Busca

Tempestades em Portugal trouxeram a destruição total ou parcial de casas, de empresas e de equipamentos ... Tempestades em Portugal trouxeram a destruição total ou parcial de casas, de empresas e de equipamentos ...  (© Beatriz Pereira, RR)

Portugal tenta recuperar depois das tempestades

O mau tempo provocou, no mês de fevereiro, mais de 18 mil ocorrências. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, vai apresentar em breve um plano nacional de recuperação e resiliência.

Rui Saraiva – Portugal

Nas últimas semanas passaram por Portugal várias tempestades que provocaram uma profunda destruição.  Kristin, Leonardo e Marta foram alguns dos nomes que trouxeram devastação e sofrimento com o registo de muitos mortos, feridos e desalojados.

Como revela a Rádio Renascença, as tempestades trouxeram a destruição total ou parcial de casas, de empresas e de equipamentos. Mas também a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte e o corte de energia, água e comunicações.

Especial destaque na passada semana para as inundações e cheias no leito do rio Mondego. As águas galgaram terrenos agrícolas e zonas urbanas, colocando em risco inteiras populações. A cidade de Coimbra foi inundada pelas águas do rio e esteve em alerta máximo, pois correu o risco de sofrer uma cheia centenária. Não se verificou essa situação extrema, mas ficaram os prejuízos graves desta grande cheia.

E neste contexto ruiu um pedaço da A1 bem junto a Coimbra, sobre o Mondego. Algo que aconteceu devido à ruptura de um dique do rio. Nesse dia 11 de fevereiro a principal autoestrada de Portugal, que liga Porto a Lisboa, foi cortada ao trânsito entre os nós de Coimbra Norte e Coimbra Sul. Os pilares do viaduto sobre o Mondego não resistiram ao desgaste provocado pela água da cheia. E a reparação deste troço nesta via estrutural do país vai durar semanas.

Todo o país, de norte a sul, sofreu as consequências destas depressões meteorológicas, com particular relevo para a região centro e também para as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e o próprio Alentejo.

Segundo a Rádio Renascença que cita a Agência Lusa, o mau tempo já provocou mais de 18 mil ocorrências só neste mês de fevereiro. Esteve em vigor em 68 concelhos até ao passado domingo dia 15 de fevereiro a situação de calamidade.

Portugal tenta agora recuperar desta catástrofe natural, fazendo contas aos prejuízos e projetando o futuro.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, em declarações aos jornalistas na sexta-feira 13 de fevereiro informou que o governo vai apresentar em breve um plano nacional de recuperação e resiliência.

“É minha obrigação dizer que estamos a trabalhar a todo o vapor para fazer essa apresentação o mais brevemente possível”, disse Luís Montenegro.

A tempestade que provocou mais danos, devido às fortes rajadas de vento que ultrapassaram os 200 km por hora, foi a que levava o nome de Kristin. Fez estragos incalculáveis em empresas, habitações, instituições e floresta, sobretudo na região centro do país, com especial rasto de destruição no distrito de Leiria.

A Caritas Diocesana de Leiria-Fátima já distribuiu dezenas de toneladas de alimentos e produtos de higiene e conseguiu angariar mais de 1,5 milhões de euros para as vítimas da tempestade Kristin.

Ana Monteiro Mota,​ é presidente da Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima e em entrevista à Rádio Renascença e Agência Ecclesia, afirma que a Cáritas está disponível para a fase próxima de reconstrução.

Publicamos um excerto de uma entrevista conduzida pelos jornalistas Henrique Cunha da Rádio Renascença e Octávio Carmo da Agência Ecclesia.

O vosso papel pode estender-se à fase de reconstrução das habitações?

Sim, sim. Aliás, nós, inclusivamente, temos um fundo, um fundo de emergência da tempestade, pronto para fazer face a isso, porque o momento de crise é agora, mas é necessário fazer a recuperação e as dificuldades vão permanecer. Agora estamos em crise, todas as pessoas ajudam, mas depois? Quando é que vamos chegar realmente às pessoas terem uma habitação digna? Olhe, elas já só querem um telhado para se poderem proteger. Acabámos por ter também de pensar um bocadinho no futuro porque as dificuldades vão permanecer.

Os holofotes mediáticos estão todos muito concentrados em Leiria, mas sabemos, pela nossa experiência, que se vão desligar. E pode não demorar muito… Há o risco destas pessoas ficarem esquecidas em breve outra vez?

