Cardeal Spengler: a Igreja como promotora de consciência social e democrática
Silvonei José – Vatican News – Aparecida
Encerrou-se na tarde desta quinta-feira em Aparecida, no âmbito da 62ª Assembleia Geral da CNBB, o retiro dos bispos. Dom Armando Bucciol, bispo emérito da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, e diretor espiritual do Colégio Pio Brasileiro, em Roma, conduziu o retiro. Com foco no seguimento de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, o bispo destacou temas como zelo pastoral, evangelização, parresia (coragem evangélica) e serviço, enfatizando que, na lógica cristã, autoridade significa serviço, inspirada no gesto de Jesus que lava os pés dos discípulos. Também deu importância a uma vivência autêntica da liturgia, profundamente enraizada no Evangelho.
No encontro com a imprensa no primeiro dia da Assembleia, dom Armando destacou o papel fundamental da comunicação na formação da consciência crítica da sociedade, alertando para os riscos da manipulação da informação e incentivando os jornalistas a ajudarem o público a compreender melhor a realidade social.
Depois do início com o retiro, momento de oração, de reflexão, iniciam-se nesta sexta-feira os trabalhos da Assembleia Geral.
Entre os principais pontos dos trabalhos está a discussão e possível aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), que, tradicionalmente atualizadas a cada quatro anos, podem ter seu período ampliado.
Ao serem aprovadas, as Diretrizes passarão pelo processo de recepção e implementação nas comunidades, o que exige tempo, além de estar diretamente ligado a dinâmica do Sínodo sobre a Sinodalidade, que pede mudanças graduais e profundas na vida eclesial.
O que significam então essas diretrizes que serão apresentadas a toda a igreja? Foi que perguntamos ao cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Uma escolha nossa enquanto Conferência Episcopal foi sintonizar as Diretrizes com o documento final do Sínodo e o processo de aplicação das orientações do último Sínodo. Então, o nosso desejo é dar continuidade àquilo que a Secretaria do Sínodo vem propondo a todas as Igrejas e, ao mesmo tempo, a partir da nossa realidade brasileira, vir de encontro aos desafios da evolução hoje. Eu creio que nós podemos avançar nesse sentido e ganhar, porque não se trata de caminhos, eu diria, justapostos, mas um caminho integrado. E eu creio que isso pode nos ajudar também em vista da Assembleia Eclesial prevista para um futuro próximo.
Vendo a presença de tantos pastores, de tantos irmãos no episcopado, que sensação o senhor tem como presidente da CNBB?
Para mim, cada Assembleia é sempre um Pentecostes. Ver tantos bispos reunidos, estar reunidos com tantos, de regiões, as mais diversas, com estruturas de pensamento, visões talvez eclesiológicas também distintas, e poder participar da construção, seja das declarações, dos documentos que são construídos, das indicações pastorais emanadas, chegar a um consenso no seio de um episcopado tão numeroso, isso é obra do Espírito Santo de Deus.
São tantas as temáticas que serão discutidas nos próximos dias. Alguma em especial, além, naturalmente, das Diretrizes?
Há algum tempo nós estamos revisando o documento sobre a juventude, ou para a juventude. Documento que está valendo, já tem alguns anos, e nós precisamos avançar no sentido de vir ao encontro das novas gerações, com metodologia adequada, com linguagem adequada à geração atual. É um documento também que provavelmente será apresentado, e oxalá, aprovado, durante esta nossa Assembleia.
É sempre característica também das Assembleias a mensagem ao povo de Deus, e esse ano o Brasil vive também um momento muito particular com as eleições.
As eleições certamente são sempre um momento importante na vida democrática de qualquer sociedade. E não poderia ser diferente no atual processo que nós estamos vivendo, em vista das eleições no mês de outubro. É verdade que a sociedade brasileira passa por um momento, eu diria, de tensão. É necessário realizar escolhas, mas sobretudo essas escolhas precisam estar pautadas pelo senso de pertença à nação, mas também de corresponsabilidade pelo futuro: pelo futuro dos filhos, e, por que não dizer, das gerações posteriores. As eleições sempre são uma possibilidade privilegiada para que a sociedade manifeste aquilo que realmente deseja. Também gosto de recordar que os nossos parlamentos, digamos, o Senado, a Câmara dos Deputados, seja em nível federal, seja em nível estadual, precisariam estar constituídos por pessoas que trazem, por assim dizer, o sonho de um Brasil mais justo, mais equitativo, mais equilibrado, mais pacificado. A nossa classe política deveria ser marcada, ou poderia estar marcada, pelas melhores expressões da sociedade. Pelas mulheres e homens ilustres da sociedade, capazes de dialogar, sim, dentro do espírito republicano, e construir propostas de ação que venham verdadeiramente de encontro às necessidades da sociedade e, sobretudo, daquela parcela da sociedade mais pobre.
Nesse processo, qual é o papel, então, da nossa Igreja?
A igreja tem um papel, eu diria assim, moral. Em primeiro lugar. Mas também de promoção de consciência. Consciência social, consciência democrática. E nós temos um patrimônio riquíssimo, a Doutrina Social da Igreja. Que não só pode, como necessita ser melhor conhecida.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui