Busca

Esta imagem mostra casas danificadas em um conjunto habitacional social em Catia La Mar, estado de La Guaira, Venezuela, em 9 de julho de 2026, após os terremotos gêmeos de 24 de junho. (Foto de MARTIN BERNETTI / AFP) Esta imagem mostra casas danificadas em um conjunto habitacional social em Catia La Mar, estado de La Guaira, Venezuela, em 9 de julho de 2026, após os terremotos gêmeos de 24 de junho. (Foto de MARTIN BERNETTI / AFP)  (AFP or licensors)

Não deixem de rezar pela Venezuela, pede pároco de La Guaira

Após o devastador terremoto que atingiu o país em 24 de junho, o padre Antonio Rella, pároco da paróquia do Imaculado Coração de Maria, descreve um cenário marcado pela dor, incerteza e solidariedade. Enquanto sua comunidade se torna um centro de ajuda para as áreas mais afetadas, o padre insiste que a reconstrução material e espiritual exigirá tempo, perseverança e oração.

Sebastian Sanson Ferrari - Cidade do Vaticano

Em meio a prédios desabados, famílias ainda aguardando notícias de seus entes queridos e comunidades inteiras tentando se reconstruir, a Igreja em La Guaira continua a apoiar a população afetada pelo devastador terremoto duplo que atingiu a Venezuela na quarta-feira, 24 de junho.

O padre Antonio Rella, pároco da paróquia do Imaculado Coração de Maria, afirma que descrever com precisão a magnitude da tragédia ainda é difícil devido às limitações de mobilidade e à extensão dos danos.

“A destruição foi monumental”, declara ele. “Há lugares que se assemelham a zonas de guerra e outros que evocam imagens apocalípticas, com prédios inteiros reduzidos a escombros.”

Entrevista com o pároco de La Guaira

Entre a esperança e a dor

 

Quinze dias após o terremoto, muitas famílias continuam a se agarrar à esperança de encontrar seus parentes desaparecidos com vida. Outras tiveram que enfrentar a dor de recuperar apenas os restos mortais de seus entes queridos.

“Ainda há muita esperança em tantas famílias”, diz o sacerdote, lembrando o recente resgate de duas irmãs com vida dos escombros. A incerteza, explica, não é apenas emocional. Ela também se estende a necessidades básicas como acesso à água, alimentos e estabilidade econômica. Embora alguns comércios tenham reaberto, a atividade continua limitada e muitas pessoas perderam seus meios de subsistência.

“Estamos em uma situação complexa”, resume ele.

Prédio danificado pelos terremotos de 24 de junho, em Catia la Mar, estado de La Guaira, Venezuela, 9 de julho de 2026. REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
Prédio danificado pelos terremotos de 24 de junho, em Catia la Mar, estado de La Guaira, Venezuela, 9 de julho de 2026. REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria   (Leonardo Fernandez Viloria)

Uma paróquia transformada em centro de ajuda humanitária

 

A Paróquia do Imaculado Coração de Maria sofreu danos menores em comparação com outras comunidades da diocese. Embora algumas imagens religiosas tenham caído e o altar tenha sido afetado, a estrutura da igreja permaneceu de pé.

A situação é bem diferente em outras paróquias vizinhas. A catedral sofreu danos graves e várias igrejas terão que ser demolidas devido aos efeitos do terremoto.

Justamente por ter resistido ao impacto do terremoto, a igreja paroquial tornou-se um local estratégico para o atendimento de emergência.

“A paróquia se tornou um ponto de encontro para os padres e também um centro de distribuição de ajuda para as comunidades vizinhas”, explica o Padre Rella.


A solidariedade que chegou de dentro e de fora do país

 

O sacerdote destaca a extraordinária demonstração de solidariedade recebida de toda a Venezuela e de inúmeros países ao redor do mundo.

“Não me recordo de ter presenciado uma tragédia dessa magnitude”, afirma, expressando sua gratidão pelas inúmeras iniciativas de ajuda humanitária.

Ele reconhece, no entanto, que durante os primeiros dias, a assistência foi marcada por certa desorganização devido à dimensão da emergência e à chegada simultânea de diversas organizações e instituições.

Nesse contexto, ele enfatiza o papel desempenhado pela Cáritas Venezuela, cuja estrutura paroquial e diocesana permitiu uma rápida mobilização de recursos e voluntários. “A primeira organização a agir imediatamente foi a Cáritas”, destaca.

