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Ciclone Ana em Madagascar Ciclone Ana em Madagascar 

Ciclone Ana na África Austral: calamidade pública

Os danos causados pelas chuvas torrenciais estão pondo à prova um sistema econômico e sócio-sanitário já frágil. De Madagascar o salesiano padre Bizimana denuncia o paradoxo climático do país, onde áreas em completa seca coexistem com áreas altamente inundadas. Depoimento de um médico na luta por ajudas humanitárias no país

Antonella Palermo – Vatican News

O número de mortes causadas pela tempestade tropical Ana em Madagascar, Moçambique e Malaui subiu para 70 enquanto as equipes de resgate lutam para reparar os danos à infra-estrutura e ajudar dezenas de milhares de vítimas. Chuvas torrenciais e deslizamentos de terra atingiram os três países, causando mortos e feridos. O Zimbábue também foi afetado pela tempestade, mas não foram registradas mortes.

Sistema de comunicação frágil

Nos três países africanos atingidos pelo ciclone Ana, dezenas de milhares de casas foram danificadas, algumas delas desabaram devido às fortes chuvas, com os habitantes presos nos escombros. As pontes foram arrastadas por rios transbordantes, afogando o gado e inundando as lavouras, com isso foi destruído os meios de subsistência de muitas famílias rurais. No norte e no centro de Moçambique, Ana destruiu 10 mil casas, dezenas de escolas e hospitais e causou quedas da energia elétrica. No Malaui, o governo declarou o estado de calamidade natural. O rio Shire, que corre do lago Malaui através de Moçambique até o rio Zambeze, atingiu um nível de alerta causando inundações em todos os arredores.  

Chuvas e inundações em Madagascar
Chuvas e inundações em Madagascar

O paradoxo climático de Madagascar

Estima-se que haja 110 mil pessoas deslocadas em Madagascar. Na capital, Antananarivo, escolas e ginásios foram transformados em abrigos de emergência. Em Madagascar, quase todos os anos há ciclones e chuvas torrenciais, mas nunca vimos um cenário como este antes. São palavras do padre Innocent Bizimana, inspetor salesiano de Dom Bosco para a Província de Madagascar e Maurício. O religioso ilustra a situação paradoxal do país afirmando: "Pode-se ver responsabilidades aqui e ali, mas creio que a mudança climática global tenha muito a ver com isso. Enquanto no sul do país há uma seca total porque não chove há cinco anos, e um milhão de pessoas passam fome, no centro há chuva em excesso”. “Aqui – acrescenta o sacerdote - cerca de 60 mil pessoas perderam suas casas e o governo conseguiu encontrar moradia para cerca da metade delas". Padre Bizimana fala dos danos que se somam à já muito grave condição socioeconômica do país e define o que está acontecendo de "uma calamidade pública". "É como se as pessoas, que já não tinham nada, tivessem agora mergulhado ainda mais na miséria. É angustiante ver tantas crianças e mulheres jogadas fora de suas casas por causa da água que chega a 4-5 metros de altura. Aqui onde nos encontramos, estamos mais protegidos por ter uma altitude maior, mas apenas alguns quilômetros mais adiante, está tudo inundado".

Duas horas de eletricidade por dia, "precisamos de tudo"

A Igreja local está tentando atender às necessidades da população, mas não é fácil fornecer, "também porque há dois anos, com a pandemia, temos alimentado as pessoas, mas devemos considerar que não temos muitos meios", acrescenta padre Bizimana. "Todas as terças e sextas-feiras, 500-600 pessoas vêm aqui para comer. Mas os suprimentos vão acabar em quinze dias, estávamos tentando encontrar alguma ajuda para alimentá-los e, em vez disso, chegaram estas chuvas. Cada um faz o que pode, no amor, e Jesus providenciará o resto”.

Chuvas e inundações em Madagascar
Chuvas e inundações em Madagascar

O risco de epidemias

Francesco Cimino é um médico italiano que vive em Madagascar há anos. Diretor da Fundação Akbaraly, ele também é chefe da ONG "La vita per te". Atualmente trabalha como voluntário em um centro para pessoas gravemente doentes de Covid-19, chamado "Stella". Junto com o Ministério da Saúde avalia os altos riscos de uma epidemia. "Nosso receio é que surjam epidemias porque onde os deslocados que foram alojados vivem muito próximos uns dos outros", explica. "Estamos tentando ver como prevenir este problema de saúde pública, tendo em mente que, além da Covid, estamos lutando contra a peste bubônica e as doenças intestinais. Principalmente damos atenção aos mais frágeis que são as crianças pequenas para as quais, dois dias de diarreia causam sua morte". Falou também sobre a interrupção das comunicações com o porto principal Tabata, o que complica mais a situação. “A escassez de leite e alimentos já começou, e o sistema é muito frágil", denuncia. “Aqui todo o transporte é rodoviário, não há trens. Estamos tentando coordenar as ajudas mesmo porque ultimamente não chega mais nada.  É uma grande luta”.

Danos pela inundação danos da Covid

O Dr. Cimino acrescenta, na frente de combate à propagação das infecções por coronavirus, que a equipe da qual ele faz parte está tentando fazer o que pode. "Desde 24 de janeiro, conseguimos vacinar muitas pessoas que não teriam possibilidade em outro lugar. É um feito e tanto", afirma. "Para muitos é a primeira dose, mas para outros é a segunda". A campanha da Covax tem corrido bem aqui, mas com muitas falhas", disse. "O verdadeiro problema é que muitas pessoas aqui têm medo da vacina. E por isso é preciso convencê-los. Depois, em geral, há o aspecto ligado ao fato de que não é nada fácil conseguir testar a difusão da epidemia, pois os testes são pagos e poucas pessoas têm condições de pagá-los. Nós os fazemos de graça", conclui, "especialmente para as pessoas mais pobres".

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28 janeiro 2022, 09:09