A responsabilidade da educação católica na formação para a cidadania
Vandeia Ramos - Educadora
Quando pensamos em Educação Católica pensamos também na formação para a cidadania. Esta característica envolve educação centrada na pessoa humana, em que aprendemos ao longo de nossa vida - somos pessoas em processo, e que não se realiza sozinho – é sempre o encontro entre educar e aprender.
Para a educação católica, educar é mais que transmitir conteúdos ou desenvolver habilidades e competências. Não somos somente mentes, somos também coração e mãos. Temos algo que nos diferencia dos demais seres vivos, que transcende o material, que vai além. Temos mãos e coração, sentimentos e espiritualidade. E estes também são educados, também vivem em processo de aprender. A expressão que usamos é educação integral.
A Carta Apostólica Desenhar novos mapas de esperança, do Papa Leão XIV, celebra o 60º aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis (GE). Aqui encontramos a educação compreendida como característica própria da evangelização, de como o evangelho se torna cultura. A contribuição da Igreja, sua experiência histórico-pedagógica, é uma contribuição imprescindível no diálogo entre saberes e caminhos que trilhamos. Educar é incluir, dialogar, servir, em que cada pessoa é uma estrela, cada escola e congregação, uma constelação, formando uma bela e grande via de pessoas e instituições comprometidas com o bem comum, com a formação das novas gerações.
No contexto de hoje, a escola e o saber encontram-se muitas vezes organizados de modo complexo, fragmentado e digitalizado, espelhando o coração humano. E é aqui, nesta realidade, que a educação católica se destaca.
Retomando a paideia cristã, com sua compreensão de formação integral, o processo pedagógico deseja formar a pessoa inteira, em que a razão, o afeto, a espiritualidade, o corpo, a sensibilidade social e a consciência ética transpassem o cotidiano da escola. Assim, formar para a cidadania envolve a educação dos sentidos, da escuta interior e do discernimento, como nos ensinam os Padres do Deserto; envolve também o diálogo histórico com a ciência, com a cultura e com as transformações sociais, como as ordens mendicantes nos legaram; alcança a interdisciplinaridade, a inculturação e a responsabilidade social, como São Tomás de Aquino e a pedagogia inaciana da Ratio Studiorum nos marcam.
Os traços que esta tradição viva nos ensina hoje é que a cultura é viva, em movimento entre as gerações, apresentando sua dinâmica comunitária. Não se educa sozinho. Educar é sempre “nós”, começando pela família, chegando à escola, à Igreja e toda a sociedade.
A escola católica se afirma como lugar de encontro, espaço em que nossa identidade tão diversa, nossas diferenças, tornam-se lugares de formação. Espaço em que a presença do religioso é acolhida como uma dimensão constitutiva do conhecimento humano. Entre as religiosidades e não religiosidades, o diálogo e a empatia, a história pessoal e humana, em diferentes expressões. Como nos lembra São John Newman, co padroeiro da educação, a educação católica favorece que fé, razão e coração se encontrem na mesma dinâmica. A perspectiva está em formar pessoas capazes de servir, dialogar, respeitar as diferenças e cuidar da vida em todas as suas formas.
A GE é nossa bússola, iniciando com a centralidade na pessoa humana, seguindo pela primazia da família, a corresponsabilidade educativa e a recusa da mercantilização da escola. Educação católica é vocação ética e social, em que a igualdade, a justiça e a capacidade de promover o encontro são eixos norteadores.
E não podemos esquecer o Ensino Religioso. Esta área de conhecimento tem uma perspectiva em nosso contexto brasileiro, refletida na BNCC: formar a pessoa humana em sua integralidade, em sua vocação ética e social, é formá-la para a cidadania, como missão a responder. Sendo lugar de encontro com os diferentes, é preciso considerar a diversidade religiosa de nossas turmas, escolas, contexto. O respeito mútuo, o combate à intolerância e a promoção da cultura de paz são pontos essenciais.
Com diferentes modelos metodológicos, temos traços comuns, como ampliar repertórios culturais, desenvolver habilidades de convivência e fortalecer valores humanos fundamentais. E a escola vive em pastoral, com toda a equipe educando pelo testemunho.
Educar é pensar em futuros possíveis, antecipá-los na formação de nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos. É assumir os desafios que nos são apresentados, como o mundo digital, a inteligência artificial, a crise ambiental e as fragilidades nas relações. Educar para contemplar a Criação e para o cuidado da Casa Comum, o uso ético de tecnologias, para a não violência, formamos atores de uma nova peça da vida social. Na Educação Católica, desenhamos novos mapas de esperança, em que a relação é mais importante que a opinião, a fraternidade supera a violência e a educação se torna uma das mais altas obras de caridade a serviço da humanidade.
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