Uma mulher está em pé sobre os escombros de um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 9 de julho de 2026, após os terremotos de 24 de junho. As Nações Unidas lançaram um apelo urgente em 8 de julho de 2026 por quase US$ 300 milhões para as operações de socorro às vítimas do terremoto na Venezuela, enquanto o número de mortos pela tragédia subia para mais de 3.800 pessoas. (Foto de Raul Arboleda / AFP)
Uma mulher está em pé sobre os escombros de um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 9 de julho de 2026, após os terremotos de 24 de junho. As Nações Unidas lançaram um apelo urgente em 8 de julho de 2026 por quase US$ 300 milhões para as operações de socorro às vítimas do terremoto na Venezuela, enquanto o número de mortos pela tragédia subia para mais de 3.800 pessoas. (Foto de Raul Arboleda / AFP)   (AFP or licensors)

O maior desafio: acompanhar o sofrimento

 

Além de distribuir alimentos ou medicamentos, oferecer acompanhamento espiritual é um dos maiores desafios para os padres da diocese.

“Não é fácil não se colocar no lugar do outro. É praticamente impossível não ter empatia”, confessa.

Entre os muitos testemunhos que o comoveram, ele se lembra do caso de uma avó que buscava desesperadamente a neta, desaparecida sob os escombros.

Ele também se lembra dos funerais realizados recentemente para várias vítimas do terremoto, incluindo uma criança de apenas um ano de idade.

“Encontrar as palavras certas para iluminar essa realidade a partir de uma perspectiva de fé não é tarefa fácil”, admite.


Reconstruindo Igrejas e Reconstruindo a Esperança

 

O padre compara a situação atual ao devastador deslizamento de terra que atingiu Vargas em 1999, uma experiência que, segundo ele, ensinou importantes lições sobre a resiliência do povo venezuelano. “Não é a primeira vez que passo por isso”, comenta.

Entre as prioridades da Igreja local está a reconstrução das igrejas, concebidas não apenas como edifícios, mas como espaços de encontro, consolo e oração para as comunidades.

“Sempre digo aos meus paroquianos que esta é a casa deles”, enfatiza o pároco. “Eles podem vir aqui sempre que quiserem louvar a Deus, agradecer ou até mesmo questionar a Deus.”

Juntamente com a restauração dos locais de culto, ele considera essencial fortalecer o apoio espiritual e psicológico oferecido tanto aos fiéis quanto aos agentes pastorais que também sofreram as consequências da tragédia, realizado por ministros ordenados e leigos que atuam na comunidade.

Um brinquedo está entre os escombros após os terremotos de 24 de junho em Los Corales, La Guaira, Venezuela, 4 de julho de 2026. REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
Um brinquedo está entre os escombros após os terremotos de 24 de junho em Los Corales, La Guaira, Venezuela, 4 de julho de 2026. REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria   (Leonardo Fernandez Viloria)

Água e alimentos: as necessidades mais urgentes

 

Em termos materiais, as principais necessidades continuam sendo alimentos e acesso à água potável.

Muitos moradores dependiam economicamente de atividades ligadas ao Aeroporto Internacional de Maiquetía, ao porto de La Guaira ou a pequenos comércios que agora estão fechados ou destruídos.

“Há pessoas que não perderam suas casas, mas perderam sua renda e não têm mais como se sustentar”, explica o padre.

Embora as doações de medicamentos tenham sido abundantes e a paróquia tenha até organizado um banco de medicamentos para a comunidade, o fornecimento de alimentos continuará sendo uma prioridade nas próximas semanas.

Para concluir, o Padre Antonio dirigiu uma mensagem de gratidão a todas as pessoas e instituições que colaboraram com as vítimas do terremoto e pediu que a solidariedade não diminuísse quando a atenção da mídia sobre a emergência se dissipasse.


“Quando a ajuda começar a diminuir, ainda precisaremos daquele pequeno impulso para nos reerguermos e começarmos a reconstruir”, alertou.

Ele também ofereceu uma palavra de esperança aos venezuelanos que vivem no exterior e acompanham ansiosamente as notícias de seu país.

Por fim, fez um apelo simples, porém poderoso, a todos os homens e mulheres de boa vontade:

“Não parem de rezar pela Venezuela. Talvez nem todos possam ajudar materialmente, mas uma oração diária por nós vale muito, porque chega ao trono de Deus e lá produz frutos.”

E concluiu com uma frase que resume o espírito com que a Igreja acompanha as comunidades afetadas:

“A fé não torna as coisas fáceis; ela simplesmente as torna possíveis, porque nos dá força na alma para continuarmos.”

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.

10 julho 2026, 08:22