seguida, a fase da reconstrução, “fase que exigirá um pouco mais de sabedoria para ver como fazemos as coisas e para que não se repitam tragédias como estas”, enfatiza.
‘Diplomacia das águas’ e projetos a médio e longo prazo
As cheias são um problema recorrente, e não só de Moçambique, mas toda a África Austral: o Arcebispo de Maputo expressou-se também sobre o que se deveria fazer ou sugerir em vista a uma solução comunitária e partilhada. Para Dom Hatoa Nunes, primeiro há necessidade de consciencialização de que as mudanças climáticas são uma realidade; há também necessidade, como dizia Dom Constantino, de promover a relação com os outros Países, através da ‘diplomacia das águas’.
“Mas é preciso também que haja projetos a médio e longo prazo, precisamos de barragens novas”, observou o Arcebispo, sugerindo “que se faça pressão aos que detêm poder e fazem políticas para que tracem planos de ação para o desenvolvimento do País tendo em conta esta realidade, e assim nos ajudem a enfrentar os males com mais propriedade, mais autoridade e mais capacidade”.
Consciência e compromisso, fé traduzida em gestos concretos
Dom João Carlos recomendou, neste sentido, a busca de uma solução conjunta e que envolva várias áreas, mobilize todos recursos, tendo cada qual consciência da própria ação na conservação da nossa Casa comum. Daí, a necessidade da conversão, muito importante (sublinhou o prelado) para uma mudança no modo como olhamos para as coisas e como as enfrentamos, pois para Dom João Carlos, “os problemas vieram para nos questionar e para que haja uma maior consciência, um maior compromisso, onde a fé se traduza em atos muito concretos, não apenas de solidariedade e proximidade, mas também do desejo de fazer bem ao próximo, fazer bem ao planeta, ao meu Bairro, ao meu País”.
A terminar, um apelo do Arcebispo, a escutar o que Deus nos diz através da realidade que nos afeta o País, e não só, e através do nosso próprio sofrimento, “uma interpelação a todos nós para uma conversão do coração e para que todos levemos a sério o cuidado para com a Casa comum e a atenção com os mais vulneráveis” - concluiu.
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