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O arcebispo Agostino Marchetto, secretário emérito do Pontifício Conselho da Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, será cardeal no dia 30 de setembro O arcebispo Agostino Marchetto, secretário emérito do Pontifício Conselho da Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, será cardeal no dia 30 de setembro 

Marchetto: sempre a serviço dos migrantes e do Concílio, a púrpura é um reconhecimento

O arcebispo de Vicenza, de 83 anos, historiador do Concílio e secretário emérito do Pontifício Conselho da Pastoral dos Migrantes, está entre os 21 novos cardeais que serão criados pelo Papa no próximo Consistório. Em conversa com a mídia vaticana, ele destaca a primazia da Igreja no compromisso de proteger os migrantes. E sobre o Concílio Vaticano II acrescenta: "Para aplicá-lo, é necessária uma objetividade histórica e uma hermenêutica de continuidade".

Fabio Colagrande – Vatican News

No domingo, 9 de julho, enquanto Francisco anunciava o próximo Consistório para a criação de 21 novos cardeais após o Angelus, o arcebispo Agostino Marchetto confessava. Depois do meio-dia, as mensagens e telefonemas recebidos em seu celular o fizeram descobrir, com incredulidade e depois com alegria, que seu nome consta na lista de novos cardeais que serão criados pelo Papa em 30 de setembro próximo. Em particular, dom Marchetto é um dos três de "mais de oitenta anos", sem direito a voto no Conclave, que o Pontífice quis no Colégio Cardinalício porque "se distinguiram pelo serviço à Igreja".

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Arcebispo de Vicenza, nascido em 1940, dom Marchetto é secretário emérito do Pontifício Conselho da Pastoral dos Migrantes e Itinerantes. O núncio apostólico, há muito é estudioso do Concílio Vaticano II. Ordenado prelado em 1985, foi representante pontifício em Madagascar, Maurício, Tanzânia e depois em Belarus. Desde 1999, na Secretaria de Estado como oficial, desde 2001 foi secretário do Dicastério para a Pastoral dos Migrantes, cargo que deixou em 2010, aos setenta anos, para se dedicar ao estudo, em particular, da hermenêutica do Concílio. Em entrevista ao Vatican News, ele diz que considera a púrpura um reconhecimento de seu duplo "serviço à Igreja", tanto no campo pastoral quanto na pesquisa eclesiológica.

Uma pastoral orgulho da Igreja

“A específica pastoral da mobilidade humana, portanto dos migrantes e dos itinerantes é um pouco o grande orgulho da Igreja do século passado, pastoralmente falando”, disse. “Nesta área, tomou forma concreta a convicção de que a Igreja deve seguir, acompanhar a humanidade em sua viagem, com uma pastoral que se adapta à vida das pessoas em movimento”. “Certamente, o Papa sabe que com o Pontifício Conselho estou comprometido há dez anos na promoção e proteção dos migrantes e refugiados e todas aquelas categorias de pessoas cuja dignidade e direitos fundamentais não são respeitados, tendo também muitas dificuldades, também dentro da Igreja”. O futuro cardeal sublinha o quanto teve que lidar sobretudo com o “não acolhimento” da visão dos direitos humanos aplicada às situações de migração.

A primazia da Igreja sobre os migrantes

Segundo dom Marchetto, a Igreja foi uma das primeiras instituições a tentar colocar em prática os grandes princípios humanitários, também fruto da Segunda Guerra Mundial, como a necessidade de respeitar a pessoa humana em situações desastrosas e, ao mesmo tempo, solicitar a aplicação da legislação do direito internacional do mar. “Mas como é possível que as pessoas em perigo não sejam levadas em consideração? Quando as pessoas estão em perigo de vida, devemos ajudá-las, não rejeitá-las e enviá-las a lugares onde existam situações contrárias aos direitos humanos”, acrescenta o arcebispo. "Eu sempre disse essas coisas e acho que devem ser ditas."

