Leão XIV: é dever da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano
Mariangela Jaguraba – Vatican News
O Papa Leão XIV iniciou, nesta terça-feira (21/04), sua visita pastoral à Guiné Equatorial, país situado na África Central, quarta e última etapa de sua viagem apostólica internacional ao Continente Africano.
Ao pé da escada do avião, no Aeroporto de Malabo, antiga capital, o Pontífice foi recebido pelo presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, acompanhado de sua esposa, Constância Mangue de Obiang, e pelo núncio apostólico José Avelino Bettencourt. Duas crianças vestidas com roupas tradicionais ofereceram flores a Leão XIV. Depois, o Papa foi de Papamóvel até o Palácio Presidencial onde houve a visita de cortesia ao presidente Obiang Mbasogo.
A seguir, Leão XIV encontrou-se com as autoridades, os representantes da sociedade civil e o corpo diplomático, no salão do Palácio Presidencial, onde proferiu seu primeiro discurso em terras equato-guineenses.
O Papa manifestou satisfação por "visitar o amado povo da Guiné Equatorial" e recordou a visita de São João Paulo II ao país, em 1982, que na época definiu o atual presidente, no poder desde 1979, como «o centro simbólico para o qual convergem as vivas aspirações de um povo a um clima social de autêntica liberdade, de justiça, de respeito e promoção dos direitos de cada pessoa ou grupo, e de melhores condições de vida, para se realizar como homens e como filhos de Deus».
"São palavras que permanecem atuais e que interpelam quantos estão investidos de responsabilidades públicas", disse Leão XIV. "Por outro lado, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração»".
Estas palavras da Constituição Gaudium et spes do Concílio Vaticano II expressam da melhor forma as razões e os sentimentos que me trazem até vós, para confirmar na fé e consolar o povo deste país em rápida transformação. Pois, tal como no coração de Deus, assim também no coração da Igreja ressoa o eco do que acontece na terra, entre milhões de homens e mulheres pelos quais o nosso Senhor Jesus Cristo deu a vida.
A seguir, citou Santo Agostinho que "interpretava os acontecimentos e a história segundo o modelo de duas cidades: a de Deus, eterna e caracterizada pelo seu amor incondicional (amor Dei), unido ao amor pelo próximo, especialmente pelos pobres; e a terrena, lugar de morada provisória, na qual o homem e a mulher vivem até à morte".
"Nesta perspectiva, as duas cidades existem conjuntamente até ao fim dos tempos e cada ser humano manifesta nas suas decisões, dia após dia, a qual delas deseja pertencer", sublinhou o Papa, acrescentando:
Sei que empreendestes o imponente projeto de construir uma cidade, que há poucos meses é a nova capital do vosso país. Decidistes dar-lhe um nome em que parece ressoar o da Jerusalém bíblica, Ciudad de la Paz. Que tal decisão possa interrogar as consciências sobre qual cidade desejam servir!
De acordo com o Papa, "Agostinho considera que os cristãos são chamados por Deus a habitar na cidade terrena com o coração e a mente voltados para a cidade celeste, a sua verdadeira pátria". "Todo o ser humano pode apreciar a antiquíssima consciência de viver na terra como de passagem. É fundamental que sinta a diferença entre o que perdura e o que passa, mantendo-se livre da riqueza injusta e da ilusão do domínio", sublinhou o Papa Leão. "Em particular, «o cristão, vivendo na cidade terrena, não está alheio ao mundo político e procura aplicar ao governo civil a ética cristã, inspirada nas Escrituras. A Cidade de Deus não propõe um programa político, mas fornece reflexões valiosas sobre questões fundamentais da vida social e política»", disse ainda o Papa.
De acordo com Leão XIV, "hoje, a Doutrina Social da Igreja representa uma ajuda para quem deseja enfrentar as “coisas novas” que desestabilizam o planeta e a convivência humana, buscando, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça". "O objetivo da Doutrina Social é educar para enfrentar os problemas, que são sempre diferentes, porque cada geração é nova, com renovados desafios, sonhos e interrogações", sublinhou.
"Comparando os nossos tempos com aquele em que o Papa Leão XIII promulgou a Rerum novarum, hoje «a exclusão é a nova face da injustiça social", disse ainda o Papa Leão, recordando que "o fosso entre uma “pequena minoria” – 1% da população – e a vasta maioria aumentou de maneira dramática".
"Quando falamos de exclusão, também nos deparamos com um paradoxo. A falta de terra, comida, casa e trabalho digno coexiste com o acesso às novas tecnologias que se difundem por toda a parte através dos mercados globalizados. Os telefones celulares, as redes sociais e até mesmo a inteligência artificial estão ao alcance de milhões de pessoas, incluindo os pobres", sublinhou o Papa, ressaltando "é dever inalienável das autoridades civis e da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, do qual o destino universal dos bens e a solidariedade são princípios fundamentais".
Não se pode esconder, por exemplo, que a vertiginosa evolução tecnológica a que assistimos acelerou uma especulação ligada à necessidade de matérias-primas, que parece fazer esquecer exigências fundamentais como a salvaguarda da criação, os direitos das comunidades locais, a dignidade do trabalho e a proteção da saúde pública.
A este propósito, Leão XIV recordou "o apelo do Papa Francisco, que há precisamente um ano deixou este mundo: «Hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Esta economia mata»".
Com efeito, hoje, mais do que há alguns anos, é ainda mais evidente que a proliferação dos conflitos armados tem entre os seus principais motivos a colonização de jazidas petrolíferas e minerais, sem nenhum respeito pelo direito internacional e pela autodeterminação dos povos. As próprias novas tecnologias surgem concebidas e utilizadas principalmente para fins bélicos e em contextos que não deixam vislumbrar um aumento de oportunidades para todos.
De acordo com o Papa, "sem uma mudança de rumo na assunção de responsabilidade política e sem respeito pelas instituições e pelos acordos internacionais, o destino da humanidade corre o risco de ser tragicamente comprometido. Deus não deseja isto. O seu santo Nome não pode ser profanado pela vontade de domínio, pela prepotência e pela discriminação: acima de tudo, não deve nunca ser invocado para justificar escolhas e ações de morte. Que o vosso país não hesite em rever as suas trajetórias de desenvolvimento e as positivas oportunidades de se posicionar no cenário internacional ao serviço do direito e da justiça".
De acordo com o Papa, a Guiné Equatorial pode encontrar na Igreja "ajuda para a formação de consciências livres e responsáveis", com as quais caminhar "juntos rumo ao futuro". Disse que "num mundo ferido pela prepotência, os povos têm fome e sede de justiça" e que "é preciso valorizar quem acredita na paz e ousar políticas contracorrente, cujo centro é o bem comum". "É urgente ter a coragem de visões novas e de um pacto educativo que dê aos jovens espaço e confiança", sublinhou.
Leão XIV concluiu, exortando a caminhar juntos, "com sabedoria e esperança, rumo à Cidade de Deus, que é a cidade da paz".
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