Busca

Uma imagem da Plenária da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (20-22 de setembro de 2023) (Foto: Christian Alvarez) Uma imagem da Plenária da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (20-22 de setembro de 2023) (Foto: Christian Alvarez)  (Christian Alvarez)

Entre Consistório e Sínodo, o apelo da Proteção dos Menores: fazer mais contra os abusos

Um documento da Pontifícia Comissão chama a atenção dos líderes da Igreja, tendo em vista os grandes eventos dos próximos dias no Vaticano: utilizar todos os métodos possíveis para superar as atuais carências e lacunas no trabalho de combate e prevenção das violências.

Vatican News

Por ocasião do Consistório para a criação de novos cardeais, no dia 30 de setembro, e poucos dias antes da abertura da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, no dia 4 de outubro, a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores lança um apelo à ação sobre o tema da sua competência.

São três os caminhos indicados: a solidariedade, instada para com as vítimas e os sobreviventes, à luz das contínuas revelações de abusos,;a intensificação por parte das lideranças da Igreja do compromisso e dos recursos para promover a proteção contra os abusos em todos os lugares; a tomada de consciência de que a proteção representa uma prioridade na Sínodo sobre a sinodalidade.

Solidariedade com aqueles que têm fome e sede de justiça

 

“Como Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores – lê-se no documento divulgado na quarta-feira, 27 de setembro – expressamos a nossa profunda dor e a nossa incondicional solidariedade, antes de tudo, às vítimas e aos sobreviventes de tantos crimes ignóbeis cometidos na Igreja. Cada dia parece trazer novas provas de abusos, bem como de encobrimento e de gestão inapropriada por parte da liderança eclesiástica em todo o mundo. Embora alguns casos sejam objeto de grande atenção na mídia, outros casos são pouco conhecidos - se é que o são - deixando muitas pessoas sofrendo em silêncio. Cada abuso envolve a angústia e a dor de uma terrível traição, não só por parte do abusador, mas também por parte de uma Igreja incapaz ou até mesmo não diposta em aceitar a realidade das suas ações”.

 

“Ouvimos e estamos perturbados – continua o comunicado – com os relatos das ações de indivíduos que ocupam cargos de responsabilidade dentro da Igreja, o sofrimento daqueles que foram afetados, bem como o trágico legado de comportamentos ignóbeis associados aos movimentos laicais e de outro tipo, e em muitas áreas da vida institucional da Igreja. Estamos profundamente abalado - lê-se ainda -, pelo imenso sofrimento, pela dor persistente e pela revitimização vivida por tantas pessoas, e condenamos inequivocamente tais crimes - e a sua impunidade - perpetrados contra muitos de nossos irmãos e irmãs. Reiteramos nosso firme compromisso de trabalhar para garantir, na medida do possível, que tais atos abomináveis ​​e reprováveis sejam erradicados da Igreja."

A nota prossegue falando de casos recentes tornados públicos que “evidenciam trágicas deficiências nas regras destinadas a punir os abusadores, bem como em garantir a correta gestão por parte de quem tem o dever de lidar com esses delitos.  estamos muito atrasados - reconhece-se - na correção das lacunas nos procedimentos, que deixam as vítimas feridas e no escuro, quer durante como após a decisão dos casos. Continuaremos a estudar cuidadosamente o que não funciona e a insistir para que sejam providenciadas as mudanças necessárias para que todos aqueles que foram afetados por estes crimes atrozes tenham acesso à verdade, à justiça e à reparação. Comprometemo-nos também - sublinha-se - em usar o nosso papel para solicitar aos outros representantes da Igreja que têm a responsabilidade de enfrentar estes crimes, para que cumpram eficazmente a sua missão, minimizem ao máximo o risco de novas transgressões e garantam um ambiente respeitoso para todos".