O que a Cáritas puder fazer, a Cáritas faz. Uma das mensagens que nós deixamos sempre é a esperança. Nós estamos a cuidar das pessoas e estamos a trabalhar. Já estamos a reunir a comissão que vai trabalhar com este fundo, para começarmos a fazer a aplicação do montante. Aliás, nós somos auditados porque queremos a máxima transparência: não vai sair daqui um euro que não seja devidamente fundamentado. A Cáritas quer estar ao nível de uma Cáritas de referência.

E esse fundo tem vindo a crescer nos últimos dias, não é? Porque a solidariedade tem sido grande...

Sim, já estamos a aproximadamente um milhão de euros. E queremos a máxima transparência, por isso fizemos questão de ser auditados.

Falamos de dificuldades, mas também há sinais de esperança: a campanha da Cáritas teve este acolhimento positivo, não é?

Sim, já ultrapassou um milhão de euros.

Como é que olha para esta onda de solidariedade? Os portugueses, e quem vive cá, continuam a saber dar as mãos nesta hora da aflição?

Sem dúvida, sem dúvida. Os portugueses são muito solidários. Nós estamos a receber não só das pessoas, dos particulares, das empresas, grandes empresas, aliás. Está uma equipa agora com uma instituição que nos quer apoiar, todas as empresas… Uma coisa eu louvo, sem a menor dúvida: não houve um pedido que a Cáritas de Leiria fizesse que tenha sido negado, seja em que forma. Isto é de referenciar e também nos deixa com muita esperança para continuar, dá-nos muita força.

Como é que está a ser a articulação da Cáritas com as outras instituições que estão no terreno, em particular com os organismos públicos?

Desde a primeira hora. Nós fazemos parte da Proteção Civil e na primeira reunião apercebemo-nos da dimensão e fomos logo, logo ao terreno. Desde a primeira hora, estamos em articulação com o Município.

Queria fazer-lhe uma pergunta sobre essa expressão que temos usado tantas vezes nesta entrevista, que é a “primeira hora”. Pode recordar qual foi o primeiro impacto que teve daquela manhã, depois de tudo o que aconteceu? Qual foi o primeiro impacto naquele dia?

Eu recebi um telefonema às sete da manhã a dizer que não se podia entrar na Cáritas porque nós também sofremos danos. Não só aqui como numa casa que temos, uma casa social, também temos danos.

É onde temos crianças, jovens, idosos, também temos grupos. Essa não é a nossa preocupação, a casa agora não é necessária. Depois, com o tempo pensaremos nela. Agora é as pessoas, pessoas, pessoas, a nossa prioridade são as pessoas, pronto.

Naquele primeiro dia não pudemos entrar na Cáritas, a primeira coisa foi desbloquear, foi chegar aqui e vamos erguer, pronto, vamos ver o que é que é preciso.

Depois dessa reunião da Proteção Civil, a realidade apresentou-se muito difícil e fomos para o terreno. Reuniu-se a equipa e desde sempre houve muita força. Há horas em que o cansaço… Mas isso não nos preocupa, o cansaço fica ali a aparecer, mas sempre com muita coragem.

Eu não posso enaltecer mais a nossa equipa. Somos seis pessoas, temos feito muito, muito, muito, desde o diretor de serviços à administrativa, à assistente social, à psicóloga, educadora social... Todas elas estão muito, muito orgulhosas da equipa que temos. Somos poucos, mas fazemos muito.

E desde essa primeira hora até ao momento já foi muita solidariedade prestada pela Cáritas, não é?...

Muito.

Falou do cansaço, natural, que se vai acumulando nesta grande luta. O facto de o Papa Leão XIV ter querido recordar, mais do que uma vez, as pessoas que foram afetadas pela tempestade, foi importante? Também ajuda a levar esperança, por exemplo, a quem perdeu o telhado da sua casa?

Ajuda, sim. O nosso Papa é a nossa referência e este reconhecimento que, felizmente, temos tido, também do nosso bispo, que desde a primeira hora esteve sempre ao nosso lado, sempre a apoiar-nos, é muito importante. Esta parte institucional é muito importante para nós. Tem sido bom, não só pelo apoio, mas também pelo reconhecimento.

Portugal tenta recuperar depois das tempestades, mas a situação é ainda muito difícil como o demonstram dados concretos como este: ainda há mais de 30 mil pessoas sem energia elétrica desde 28 de janeiro.

Vai ser necessária muita resiliência para a recuperação.

Oiça aqui a reportagem e partilhe

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui

16 fevereiro 2026, 10:10