Cardeal Bychok: a Ucrânia não está sozinha, a Igreja e o Papa estão conosco
Por Viktoria Havaleshko e Isabella H. de Carvalho
Enquanto não dá trégua o conflito na Ucrânia, o cardeal ucraniano Mykola Bychok levou o sofrimento do povo ucraniano ao Papa Leão XIV em 24 de junho, presenteando-o com uma bandeira e uma cruz que pertenceram a um soldado que combateu na guerra.
O cardeal Bychok é bispo da Eparquia de São Pedro e São Paulo de Melbourne, Austrália, e está atualmente em Roma para o Consistório Extraordinário, realizado no Vaticano de 26 a 29 de junho. Ele entregou os itens emoldurados em um quadro ao Papa ao final da Audiência Geral de quarta-feira.
Em entrevista ao Vatican News, o cardeal Bychok falou sobre o significado deste presente, suas esperanças para o Consistório e como a Igreja ucraniana pode contribuir para as discussões sobre a paz.
A transcrição a seguir foi editada por razões de estilo e clareza:
Sua Eminência, ao final da Audiência Geral de quarta-feira, o senhor teve a oportunidade de saudar o Papa Leão XIV e lhe dar um presente. Poderia falar sobre esse momento e o significado do presente?
Essa foi uma grande oportunidade para mim. Primeiramente, rezar com o Papa e refletir sobre a Palavra de Deus durante a Audiência. Depois, ao final da oração, pude me aproximar do Santo Padre e lhe apresentar uma cruz e uma bandeira ucraniana que pertenciam a um soldado ucraniano, agora veterano. Ele passou três anos na guerra.
Na verdade, ele me pediu, por meio de outro veterano, que entregasse esse presente ao Santo Padre. Eu havia dado esses itens a um padre ucraniano em fevereiro e, quando desembarquei em Roma vindo de Melbourne, esse padre me disse que ainda tinha a bandeira e a cruz.
Foi um grande sinal de Deus, pois eu planejava participar da Audiência Geral do Papa. Em seguida, aproximei-me do Santo Padre e lhe transmiti saudações da Austrália e da Ucrânia.
Expressei palavras de gratidão pelo apoio à Ucrânia neste momento de guerra, bem como ao povo ucraniano que está ferido e profundamente traumatizado, especialmente aqueles que passaram alguns anos na linha de frente, como nossos soldados, veteranos, desaparecidos em combate e aqueles que estão em cativeiro.
Quando entreguei este presente ao Santo Padre, enfatizei e destaquei que esta bandeira e cruz são um grande símbolo para a Ucrânia. Também expressei este pedido dos soldados ucranianos para que continuemos a proclamar a verdade sobre a guerra na Ucrânia, para sermos este farol de esperança e verdade.
Então, transmiti todas essas palavras deste veterano ao Santo Padre. Foi realmente gratificante para mim ter me tornado o instrumento para transmitir essas palavras e esses objetos.
Foi um sinal de esperança para a Ucrânia, de que não estamos sozinhos, estamos com Deus e também com toda a Igreja Católica, e o líder da Igreja, o Papa Leão XIV, está conosco também.
Nos dias 26, 27 e 29 de junho, o Papa Leão XIV se reune com cardeais de todo o mundo para o Consistório. Entre os temas a serem debatidos estão as guerras, as divisões e os conflitos em curso em todo o mundo, bem como a forma como a Igreja pode apoiar a construção da paz. Como representante da Igreja Ucraniana, quais são as suas expectativas para este Consistório?
É uma grande ocasião ter um Consistório. Este é o segundo encontro, visto que o último ocorreu em janeiro.
Um dos principais temas do Consistório é a encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV, e há também quatro temas principais para discussão. Alguns deles são sobre guerra e paz.
É uma grande oportunidade não só para mim, como Cardeal nascido na Ucrânia, mas também para outros Cardeais partilharem as suas palavras, as suas esperanças.
Nós, ucranianos, tentámos levantar este tema algumas vezes nos últimos anos, e aqui estamos, vamos agora discuti-lo ao mais alto nível da Igreja Católica, o que é realmente muito bom.
Tenho esperança neste Consistório, e depois veremos os frutos das discussões com todos os Cardeais e com o Papa Leão XIV.
Na sua opinião, qual a contribuição que a Igreja ucraniana pode dar a essas discussões sobre a paz?
Devemos estar abertos ao diálogo. Como país, temos uma fronteira que não podemos ultrapassar, pois esta é a nossa terra. Milhares e milhares de nossos soldados e mulheres deram suas vidas pelo futuro do nosso país, de nossas famílias, de nossos filhos.
Por essa razão, devemos estar abertos ao diálogo. No entanto, a guerra traz muitos traumas, feridas e perdas. Neste momento, podemos ver o resultado da guerra. Muitas pessoas, especialmente aquelas que passaram algum tempo na linha de frente – não apenas soldados, mas também civis – têm dificuldade em viver em paz; essas são as feridas e os traumas da guerra.
Superamos alguns desafios, mas acredito que muitos outros ainda estão por vir. Mesmo quando a guerra terminar, novas feridas se abrirão.
No entanto, como eu disse, não estamos sozinhos. Deus está conosco, e a Igreja Católica também. Essa é a principal razão pela qual, desde a invasão em grande escala, estamos com as mãos cheias.
A Igreja Católica em todo o mundo – na Europa, nos EUA, na Austrália – encontrou recursos para ajudar nosso povo, para levar a eles coisas simples como água, pão ou outras coisas que são muito necessárias diariamente.
Também encontramos alguns especialistas de outros países que passaram pela guerra, então estamos tentando encontrar bons exemplos que possamos trazer para o nosso país, o que será realmente útil.
Podemos compartilhar alguns dos nossos próprios exemplos, como Igreja. Desde o início da guerra, muitas pessoas foram deslocadas internamente no país, da parte leste da Ucrânia em geral, para a parte oeste ou central.
Milhões de pessoas também foram deslocadas em todo o mundo. Ninguém ficou em tendas. Se você se lembra de outras guerras, a maioria das pessoas ficou em tendas.
Esse é um ótimo exemplo de que, quando estamos juntos, podemos fazer muitas coisas boas. Temos exemplos de como viver em tempos de guerra, como superar o trauma da guerra, o que a Igreja pode fazer durante a guerra e, especialmente, depois do seu fim.
Será um enorme benefício, não só para a Ucrânia, mas para todo o mundo civilizado.
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