Apelo à conversão para líderes da Igreja

 

“A nossa Comissão – lê-se ainda no texto – foi criada logo após a eleição do Papa Francisco em 2013. Em harmonia com o Conselho dos Cardeais, ela supervisionou uma série de iniciativas que revelaram a realidade dos abusos sexuais e a necessidade de reformas firmes para enfrentar quer os abusos como a sua gestão inadequada por parte dos líderes da Igreja. Estamos agora na fase de alinhar e consolidar os nossos esforços com aqueles do Dicastério para a Doutrina da Fé e de todos os órgãos da Cúria Romana cujo trabalho incide na proteção em todo o mundo.

 

No entanto, cinco anos após a  Cúpula de 2019 sobre a Proteção dos Menores, que reuniu lideranças da Igreja de todo o mundo, permanecem profundas frustrações, especialmente entre aqueles que buscam justiça pelos erros sofridos: ninguém deveria ter de implorar por justiça na Igreja. A resistência inaceitável que persiste indica uma escandalosa falta de determinação por parte de muitos na Igreja, muitas vezes agravada por uma séria carência de recursos. O Papa Francisco advertiu-nos que as desigualdades no mundo não devem contagiar a Igreja.

Somente poderá haver uma mudança eficaz com a conversão pastoral dos líderes da Igreja. Enquanto o Colégio dos Cardeais se reúne em Consistório, somos encorajados pela frequente advertência do Santo Padre em relação àqueles que são chamados a este papel especial, papel cuja responsabilidade implica que o sangue a ser derramado seja o próprio e não o daqueles que se encontram sob seu cuidado. Como modelo de corajoso sacrifício-próprio, a criação de novos Cardeais é um momento oportuno para a reflexão, o arrependimento e a renovação do nosso compromisso inquebrantável de proteger e defender os mais vulneráveis, utilizando todos os meios possíveis.

Apelamos a todos os que estão unidos no Sagrado Colégio para que se recordem das vítimas e das suas famílias e incluam, como parte do seu Juramento de fidelidade, u compromisso de permanecerem firmes em honrar aqueles que foram afetadas por abusos sexuais, unindo-se a eles na busca comum pela verdade e da justiça. Todos os bispos e superiores religiosos deveriam fazer eco deste compromisso.

“Juntamente com todos aqueles que sofreram abusos e suas consequências, dizemos: ‘Basta’!””

Exortação cristã à mudança

 

Um momento importante para promover estes esforços “apresenta-se– afirma a nota – no próximo Sínodo sobre a Sinodalidade. A realidade dos abusos sexuais na nossa Igreja está no centro da agenda do Sínodo. Trata-se de quem somos como comunidade de fé, fundada em Jesus. Permeia discussões sobre modelos de liderança, papeis no ministério, padrões profissionais de comportamento e relacionamento correto uns com os outros e com toda a criação. Pedimos - lê-se no documento - que o abuso sexual na Igreja permeie vossas discussões quando falarem de ensino, ministério, treinamento e governança. Como comunidade de reconciliados, o culto sagrado da Igreja também deveria encontrar uma adequada inclusão e expressão deste fracasso tão íntimo da própria Igreja. Mesmo que às vezes possa parecer um conjunto desencorajador de questões a serem abordadas, pedimos a vocês para se unirem no enfrentar o desafio para que se possa enfrentar a ameaça que o abuso sexual representa à credibilidade da Igreja no anúncio do Evangelho”.

O comunicado conclui com uma série de exortações para dedicar, entre outras coisas, “tempo e espaço significativos para integrar o testemunho das vítimas/sobreviventes” nos trabalhos sinodais, bem como para trabalhar para que os ministérios da Igreja se tornem o mais rápido possível “locais de acolhida, empatia e reconciliação para aqueles que foram afetados por abusos”, para chegar ao “dia em que todas as crianças serão protegidas por políticas e procedimentos de segurança adequados, conhecidos e consolidados”.

“Exortamos-vos a trabalhar poe estes objetivos há muito esperados: não apenas durante um ou dois dias durante o vosso encontro, mas durante todo o processo sinodal. A sua realização – conclui o texto da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores – será um marca do sucesso do Sínodo, sinal de que caminhamos com os feridos e os esquecidos como discípulos do único Senhor, buscando um caminho melhor”.

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui

28 setembro 2023, 11:52