A melhor hermenêutica do Concílio"

“O estudo do Concílio Vaticano II foi o motivo condutor de toda a minha vida”, acrescenta o futuro cardeal. "Em particular, a relação entre papado e episcopado e a evolução do tema da primazia e colegialidade papal desde o primeiro milênio até o Concílio". Em 2013, por ocasião da publicação de um volume da Livraria Editora Vaticana (LEV) assinado por dom Marchetto, o Papa Francisco o definiu como "o melhor hermeneuta do Concílio Vaticano II". “Meu compromisso diante deste acontecimento histórico – comenta o arcebispo – foi demonstrar o que todos os Papas atestam, ou seja, que não há uma ruptura, mas uma reforma e uma renovação na continuidade do único sujeito Igreja. É a fórmula que expressa bem a hermenêutica do Vaticano II, creio eu”.

A publicação dos Diários de Pericle Felici

Quase sessenta anos após o encerramento do Concílio, sua aplicação continua sendo um tema quente no debate eclesial, ao passo que não faltam detratores que o consideram a causa da secularização das últimas décadas. Dom Marchetto tem ideias muito claras sobre quais são os "três passos" a serem dados para ficar "em sintonia com o Concílio": "O primeiro passo consiste em conhecer a história o mais objetivamente possível". Segundo o estudioso, no início, a história foi escrita com muita pressa, sem levar em conta a falta de publicações fundamentais, como, por exemplo, as dos órgãos diretivos do Concílio. “Quando publiquei em 2105 – afirma Marchetto – os Diários do secretário-geral do Vaticano II, Pericle Felici, compreendemos melhor, por exemplo, a posição de Paulo VI, na intimidade de sua relação com o mesmo secretário”. Só no ano passado Marchetto cuidou da publicação de novos documentos sobre a história do Concílio, encontrados no arquivo da Secretaria de Estado. “Paulo VI - acrescenta - sublinhou que todos os documentos do Concílio deveriam ser publicados, só assim se poderia aspirar à objetividade histórica. E hoje certamente temos novas possibilidades de alcançá-la”.

"Há continuidade na Igreja"

O segundo passo a ser dado, segundo Marchetto, é o da hermenêutica, ou seja, a interpretação do Concílio, e deste ponto de vista é preciso levar em conta que “há uma continuidade na Igreja”. “O que pregamos? O que testemunhamos? A Igreja de todos os tempos, a Igreja ligada a Jesus Cristo, ao Evangelho, à Tradição”, afirma o arcebispo. "Certamente, também, com a ajuda de uma evolução legítima e existem regras para confirmar que é." “E depois – continua – há o Magistério, e também isso deve ser levado em conta”. “O Senhor confiou a Igreja, não só, mas também e sobretudo aos Apóstolos. E depois há São Pedro e seus sucessores, o Bispo de Roma”. Para Marchetto não se trata de uma visão hierárquica "piramidal", mas de uma perspectiva de "colegialidade" que deve ser considerada junto com a "primazia".

Primazia e sinodalidade

Também a recente reunião da Comissão Teológica mista entre católicos e ortodoxos, realizada em Alexandria, no Egito, explica o arcebispo, sublinhou a necessidade de manter juntos "primazia e sinodalidade". “As duas coisas não podem ser separadas – acrescenta – esta é a beleza do catolicismo!”. “Não devemos esquecer que o gênio do catolicismo é justamente a capacidade de unir as coisas. Se perdemos esta consciência devemos redescobri-la para ter uma realização do Concílio que seja verdadeira e justa, que tenha este esforço de conhecimento histórico e ao mesmo tempo respeito pela nossa visão teológica e eclesiológica”.

Estudo e ministério

Por fim, dom Marchetto conta com simplicidade que, mesmo depois de receber o barrete cardinalício, continuará a vida que sempre levou desde que se aposentou. “Vou continuar estudando, publicando, mas claro que também vou exercer o ministério, porque é justo, e porque são poucos os sacerdotes!”. “Se depois me disserem que querem algo específico de mim, ficarei feliz em dar à minha Igreja o que ela me deu”.

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13 julho 2023, 18:25