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Arcebispo Paolo Pezzi Arcebispo Paolo Pezzi 

O futuro da Igreja Católica na Rússia

A renúncia do arcebispo da Mãe de Deus em Moscou, dom Paolo Pezzi, marca uma transição delicada para a comunidade católica na Rússia, que também afetará as relações com as autoridades e o Patriarcado Ortodoxo. Alegando problemas de saúde que o impossibilitam de administrar a extensa diocese, o prelado, que liderava a Igreja desde 2007, convidou à unidade. A questão da sucessão permanece em aberto.

Pe. Stefano Caprio*

Nos dias passados, o Vaticano anunciou a renúncia do arcebispo da Mãe de Deus em Moscou, dom Paolo Pezzi, de 65 anos, que ocupava o cargo desde setembro de 2007, deixando como administrador sede vacante et ad nutum Sanctae Sedis o bispo auxiliar da arquidiocese o fradre menor conventual russo Nikolai Dubinin, de 53 anos, titular de Águas de Bizacena, que desde 2020 acompanha o setor norte do vasto território diocesano, com sede em São Petersburgo. Trata-se de uma mudança inesperada, que suscita diversas interrogações sobre o futuro de toda a Igreja Católica na Rússia, visto que o arcebispo de Moscou é a figura mais importante e significativa sas estruturas eclesiásticas que também incluem outras três dioceses: uma em Saratov, no sul da Rússia europeia, e duas na Sibéria, em Novosibirsk e em Irkutsk.

Na verdade, o estado de saúde de dom Pezzi já deixava antever há tempos essa possibilidade, não obstante a idade do prelado, cuja idade canônica para aposentadoria é de 75 anos. Há dois anos, ele passou por uma cirurgia bastante complexa e, por muito tempo, não conseguiu manter o ritmo de um serviço tão exigente, não apenas devido ao vasto território que abrange quase 80 paróquias, espalhadas por todo o país, chegando até o enclave de Kaliningrado, na Polônia, mas também pelas muitas outras razões, tanto internas quanto externas relativas à vida dos católicos russos.

O próprio Pezzi fez questão de sublinhasr essa circunstância em sua homilia na Missa de 2 de maio, logo após o anúncio de sua renúncia, aceita pelo Santo Padre, declarando que "para que fique claro e não se difundam teorias da conspiração e boatos falsos, desejo declarar que solicitei minha renúncia devido à minha saúde, que não me permite administrar adequadamente esta maravilhosa e amada diocese". Por ora, o arcebispo permanece em Moscou, na Cúria, à disposição do "querido bispo Dubinin" para quaisquer necessidades que julgar importantes e úteis. Ele especificou que "a partir de agora, não serei mais mencionado na oração eucarística, mas isso não significa que vocês não devam rezar por mim, como têm feito durante estes quase dezenove anos do meu ministério".

Após esses comentários sobre sua situação pessoal, o arcebispo expressou a intenção da Santa Missa de "oração pela unidade e reconciliação em nossa Igreja". De fato, existem tensões e motivos de divisão entre os católicos russos, a ponto de ele perceber como "em nossas difíceis condições, o demônio está muito ativo, espalhando conflitos especialmente nas famílias, mas também nas comunidades onde diferentes indivíduos e grupos começam a se confrontar acaloradamente". Ele admite que "é possível e até desejável que haja opiniões divergentes, inclusive aquelas que discordam das decisões do bispo, razão pela qual estamos aplicando cada vez mais o método sinodal", mas quando as decisões são tomadas, "elas devem ser apoiadas".

O bispo renunciante pediu perdão por todos os seus erros e pecados, bem como por quaisquer ofensas, "embora eu não me recorde de ter ofendido alguém", assegurando que "já perdoei há muito tempo aqueles que me ofenderam". De fato, não faltaram críticas, algumas até mesmo ultrajantes, dirigidas a ele, particularmente em relação à sua gestão dos prédios restituídos há alguns anos da Igreja de São Pedro e São Paulo em Moscou, e um aspecto particularmente doloroso do ministério do bispo Pezzi foi o abandono do sacerdócio por alguns membros do clero local. No início deste ano, ele foi duramente criticado por não ter assinado o apelo do Comitê Consultivo Inter-confessional da Rússia em Defesa dos cristãos perseguidos na Ucrânia, na prática uma declaração em favor da influência do Patriarcado de Moscou nos conflitos inter-religiosos dentro do país, que foi invadido pelas forças russas. Naquela ocasião, o vigário geral de Moscou, padre Kirill Gorbunov, explicou que o arcebispo Pezzi "expressa seu apoio às posições expressas no apelo, mas, de acordo com as disposições canônicas da Igreja Católica, ele não tem jurisdição para fazer declarações oficiais sobre outros países", o que provavelmente suscitou reações negativas entre expoentes estatais russas.

Coloca-se, portanto, a questão não apenas da nomeação à sucessão do arcebispo de Moscou, mas também da relação da Igreja Católica na Rússia com as instituições civis e eclesiásticas, a partir do presidente Vladimir Putin e do patriarca Kirill (Gundyaev). O fim do mandato de Pezzi marca a conclusão de uma fase importante na revitalização da Igreja Católica no período pós-soviético, que poderia ser dividido em duas fases: a reconstrução e reabertura de estruturas fechadas após a revolução, liderada de 1991 a 2007 pelo arcebispo bielorrusso Tadeusz Kondrusiewicz (atualmente em repouso em Minsk), e a preservação e defesa do que havia sido reconstruído, tarefa empreendida durante a missão de quase vinte anos do arcebispo italiano Paolo Pezzi.

