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Afastar-se da Verdade é afastar-se da realidade?

Quando o ser humano tenta moldar a realidade à sua vontade e dificuldades, rejeitando a Luz da Verdade, seu coração se endurece. Essa insensibilidade espiritual e cegueira destroi a confiança na Verdade divina, gerando uma ilusão de virtude e felicidade que arruína a própria existência.

Diácono Adelino Barcellos Filho - Diocese de Campos/RJ.

Porquanto a verdade concretiza-se na estrita correspondência com a realidade, o alheamento em relação a ela induz, inexoravelmente, ao distanciamento da própria “realidade factível”. Semelhante ruptura com a Verdade essencial opera um obscurecimento na inteligência espiritual da Alma, desfigurando a sua explicação sobre o cosmos e comprometendo, por conseguinte, o livre arbítrio da vontade humana.

Em sua alocução do Angelus proferida em 9 de agosto de 2026, o Sumo Pontífice Leão XIV oferece-nos uma profunda iluminação reflexiva ao asseverar que, “quando o Mestre entra no barco, a tempestade acalma, e então brota espontaneamente do coração dos discípulos a profissão de fé: “Tu és, realmente, o Filho de Deus!” Trata-se de uma confiança perene, caracterizada por uma anuência plena e incondicional.

Pedro buscou o Senhor, mas distraiu-se com a tempestade. Isso ilustra uma "realidade forjada pelo desejo", onde a “Verdade objetiva” é trocada por crenças individuais ("meu corpo, minhas regras"). Embora o pecado prometa autonomia, ele gera escravidão espiritual, assim como o demônio, que perdeu sua liberdade pelo orgulho e rejeitou a Deus, alterando sua essência para sempre.

Visto que o Deus eterno e todo-poderoso se fez um de nós ao encarnar-se no seio de Maria, a dignidade humana e tudo o que a envolve tornam-se inegociáveis. Contudo, a nossa carnalidade nos obstaculiza de experimentar a Verdadeira Liberdade dos Filhos de Deus no momento em que intentamos impor a nossa própria vontade à de Deus.

A Sabedoria não penetrará na alma iníqua, tampouco habitará no corpo sujeito ao pecado; outrossim, o Espírito Santo afastar-se-á dos pensamentos insensatos. A autêntica liberdade consubstancia-se na faculdade de optar pelo bem e perseverar na Verdade, sob a égide do Amor Divino, o qual nos liberta e nos compele ao serviço do próximo, a diaconia de uma resposta vocacional.

Uma vez iluminada pela Verdade, a consciência humana adquire a capacidade de discernir retamente entre o bem e o mal, confrontando o indivíduo com a realidade objetiva e exortando-o a assumir a sua responsabilidade moral. O grave perigo reside na estruturação de uma consciência moldada exclusivamente pelos apetites e desejos pessoais, o que culmina inexoravelmente no entorpecimento ético e na desfiguração do necessário autoexame existencial.

Desde os primórdios da Revelação Divina, manifestada no "Eu Sou o que Sou", constata-se o chamado a Moisés. A convocação divina (Vocação): o Criador dirigiu-se a ele por duas vezes (“Moisés! Moisés!”) e ordenou-lhe que descalçasse as sandálias. Ademais, ocorreu a revelação de Sua identidade: Deus declarou-se como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.

Culminando, posteriormente, na Revelação de Jesus Cristo como a segunda pessoa da Santíssima Trindade (Una e Santa): “Eu e o Pai somos um”; “Entretanto, digo-vos a verdade: convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito (o Espírito Santo que procede do Pai e do Filho) não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei” (João 16, 7) - desejo perene da dinâmica Trinitária em cada um de nós, batizados.

Segundo o solene magistério da Igreja Católica, a Verdade transcende as opiniões humanas e identifica-se na pessoa de Jesus Cristo — "o Caminho, a Verdade e a Vida" —, a manifestação visível do Altíssimo (Nostra Aetate - 1965).  A célebre interpelação de Pôncio Pilatos: “O que é a verdade?” — está registrada em João (18,38), ocorrendo no interrogatório em que o Cristo afirma ter vindo ao mundo para dar testemunho da Verdade.

