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Madonna de Raffaello Madonna de Raffaello 

Maria na infância de Jesus

"Maria se torna presença na história salvífica da Humanidade, não só no anúncio do Arcanjo Gabriel, mas no nascimento, na apresentação do menino Jesus no templo, na perda e no reencontro de Jesus no templo, conversando com os doutores da lei, aos dozes anos. "

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

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A Virgem Maria, "lembrada de tudo o que lhe havia sido dito acerca deste seu Filho, na Anunciação e nos acontecimentos sucessivos, é portadora em si mesma da «novidade» radical da fé: o início da Nova Aliança. Este é o início do Evangelho, isto é, da boa nova, da jubilosa nova". Ela sabe que "o Filho por ela dado à luz virginalmente, é precisamente aquele «Santo», «o Filho de Deus» de que lhe havia falado o Anjo."

"Durante os anos da vida oculta de Jesus na casa de Nazaré - diz-nos a Carta Encíclica Redemptoris Mater de São João Paulo II - também a vida de Maria «está escondida com Cristo em Deus» mediante a fé", que "efetivamente, é um contato com o mistério de Deus. Maria está constante e quotidianamente em contato com o mistério inefável de Deus que se fêz homem, mistério que supera tudo aquilo que foi revelado na Antiga Aliança. Desde o momento da Anunciação, a mente da Virgem-Mãe foi introduzida na «novidade» radical de autorevelação de Deus e tornada cônscia do mistério."  Mas, "como poderá então Maria «conhecer o Filho»? Certamente, não como o Pai o conhece; e no entanto, ela é a primeira entre aqueles aos quais o Pai «o quis revelar»".

Continuando a aprofundar o tema sobre a Virgem Maria na Constituição Dogmática Lumen Gentium, Pe. Gerson Schmidt* nos fala hoje sobre "Maria na infância de Jesus":

 

"O Concílio não tratou de expor toda a doutrina sobre Nossa Senhora. Seria impossível falar de toda a riqueza das verdades sobre Maria. O propósito foi de inserir Maria no seu papel fundamental dentro da Igreja, na história da salvação dos homens. Estamos, por isso, aqui comentando os pontos que A Lumen Gentium aborda sobre Maria. Depois da anunciação, vemos a presença de Nossa Senhora na infância de Jesus, que os padres conciliares retrataram assim, no número 57: “Esta associação da mãe com o Filho na obra da salvação, manifesta-se desde a conceição virginal de Cristo até à Sua morte. Primeiro, quando Maria, tendo partido solicitamente para visitar Isabel, foi por ela chamada bem-aventurada, por causa da fé com que acreditara na salvação prometida, e o precursor exultou no seio de sua mãe (cfr. Luc. 1, 41-45); depois, no nascimento, quando a Mãe de Deus, cheia de alegria, apresentou aos pastores e aos magos o seu Filho primogénito, o qual não só não lesou a sua integridade, mas antes a consagrou (180). E quando O apresentou no templo ao Senhor, com a oferta dos pobres, ouviu Simeão profetizar que o Filho viria a ser sinal de contradição e que uma espada trespassaria o coração da mãe, a fim de se revelarem os pensamentos de muitos (cfr. Luc. 2, 34-35). Ao Menino Jesus, perdido e buscado com aflição, encontraram-n'O os pais no templo, ocupado nas coisas de Seu Pai; e não compreenderam o que lhes disse. Mas sua mãe conservava todas estas coisas no coração e nelas meditava (cfr. Luc. 2, 41-51)”.

Maria se torna presença na história salvífica da Humanidade, não só no anúncio do Arcanjo Gabriel, mas no nascimento, na apresentação do menino Jesus no templo, na perda e no reencontro de Jesus no templo, conversando com os doutores da lei, aos dozes anos. Esses mistérios o Povo de Deus contempla na oração do terço que essencialmente é uma oração cristocêntrica, que medita os mistérios importantes da vida de Cristo, onde Maria faz parte e presença como mãe e discípula.

Maria Santíssima colocou o recém-nascido numa manjedoura (cf. Lc 2,7), deixando claro que Jesus nasceu num estábulo, ambiente inadequado para o nascimento de uma criança. São Pedro Julião Eymard relaciona o fato de Jesus ser colocado na manjedoura – local onde é colocado o alimento para os animais - com a Eucaristia, presença real de Jesus nas espécies sacramentais do Pão e do Vinho: “Vem de longe a revelação da Eucaristia feita por Jesus. É em Belém – ‘a morada do pão’ – Domus Panis – que nasce. É sobre a palha que repousa e esta parece sustentar na verdade a espiga do trigo verdadeiro”28. Ou seja, Jesus ter sido colocado numa manjedoura, que servia de manjar para os animais, é uma prefiguração do Verdadeiro Manjar Eucarístico que Jesus vai oferecer. O próprio significa etimológico de manjedoura nos leva a esse banquete, ao alimento, ao festim que Deus nos quer proporcionar.

Maria “deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2,7), Jesus é aquele que antecede toda criatura, é o princípio e o fim de toda a nova criação. As primeiras testemunhas do nascimento de Jesus, exceto Maria e José, são os pastores (cf. Lc 2,8-9). Os pastores representam os pobres de Israel, isto é, os destinatários primeiros do amor de Deus.

“Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2,19). Ela guarda essas coisas e as medita no seu coração como ponto que a iniciará na comunidade de fé pós-pascal, algo mais notável do que simplesmente comprovar que Maria documenta suas memórias, não é apenas uma fonte de recordações. “Guardar no coração”, em Maria não é simplesmente uma memória histórica, um registro temporal dos fatos. Ela guardava a Palavra e empregava suas forças para compreendê-la profundamente. Maria é o modelo do discípulo que ouve com profundidade a Palavra e não superficialmente. Esse tema é retomado em Lc 2,51: “Sua mãe conservava a lembrança de todos esses fatos em seu coração.” Essa repetição conclui as narrações da infância como forma de evidenciar a continuidade do gesto de Maria na perseverança do trabalho da fé.

Após o nascimento de Jesus, o evangelista mariano São Lucas salienta dois fatos, com a finalidade de destacar a obediência de seus pais. O primeiro, em Lucas 2,21, corresponde à circuncisão e a atribuição do nome a criança oito dias após o nascimento, sendo que a identificação através do nome é a realização do pedido do anjo feito à Maria. O segundo, em Lucas 2,22, é a apresentação do menino Jesus no templo, ocasião em que seus pais se purificam, evidenciando o fato de José e Maria estarem cumprindo a lei de Moisés, embora Maria era toda pura e cheia de Graça, concebida sem o pecado original."

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

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24 abril 2023, 08:03