A visão antropológica nos santos padres da Igreja e na atualidade
Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.
Nós estamos num período muito importante na vida humana onde se ressaltam o desejo forte pela paz entre os povos e nações. Nós rezamos ao Senhor pelo dom da paz. Nós temos presentes a visão de Deus verdadeiro, Uno e Trino, a criação, as pessoas, as suas obras, a necessidade do cuidado com as obras do Criador. Deus criou o ser humano; homem e mulher os fez à sua imagem e semelhança (cfr. Gn 1,27). Nestes últimos anos e meses estamos presenciando uma série de casos de feminicídios, a morte de mulheres por serem mulheres, muitas vezes por seus maridos, companheiros ou ex-companheiros. Pela Palavra de Deus que coloca a igualdade entre o homem e mulher somos nós convidados a lutar pela vida superando a morte de muitas pessoas, sobretudo com as mulheres. A seguir, vejamos nós ver a forma como os santos padres, os primeiros escritores cristãos colocaram a visão antropológica que sirva de inspiração para agir bem no mundo atual.
Deus os fez homem e mulher
São Clemente, bispo de Roma, Papa, século I afirmou a criação humana, homem e mulher, por Deus Criador na qual Ele a plasmou por suas próprias e imaculadas mãos, ao dizer: Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, fazendo-os homem e mulher, masculino e feminino (cfr. Gn 1,26-27). Cumpridas todas as obras os aprovou o Senhor Deus e os bendisse, dizendo que era para eles crescerem e multiplicarem-se (cfr. Gn 1, 28). Criados desta forma, nós somos chamados, tanto os homens como as mulheres a fazer a vontade divina com toda a nossa força e praticar obras de justiça, de paz e de amor[1].
A Palavra de Deus falou da criação humana
A Carta de Barnabé, um escrito no final do século I disse que a criação humana foi obra de Deus Uno e Trino, pois o Senhor disse ao Filho: “Façamos o homem, homem e mulher, à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar” (Gn 1, 28). e vendo a obra de suas mãos saindo de uma forma muito boa disse também o Senhor para eles crescerem e multiplicarem-se e possam encher a terra (cfr. Gn 1, 28)[2]. Por isso Deus nos criou de uma forma tão bem constituídos de modo que é preciso viver a unidade entre o homem e a mulher sem um dominar o outro ou tirar-lhe a própria vida.
Formou-os à sua imagem
A Carta a Diogneto, escrito do século II disse que Deus deu ao ser humano, homem e mulher a palavra e a razão para contemplar o Criador de todas as coisas. E somente a eles permitiu-lhes a graça da contemplação, o olhar para o alto, para o seu Criador. Ele os formou à sua Imagem, enviando-lhes seu Filho Unigênito, para anunciar-lhes o Reino dos céus. Desta forma o ser humano amando o seu Criador ele se torna imitador da sua bondade[3].
A dignidade do ser humano
Teófilo de Antioquia, bispo do século II teve presente coisas boas em relação à criação em geral, mas em relação à criação humana não existem palavras que expressem a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja breve. O fato maravilhoso de Deus ao dizer: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26) dá a entender a dignidade do ser humano, homem e mulher. Ele disse estas palavras a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria. Ele também ordenou que o ser humano se alimentasse das ementes da terra e buscassem o bem de toda a criação, incluída a sua, a humana[4].
Deus glorificado na sua criatura
Santo Ireneu de Lião, bispo, século III afirmou que Deus será glorificado na sua criatura, conformada e modelada no seu próprio Filho, pois pelas mãos do Pai, isto é, por meio do Filho e do Espírito Santo, o ser humano, homem e mulher e não uma parte tornam-se semelhante a Deus[5]. Nós vemos a importância da criação por parte de Deus Criador ao ser humano na visão de Deus que é Uno e Trino concedendo-lhes todas as graças para uma vida feliz e realizada.
A bondade do Criador
Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III afirmou a bondade do Criador ao criar as coisas deste mundo. O fato era este: Deus viu aquilo que estava realizando, honrava-o, completando a bondade de suas obras pelo seu olhar. Deus bendizia as coisas boas, para que Ele fosse sempre anunciado bom em todos os aspectos, em todos os tempos e eras, tanto no dizer como no fazer. O mundo foi constituído de bens do Senhor. No entanto, para quem as coisas eram preparadas senão para aquele que seria à sua imagem e semelhança? A divina bondade criou, não só com uma palavra de ordem o ser humano, mas com um ato generoso da sua mão, com uma benigna promessa: “Façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança”(Gn 1,26).
A referência é sempre à bondade, não como uma virtude do Criador, mas como uma Pessoa, porque Ela falou, plasmou o homem e a mulher do lodo até fazê-los de carne, sendo um ato de amor de Deus. “A bondade soprou até fazê-los tornarem-se uma alma, não morta, mas viva”[6]. A bondade o fez senhor de todas as coisas, não só para dominá-las, mas para dar-lhes o nome. Novamente Deus previu para ele uma ajuda: “Não é bom que o homem esteja só, de modo que Ele criou a mulher”(Gn 2,18)[7]. Nós percebemos a importância do ser humano ser criado à imagem e semelhança de Deus.
À nossa Imagem
Santo Agostinho, Bispo de Hipona séculos IV e V afirmou que Deus criou o ser humano dando as graças de ser a sua imagem e semelhança. Em seguida o Senhor disse que ele tenha o poder sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais, privados da razão (cfr. Gn 1,28)[8]. Para o Bispo de Hipona o fato de que o ser humano é imagem e semelhança de Deus são dons divinos para serrem vividos na realidade familiar, comunitária e não tem significado de destruição das criaturas, mas amor a mesma e serviço para que todos vivam bem na paz e no amor.
Nós somos convidados a viver a Palavra de Deus na igualdade e no amor entre as pessoas, homens e mulheres. Nós lutemos em favor da vida para que se afaste a violência contras as mulheres e os casos de feminicídios. A Diocese de Marabá tem um projeto, um pacto contra o feminicídio para que seja implantado sempre mais nas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. O Senhor nos ajude nesta missão de viver a fraternidade, o amor entre as pessoas e um dia na eternidade, no Reino de Deus.
[1] Cfr. Lettera ai Corinzi, 33,4-8 di Clemente di Roma. In: Lúomo immagine somigliante di Dio. Milano: Paoline, 1991, pgs. 87-88.
[2] Cfr. Carta de Barnabé, 6,11-12. In: Padres Apostólicos, São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 294-295.
[3] Cfr. Carta a Diogento, 10,2-4. In: Padres Apologistas, São Paulo, Paulus, 1995, pg. 27.
[4] Cfr. Segundo Livro a Autólico 2,18 de Teófilo de Antioquia, In: Padres Apostólicos, Idem, pg. 248.
[5] Cfr. Ireneu de Lião, V,6,1. São Paulo: Paulus, 1996, pg. 530.
[6] Cfr. Contro Marcione, 22 di Tertulliano. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 132.
[7] Cfr. Idem, pg. 132.
[8] Cfr. La Genesi alla Lettera 3,20,30-32. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 255.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui