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Irmã Rozalia Sidełko com um grupo de crianças do orfanato, entre elas, judeus que foram salvos Irmã Rozalia Sidełko com um grupo de crianças do orfanato, entre elas, judeus que foram salvos 

Dia da Memória: milhares de religiosas polonesas salvaram judeus durante a guerra

Apesar do risco de morte nas mãos dos nazistas alemães, milhares de freiras, padres e religiosos esconderam milhares de crianças e adultos judeus por toda a Polônia durante a Segunda Guerra Mundial, uma decisão que exigiu coragem, prudência e uma fé profunda. Neste dia 24 de março, celebra-se na Polônia o Dia Nacional da Memória dos Poloneses que salvaram judeus durante a ocupação alemã.

Vatican News

O Dia da Memória remete a um fato ocorrido em Markowa, em 1944, quando os ocupantes alemães fuzilaram a família Ulma — Józef, Vittoria e seus sete filhos —, juntamente com os judeus que eles estavam escondendo. Esse massacre tornou-se um dos símbolos mais comoventes da repressão contra as pessoas que ajudaram os judeus.  

As freiras diante da realidade da ocupação

Apesar do risco de morte, muitos institutos religiosos femininos participaram das atividades de resgate da população judaica. As freiras aproveitavam as atividades cotidianas de seus conventos como espaço de ajuda. Os orfanatos, os colégios e as creches tornavam-se esconderijos e refúgios onde era possível garantir um mínimo de segurança. A ajuda exigia não apenas coragem, mas também capacidade organizacional, disciplina e discrição absoluta. Qualquer erro poderia significar a descoberta do disfarce e, consequentemente, uma sentença de morte.

A Sagrada Família de Nazaré

As religiosas da Sagrada Família de Nazaré em Varsóvia, na casa na rua Czerniakowska, esconderam meninas judias e ofereciam aulas em segredo. A educação também havia sido proibida pelos ocupantes. 

A comunidade era liderada pela Irmã Eutalia Jadwiga Wismont, responsável pelo funcionamento da instituição durante a ocupação. Suas decisões diziam respeito não apenas ao acolhimento de pessoas necessitadas, mas também à organização da vida da comunidade de modo a não levantar suspeitas. Por ter salvado judeus, foi-lhe conferido o título póstumo de Justa entre as Nações pelo Instituto Yad Vashem. Em 2024, foi inaugurada no edifício do convento uma placa comemorativa da atividade das religiosas durante a guerra, trazendo essa história de volta à memória no espaço urbano.

A Irmã Eutalia Jadwiga Wismont
A Irmã Eutalia Jadwiga Wismont

Matylda Getter e o sistema de apoio

A Congregação das Irmãs Franciscanas da Família de Maria desenvolvia uma ampla atividade. Sob a liderança da Madre Matylda Getter, foi organizada a ajuda a 750 pessoas, entre as quais, mais de 500 crianças judias  em Varsóvia e nos países vizinhos.

As freiras criaram um sistema de apoio que incluía não apenas o acolhimento, mas também a proteção da identidade e a assistência de longo prazo. Isso exigiu a colaboração entre as diversas estruturas e a transferência contínua das crianças em situações de perigo. A Madre Getter, também condecorada com o título de Justa entre as Nações, continua sendo uma das figuras mais importantes que simbolizam o empenho das congregações religiosas no resgate dos judeus.

O apoio em toda a Polônia ocupada

As iniciativas empreendidas em Varsóvia faziam parte de um fenômeno mais amplo que envolvia todo o país. Outras ordens religiosas também se empenharam na obra de assistência, entre elas, as Irmãs da Caridade, as Orsolinas, as Albertinas, as Irmãs do Sagrado Coração e as Felicianas. Em muitas cidades e localidades menores, os conventos tornavam-se locais de refúgio e centros onde era possível obter ajuda material e organizacional. A amplitude dessas atividades era variável, mas o denominador comum permanecia a disposição de agir apesar dos riscos.

Duas mil freiras

Segundo apuraram os pesquisadores, mais de 2 mil freiras pertencentes a dezenas de congregações estiveram envolvidas na ajuda aos judeus. Suas atividades eram de natureza diversa, o que dificultou a documentação completa após a guerra. A rede de socorro assim criada não tinha uma estrutura única, mas baseava-se na confiança, na colaboração e na reação rápida às circunstâncias em constante mudança. Isso tornou possível esconder pessoas que, em outras condições, não teriam tido qualquer chance de sobrevivência.

Um testemunho que permanece

A comemoração deste 24 de março não se limita a relembrar fatos históricos. Ela destaca as atitudes que surgiram em situações extremas e que exigiram coerência na ação. A história das freiras mostra como o amor ao próximo pode assumir a forma de decisões concretas tomadas sem alarde. É justamente nessas escolhas que se revela a dimensão mais exigente e, ao mesmo tempo, mais plena.

Como o clero polonês ajudou os judeus

No âmbito das atividades do Centro Abraham J. Heschel para as Relações Católico-Judaicas da Universidade Católica de Lublin (KUL), foi publicada a primeira monografia em inglês sobre a ajuda prestada pelo clero polonês aos judeus durante o Holocausto.  A publicação em dois volumes, editada pela Editora da KUL, intitulada “Wartime Rescue of Jews by the Polish Catholic Clergy”, foi escrita pelo advogado Ryszard Tyndorf. Está disponível gratuitamente on-line aqui.  O livro tem mais de 1.200 páginas e contém principalmente depoimentos de judeus salvos por freiras e padres na Polônia durante o Holocausto. Inclui um índice com milhares de localidades e nomes das pessoas salvas e dos socorristas.

Inauguração da placa comemorativa em homenagem às Irmãs de Nazaré que salvaram judeus
Inauguração da placa comemorativa em homenagem às Irmãs de Nazaré que salvaram judeus

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24 março 2026, 14:50