A resposta silenciosa de Jesus caracteriza o alheamento em relação à verdade espiritual e moral que provoca a perda do referencial ontológico profundo, induzindo a alma a concepções ilusórias e alienantes que pervertem a ordem natural do Criador. O Papa João Paulo II discute a pergunta de Pilatos, alertando que o relativismo e o consenso majoritário não devem virar absolutos morais (Veritatis Splendor - 1993).

Quando o ser humano tenta moldar a realidade à sua vontade e dificuldades, rejeitando a luz da Verdade, seu coração se endurece. (Gaudium et Spes, 22)  Essa insensibilidade espiritual e cegueira destroi a confiança na Verdade divina, gerando uma ilusão de virtude e felicidade que arruína a própria existência, com aparência de bem.

É fundamental compreendermos que nos cabe assumir um compromisso intrépido que a própria inteligência artificial, por exemplo, jamais será capaz de reproduzir ou experimentar: a sublime e desafiadora missão de “pagar o preço” no Amor absoluto e na defesa intransigente da Verdade essencial, na vida humana.

Diante de uma contemporaneidade saturada por algoritmos desprovidos de alma, sobressai o imperativo da fidelidade humana ao Transcendente. “Amar a Verdade” constitui um ato que transcende a mera e passiva capacidade de reconhecê-La intelectualmente; significa, em última análise, a entrega de viver integralmente por ela, com ela e nela. (CIC - 2465 a 2470 ).

Ademais, “Defender a Verdade” não nos exige manifestações espalhafatosas ou gritos intempestivos, militâncias, por vezes desprovidas de sentido, mas sim uma coragem autêntica, silenciosa e “resiliente” — mesmo quando tal postura custa o preço altíssimo da “indefinição  imposta”, eclesialmente mundana e do isolamento social como uma sórdida alternativa.

Aqueles que nutrem um Amor genuíno pela Verdade recusam peremptoriamente curvar-se ao erro reinante, blindando seus corações para não se corromper perante as facilidades do relativismo contemporâneo; em vez disso, permanecem inabaláveis na firmeza de um caráter moldado com humildade sincera e profunda fidelidade, sem fingimento.

É imperativo recordar que a Verdade prescinde de abstrações conceituais, consubstanciando-se na Pessoa de Jesus Cristo e transubstanciando-se na Sagrada Eucaristia. Conquanto para determinados indivíduos refratários à doutrina e opositores desobedientes da Santa Igreja, desejam que Ela seja reduzida a meras narrativas convenientes e maleáveis, negando a forma unívoca, a autêntica História pessoal de Salvação.

Quando a alma se afasta da Verdade, a realidade torna-se intolerável. Essa ruptura obscurece a inteligência espiritual, distorce a visão de mundo e gera alienação da realidade objetiva. Ao rejeitar a luz divina para seguir desejos pessoais, o ser humano enfrenta endurecimento do coração, entorpecimento ético e cegueira interior, destruindo a felicidade e a chance de uma Eternidade Feliz.

A Alma passa a viver sob uma ilusão construída pela soberba, escravizada pelo pecado que promete autonomia, mas afasta de Deus. Sem o amparo da Verdade divina, identificada em Jesus Cristo, a realidade terrena perde o sentido e torna-se um fardo intolerável.

Senhor Deus, Uno e Trino, fonte de toda luz, dai-me um coração firme para Amar a Verdade e coragem para defendê-la, mesmo quando isso exigir sacrifícios, entrega da própria vida. Livrai-me da mentira,  do engano, do fingimento e tornai meus passos fiéis à Vossa Justiça, como prática da Misericórdia. Amém.

Ó Nossa Senhora das Mercês, Mãe Puríssima e Obediente, dignai-vos instruir-nos no Amor à Verdade; Firme Torre de Davi, concedei-nos a fortaleza necessária para propugná-la; Guia infalível, conduzi-nos pelas sendas do Vosso Amor. Assim seja.

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12 agosto 2026, 12:22