Magnifica humanitas: Babel ou Jerusalém?
Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. - Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
A história da humanidade é marcada por contextos que foram decisivos e a alteraram de modo singular. Muitas dessas grandes mudanças são o resultado direto do avanço técnico e científico. No final do século XVIII, por exemplo, o mundo passou por uma profunda transformação provocada pela Revolução Industrial. Naquela época, as máquinas foram introduzidas no processo de fabricação de produtos, automatizando sistemas e gerando um modo inédito de relação laboral. Com essa transição, graves problemas sociais emergiram, colocando as pessoas em condições extremamente degradantes de exploração e injustiça. Diante daquela ocasião, a Igreja, como Mãe solícita, não deixou de manifestar a sua posição pastoral: o Papa Leão XIII publicou a Encíclica Rerum novarum em 15 de maio de 1891, inaugurando o acervo daquilo que hoje chamamos de Doutrina Social da Igreja. Atualmente, ao celebrarmos o centésimo trigésimo quinto aniversário desse marco, vivenciamos outra reviravolta tecnológica: a era da Inteligência Artificial. Nesse ínterim, o Romano Pontífice, Leão XIV, em 25 de maio de 2026, faz digna memória de seu predecessor ao publicar a Carta Encíclica Magnifica humanitas (assinada no dia 15 de maio), voltada especificamente para a salvaguarda da pessoa humana na era digital.
O apelo de Leão XIV é para nós profundamente instigante: vamos erguer uma nova torre de Babel ou edificar a nova Jerusalém? A inteligência artificial é um projeto cultural e técnico que pode assumir um desses lados, e o discernimento sobre essa decisão está nas mãos da comunidade humana. O fato é que não há mais volta; estamos plenamente imersos nessa realidade e postos diante de uma encruzilhada social e espiritual que nos aponta para esses dois caminhos. A construção da torre de Babel, no relato do Antigo Testamento (cf. Gn 11,1-9), foi um projeto ganancioso e soberbo daqueles que queriam alcançar o céu por si mesmos, tornando-se senhores absolutos da vida. Esse empreendimento, contudo, teve o seu fim trágico: ruiu e gerou dispersão, pois estava solidificado sobre as bases da autossuficiência e do orgulho que eliminam a alteridade. Por outro lado, o livro de Neemias nos apresenta o projeto de reconstrução da cidade devastada (cf. Ne 2), onde Jerusalém renasce a partir do apoio mútuo das famílias, de uma responsabilidade partilhada e da certeza da presença de Deus no centro de seus esforços.
O paradigma desses dois projetos bíblicos ilustra com lucidez as opções que a tecnologia contemporânea nos apresenta. Babel representa, hoje, a ilusão da autossuficiência alimentada pelo paradigma tecnocrático. O desejo de criar sistemas computacionais perfeitos e a forte aproximação com narrativas transumanistas e pós-humanistas repetem o pecado da planície de Senaar: promove-se o sacrifício da diversidade e o desprezo pela fragilidade humana — que passa a ser entendida como um mero erro biológico a ser corrigido — em nome de uma eficiência absoluta que, em verdade, nega a condição do ser humano como criatura de Deus. A denúncia do Papa, portanto, reside no fato de que essas lógicas geram uma perigosa assimetria epistêmica e econômica, onde dados e algoritmos reduzem o mistério da pessoa a medidas puramente comerciais controladas por grandes monopólios privados. É um alerta explícito contra a desumanização: “Evitemos, portanto, a 'síndrome de Babel': a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única - mesmo digital - dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa” (MH 10).
Por outro lado, podemos fazer da inteligência artificial um caminho de reconstrução, de comunhão e de união da humanidade em torno de sua dignidade original. A lógica da corresponsabilidade que reergueu a cidade santa contrapõe-se diretamente ao autoritarismo vertical de Babel. Esse movimento reflete o princípio da subsidiariedade, tão fundamental para a reflexão social católica, que valoriza as instâncias locais e os organismos intermediários para que o povo não sofra processos impostos de cima para baixo. Conforme nos recorda o Pontífice: “Com efeito, a antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão: a harmonia que brota quando cada um assume a própria responsabilidade e todo o povo reconhece que a sua força provém do Senhor” (MH 8). A metáfora de reconstruir Jerusalém na era digital significa, portanto, estabelecer regras justas e transparentes que deem voz aos excluídos dos avanços tecnológicos, regulamentar e gerir os dados como autênticos bens comuns e avaliar os impactos da inovação sempre a partir do olhar dos pequenos e mais vulneráveis.
Dentro desse cenário desafiador, a Carta Encíclica apela a cada um de nós a transformar a reflexão em ação responsável. O seguimento de Jesus Cristo e a fidelidade ao Seu Evangelho exigem dos cristãos uma participação ativa na vida pública e social, sujando as mãos no canteiro de obras do nosso tempo como autênticos construtores de comunhão (cf. MH 16). A Igreja é o próprio sujeito comunitário e histórico da sinodalidade e da missão (cf. MH 86), portanto, não devemos temer o engajamento ético e político nas novas estruturas digitais, assumindo o papel de servos do Reino que vem, e não de senhores de torres destinadas a ruir. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, capaz de preservar a dignidade ontológica contra qualquer tentativa de divinização tecnológica. Somos filhos de um Deus vivo que, por puro amor, nos concebeu e nos concedeu gratuitamente a existência. Proclamemos, pois, com coragem e perseverança, a beleza dessa magnífica humanidade criada à Sua imagem e semelhança, recusando-nos firmemente a reduzir o mistério da vida humana ao controle e ao desempenho da técnica.
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