A fase de "renascimento" desenrolou-se durante os anos turbulentos da presidência de Boris Yeltsin, graças à legislação altamente permissiva e aberta sobre a liberdade de culto e expressão religiosa entre 1990 (ainda sob o governo de Gorbačëv) e 1997, quando a lei foi reformada impondo novamente a Ortodoxia como religião de Estado e restringindo os direitos de todas as outras confissões. Nesses anos, quase 300 comunidades católicas foram reabertas em toda a Federação, incluindo as paróquias oficiais, as capelas e conventos, para atender a uma população de fiéis católicos estimada formalmente em cerca de um milhão, incluindo todos os cidadãos russos com laços familiares com o catolicismo. Na realidade, muito menos pessoas frequentam os cultos e participam de atividades espirituais, culturais e sociais, mas não existem estatísticas confiáveis ​​para determinar esse número.

Entre os católicos na Rússia, há muitos imigrantes de países amigos da Rússia desde os tempos soviéticos, da África, da América Latina e de países asiáticos com um número significativo de fiéis, como as Filipinas ou a Índia. Há também muitos católicos armênios que se mudaram para lá na década de 1990, após vários conflitos no Cáucaso. Existe ainda uma porcentagem significativa de russos que, como o próprio bispo Nikolai Dubinin, não têm raízes católicas, exceto por gerações passadas, mas que abraçaram o catolicismo de rito latino durante os anos de liberdade religiosa por uma ampla gama de razões culturais e espirituais, desde o ativismo católico na sociedade até a beleza do órgão e de outros instrumentos musicais, que não são permitidos nas liturgias ortodoxas.

Os sacerdotes católicos que servem às comunidades são, em sua maioria, estrangeiros, com exceção de alguns padres ordenados em condições semiclandestinas durante os anos soviéticos e de uma geração de novos ministros ordenados desde 1999, ano em que foi concluída a primeira fase preparatória do Seminário de São Petersburgo, reaberto em 1994. O próprio Dubinin faz parte desse primeiro grupo e foi ordenado em 2000, após ingressar na Ordem dos Frades Conventuais. O Seminário foi transformado em um Instituto de Ciências da Religião, onde um pequeno grupo de seminaristas e todos os leigos que desejam estudar podem fazê-lo. Essa é uma das últimas decisões do arcebispo Pezzi, pela qual ele também foi criticado, como se fosse o fechamento do instituto para a formação de sacerdotes.

O próprio monsenhor Paolo havia sido reitor do Seminário antes de ser nomeado arcebispo, entre 2003 e 2007, retornando à Rússia após uma primeira missão em Novosibirsk na década de 1990. Na cidade mais importante da Sibéria, outra sucessão poderá ocorrer em breve, considerando que a Diocese da Transfiguração (os títulos não são de pessoas, para evitar conflitos com a Igreja Ortodoxa) é governada desde 1991 pelo bispo Joseph Werth, nascido em Karaganda, Cazaquistão, em 1952, e, portanto, próximo da idade de aposentadoria eclesiástica. O bispo Werth exerceu seu ministério na cidade de Marx, na Transvolga, durante o final da era soviética, servindo à comunidade de russos de origem alemã (como ele próprio), que eram tolerados pelas autoridades devido à sua dimensão etnoterritorial específica. Ele foi então convencido a assumir o cargo de bispo de Novosibirsk, ao qual também acumulou o de administrador dos greco-católicos da Rússia, uma comunidade hoje sob estrita vigilância das autoridades russas, sendo composta em grande parte por fiéis ucranianos.

Junto à Werth, há dois anos, foi cooocado um bispo auxiliar, o jesuíta alemão Stephan Lipke, de cinquenta anos, que se mudou de Essen para a Rússia em 2011 e se tornou reitor do Centro São Tomás de Aquino para a Cultura Filosófica e Religiosa em Moscou. Os jesuítas desempenharam um papel significativo na reconstrução de estruturas eclesiásticas na Sibéria central, e o próprio bispo Werth pertencia à Companhia de Jesus. Agora surge a questão de saber se é apropriado nomear um bispo russo para Moscou, deixando o bispo alemão na Sibéria, ou vice-versa, evitando a figura de um russo como líder dos católicos de Moscou, o que implicaria que qualquer russo pode se converter ao catolicismo, ou se seria melhor levar o alemão para a capital, demonstrando o distanciamento dos católicos em relação à sua pátria étnica, que permanece ligada exclusivamente à Ortodoxia.

O futuro dos católicos na Rússia é complexo devido a questões culturais e ideológicas, além da tensão vivenciada por toda a população em decorrência da guerra interminável com os ucranianos e com o mundo ocidental, do qual a Igreja Católica é a principal instituição simbólica. Durante o período de "conservação" do arcebispo Pezzi, as comunidades católicas, no entanto, cresceram, em silêncio e comunhão, mesmo entre os diversos grupos cuja reconciliação o arcebispo tanto defendeu, incluindo aqueles a favor e contra a guerra. A última visita pastoral do bispo cessante ocorreu recentemente em uma das principais cidades da Rússia, Nizhny Novgorod, onde os católicos, após longa espera, receberam de volta o prédio original da igreja. Ele será agora totalmente restaurado, representando um sinal de esperança para uma presença católica significativa no mundo russo e para a possível reconciliação presente e futura entre o Oriente e o Ocidente.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro "Lo Czar di vetro. La Russia di Putin". (Esse artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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10 maio 2026, 08:07