Ebola ameaça quase 3 milhões de crianças no leste da RD Congo
Camila Morais - Cidade do Vaticano
O avanço da epidemia de Ebola no leste da República Democrática do Congo coloca cerca de 2,95 milhões de crianças e adolescentes em situação de risco. O alerta foi feito pelo UNICEF nesta terça-feira (23), após o número de casos confirmados da doença chegar a mil em todo o mundo.
Segundo a agência das Nações Unidas para a infância, os menores de 18 anos representam 54% da população das 31 zonas sanitárias afetadas pelo surto. Além do risco de contágio, as crianças enfrentam as consequências do colapso de serviços essenciais, como saúde, vacinação, nutrição, educação, acesso à água potável e proteção social.
A diretora-executiva do UNICEF, Catherine Russell, destacou o impacto devastador da epidemia sobre as famílias. “Nossas equipes em Ituri encontraram crianças que perderam as mães e, em alguns casos, ambos os pais por causa do Ebola. Elas tentam compreender essa ameaça enquanto estão cercadas por rumores e desinformação online”, afirmou.
Dados atualizados até 19 de junho mostram que crianças e adolescentes representam cerca de 15% dos casos confirmados de Ebola e mais de 25% das mortes registradas no leste do Congo. O UNICEF alerta ainda que menores infectados têm quase o dobro de probabilidade de morrer em comparação aos adultos.
A província de Ituri continua sendo o principal foco da epidemia, especialmente nas zonas sanitárias de Mongbwalu, Rwampara e Bunia. Casos também foram registrados nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul. Em Ituri, ao menos 135 crianças ficaram órfãs em consequência da doença. Elas recebem apoio psicossocial, encaminhamento para serviços sociais e acolhimento alternativo.
Para atender os menores separados de seus pais durante o tratamento, foi inaugurada recentemente a primeira creche apoiada pelo UNICEF. O espaço oferece proteção e cuidados a bebês e crianças pequenas enquanto seus responsáveis recebem assistência em centros de tratamento de Ebola. Outras duas unidades deverão ser abertas em breve.
A situação das crianças na região já era preocupante antes mesmo da epidemia. Mais da metade das crianças menores de cinco anos sofre de desnutrição crônica e os índices de vacinação permanecem baixos. Mais de uma em cada cinco crianças nunca recebeu a primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche.
Essas condições tornam o Ebola ainda mais perigoso. Os sintomas iniciais da doença podem ser confundidos com os de enfermidades comuns na região, como a malária, dificultando o diagnóstico precoce. Ao mesmo tempo, a desnutrição aumenta a vulnerabilidade dos pacientes.
Além das perdas familiares e do risco de infecção, crianças e adolescentes enfrentam estigma social, sofrimento psicológico e maior exposição à violência. O UNICEF alerta que surtos de doenças infecciosas costumam elevar também os casos de violência sexual contra mulheres e meninas.
Esses desafios se somam a anos de conflitos armados e deslocamentos forçados no leste da RDC, que já expõem milhões de crianças à violência, exploração e outras violações de direitos.
A epidemia ultrapassou as fronteiras congolesas. Em Uganda, foram confirmados 20 casos de Ebola e duas mortes entre pessoas que chegaram da República Democrática do Congo em busca de exames e tratamento. Entre os afetados estão crianças: uma apresentou resultado positivo para Ebola e outras 19 permanecem em quarentena sob observação.
Na República Democrática do Congo e em Uganda, o UNICEF atua em parceria com governos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Africano para Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC) para conter a propagação do vírus. As ações incluem prevenção e controle de infecções, rastreamento de contatos, sepultamentos seguros e mobilização comunitária.
A organização também trabalha para manter serviços essenciais em funcionamento, especialmente nas áreas de saúde, nutrição, vacinação, educação, abastecimento de água, saneamento e proteção da infância. Para financiar sua resposta nos próximos seis meses, o UNICEF estima a necessidade de US$ 70,7 milhões. Desse total, US$ 20 milhões ainda não foram garantidos. A agência também pede acesso humanitário seguro e contínuo às comunidades afetadas.
“As crianças são particularmente vulneráveis porque dependem dos cuidadores e não conseguem manter distância de um pai ou irmão doente da mesma forma que um adulto. Para protegê-las, precisamos de acesso constante e dos recursos necessários para chegar a todas as comunidades afetadas”, concluiu Catherine Russell.
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