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2010.01.03 Sacra Sindone

Sudário: questionada a hipótese do baixo-relevo medieval

A revista «Archaeometry», que havia publicado a hipótese do pesquisador brasileiro Cícero Moraes, publica a discordância por parte dos especialistas Casabianca, Marinelli e Piana.

Vatican News

No verão passado, foi divulgada a pesquisa do brasileiro Cícero Moraes, em que era proposta uma reconstrução digital da imagem no Sudário de Turim, sustentando a hipótese de que teria sido criada na Idade Média como um baixo-relevo. Um comentário publicado recentemente na revista Archaeometry refuta as afirmações de Moraes ponto por ponto.

Três especialistas no Sudário de Turim, Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana, criticaram este estudo, que, segundo eles, se baseia em objetivos ambíguos, falhas metodológicas e raciocínio falacioso. Ao fazer isso, eles confirmam as críticas já expressas neste verão pelo arcebispo de Turim e guardião do Sudário de Turim, cardeal Roberto Repole, e pelo Centro Internacional de Estudos sobre o Sudário de Turim (CISS). Mas é importante destacar — e esta é a atualidade da notícia — a importância da publicação de sua crítica na mesma revista científica em que foi publicado o artigo original de Moraes.

O debate

 

O debate em torno da autenticidade do Sudário de Turim tem sido acirrado desde que o fotógrafo Secondo Pia tirou a primeira fotografia em 1898. Hoje, a controvérsia continua, particularmente em periódicos acadêmicos internacionais. Em 2019, a famosa datação por carbono-14 (1260-1390 d.C.), publicada na revista Nature em 1989, foi contestada por uma nova análise dos dados brutos publicada na revista Archaeometry, afiliada ao laboratório de Oxford que participou da datação original.

No verão passado, na mesma revista, o brasileiro Cícero Moraes publicou um artigo defendendo a teoria da falsificação medieval. Segundo ele, um baixo-relevo produz uma superfície de contato que parece corresponder melhor aos contornos visíveis do Sudário do que ao volume de um corpo humano. A partir disso, ele deduziu um argumento a favor de uma origem artística medieval. No entanto, desde a sua publicação, o artigo de Moraes tem levantado inúmeras dúvidas entre os especialistas. Em sua declaração, o cardeal Repole criticou a “preocupação com a superficialidade de certas conclusões, que muitas vezes não resistem a um exame mais rigoroso do trabalho apresentado”.

As falhas da análise de Moraes

 

Após a dissipação do frenesi midiático, o comentário recentemente publicado na revista Archaeometry por Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana confirma plenamente a legitimidade daquele questionamento inicial. Os autores destacam as inúmeras falhas na análise de Moraes: modelagem anatomicamente deficiente, uma vez que reproduz apenas a imagem frontal, inverte a posição direita-esquerda tanto dos pés quanto das mãos e escolhe arbitrariamente uma altura (180 cm) fora do consenso estabelecido (173–177 cm); o uso repetido de termos vagos para certificar uma semelhança sem jamais fornecer medidas precisas; a escolha de uma única imagem, a de 1931, quando existem imagens muito mais recentes. Além disso, a modelagem foi simulada não em linho, mas em algodão.

Ainda mais preocupante é o fato de a modelagem 3D de Moraes negligenciar as principais características do Sudário de Turim: a extrema pouca profundidade da imagem (um quinto de milésimo de milímetro) e as múltiplas confirmações independentes da presença de sangue, que são inconsistentes com qualquer prática artística medieval. Os autores, portanto, questionam o valor real de um modelo que não reproduz com precisão as características anatômicas do Homem do Sudário e ignora as propriedades físico-químicas mais relevantes. O estudo de Moraes ignora o fato de que várias versões da hipótese do baixo-relevo já haviam sido estudadas e rejeitadas em periódicos acadêmicos no início da década de 1980. Também se esquece de que a questão da deformação anatômica de um corpo em tecido já havia sido examinada minuciosamente em 1902 pelo cientista francês Paul Vignon.

Fundamentos históricos frágeis

 

Segundo os comentadores, os fundamentos históricos do estudo inicial também parecem frágeis. Moraes recorre a períodos e lugares completamente distintos para explicar como um artista ou falsificador poderia ter concebido intelectualmente e executado na prática aquela imagem singular de um Cristo nu, tanto de frente quanto de costas, em uma cena que se segue à crucificação.

Mas, como apontam Casabianca, Marinelli e Piana, trata-se de uma falácia composicional, um método explicativo que, se generalizado, minaria os próprios fundamentos da história da arte. A imagem se desvia tanto do quadro artístico tradicional que o principal historiador em quem Moraes se baseia, William S. A. Dale, estava convencido de que ela não poderia ter sido criada na França do século XIV, mas sim na era bizantina, pelo menos 200 anos e 2.000 quilômetros de distância de Champagne.

Em sua resposta a essas críticas - também publicada na revista - Moraes mantém suas conclusões, mas esclarece que seu artigo oferece uma perspectiva “estritamente metodológica”, focada na avaliação da deformação morfológica dentro da estrutura da projeção de um corpo sobre um tecido. No entanto, Moraes se afasta dessa estrutura metodológica para citar quatro produções artísticas dos séculos XI ao XIV que poderiam ter inspirado o criador do Sudário de Turim. No entanto, nenhuma dessas representações mostra Cristo nu em uma cena posterior à crucificação, portanto, nenhuma explica o aparecimento da imagem em uma pequena vila francesa em meados do século XIV.

Desde o início do século XX, o Homem do Sudário tem suscitado inúmeros questionamentos e motivado diversas investigações acadêmicas. Essa recente controvérsia acadêmica demonstra que, embora as ferramentas modernas — incluindo as digitais — possam enriquecer nosso conhecimento, as extrapolações sobre a origem de um objeto tão singular quanto o Sudário de Turim exigem um rigor excepcional, tanto metodológico quanto histórico.

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12 fevereiro 2026, 07:46