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2025.12.20 Udienza Giubilare

Deus nos fala como um amigo

"Aproximando-nos dos Documentos do Concílio Vaticano II e redescobrindo a sua profecia e atualidade, acolhemos a rica tradição da vida da Igreja e, ao mesmo tempo, interrogando-nos sobre o presente e renovemos a alegria de correr ao encontro do mundo, para lhe levar o Evangelho do reino de Deus, reino de amor, justiça e paz".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

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Nos documentos do Concílio Vaticano II, especialmente na Dei Verbum e na Gaudium et Spes, a relação entre Deus e o homem é apresentada não como distância ou mero temor, mas como um chamado à comunhão e à amizade: Deus, por amor, toma a iniciativa de revelar-se, dialogar e entrar na história humana, convidando cada pessoa a participar de sua própria vida. A revelação é descrita como encontro pessoal, no qual Deus fala “como a amigos” e o homem é chamado a responder livremente na fé, realizando-se plenamente nesse vínculo de confiança, amor e colaboração com o desígnio divino. Assim, a amizade com Deus é entendida como vocação universal, fundamento da dignidade humana e caminho de plenitude, vivida na história por meio de Jesus Cristo e na comunhão da Igreja.

Dando sequência a sua série de catequeses sobre Leão XIV e o Concílio Vaticano II, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "Deus nos fala como um amigo":

"Nas Audiências Gerais do Papa de cada quarta-feira, que acontece na Praça São Pedro ou na Sala Paulo VI, cada Sumo Pontífice propõe uma reflexão de um tema, uma catequese, um assunto concreto para todos os cristãos refletirem a partir do pensamento do grande pastor e guia dos fiéis. Por exemplo, Karol Józef Wojtyła – proclamado Papa São João Paulo II, propôs durante 4 anos a catequese** sobre a sexualidade humana e o amor conjugal, que rendeu à Igreja a conhecida Teologia do Corpo, amplamente estudada e refletida na Igreja. É uma das grandes riquezas teológicas deixadas por essa Papa Polonês.

Agora o Papa Leão propõe também sua identidade na temática das Audiências Gerais de quartas-feiras. O Papa faz um resgate do Concílio Vaticano II, grande riqueza e tesouro da Igreja, que segundo os Papas anteriores, é uma bússola, um norte, uma renovação para bem orientar os caminhos atuais da Igreja. Papa Leão fez questão, na primeira catequese deste ano, de recordar dom Albino Luciani, que depois se tornaria o futuro Papa João Paulo I, então bispo de Vittorio Veneto, que no início do Concílio escreveu profeticamente: «Existe, como sempre, a necessidade de realizar não tanto organismos ou métodos e estruturas, mas uma santidade mais profunda e vasta. [...] Pode ser que os frutos ótimos e abundantes de um Concílio se vejam após séculos e amadureçam superando com dificuldade contrastes e situações adversas»[1]. Assim, redescobrir o Concílio como afirmou o Papa Francisco, ajuda-nos a «devolver a primazia a Deus, a uma Igreja que seja louca de amor pelo seu Senhor e por todos os homens, por Ele amados»[2]

Também para nós é assim. Aproximando-nos dos Documentos do Concílio Vaticano II e redescobrindo a sua profecia e atualidade, acolhemos a rica tradição da vida da Igreja e, ao mesmo tempo, interrogando-nos sobre o presente e renovemos a alegria de correr ao encontro do mundo, para lhe levar o Evangelho do reino de Deus, reino de amor, justiça e paz.

O Papa Leão XIV, na Audiência Geral de 14 de janeiro, afirmou que a Constituição Dogmática Dei Verbum recorda um dos núcleos fundamentais da fé cristã: em Jesus Cristo, Deus transforma radicalmente a relação com a humanidade, estabelecendo não uma lógica de servidão, mas uma aliança de amizade e amor. O texto completo da Constituição Dogmática Dei Verbum, que o Papa Leão XIV considera “um dos mais belos e importantes documentos do Concílio”, centrada na Palavra de Deus, fonte e orientação para nosso viver, celebrar e orientar nossa existência e a vida de toda a Igreja.

Dando continuidade à série de catequeses sobre o Concílio Vaticano II, iniciada na semana anterior, o Pontífice começou a aprofundar o conteúdo da Dei Verbum, um dos documentos centrais do Concílio sobre a Revelação divina. Para introduzir o tema, Leão XIV recordou as palavras de Jesus no Evangelho de João: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamo-vos amigos” (Jo 15,15). Segundo o Papa, esse versículo expressa com clareza a novidade cristã que o Concílio reafirma: “Jesus Cristo transforma radicalmente a relação do ser humano com Deus; a partir de agora, será uma relação de amizade. Por isso, a única condição da nova aliança é o amor”.

Ao citar Santo Agostinho, o Papa explicou que essa amizade não nasce da igualdade entre Deus e o homem, mas da graça. “Não somos iguais a Deus, mas o próprio Deus nos torna semelhantes a Ele no seu Filho”, afirmou, lembrando que, embora a Aliança seja assimétrica — Deus é Criador e nós somos criaturas —, em Cristo ela se abre ao seu cumprimento pleno: a filiação divina. Leão XIV destaca que a Dei Verbum afirma explicitamente que Deus “fala aos homens como amigos” e convive com eles para convidá-los à comunhão. Essa revelação, explicou o Pontífice, não se reduz a uma simples troca de informações, mas é uma palavra que revela quem Deus é e cria relação. “Ao falar conosco, Deus revela-se como um Aliado que nos convida à amizade com Ele”, disse o Papa, nessa segunda audiência de 2026. O texto do Concílio, na Dei Verbum, diz assim: “Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele”. Os padres conciliares recordam dois textos bíblicos aqui no número 2 da Constituição Dogmática sobre a Palavra de Deus: o primeiro de Moisés que Deus falava com ele, na Tenda da Reunião, como um amigo e o segundo de Jesus Cristo que diz aos apóstolos que não nos chama mais de servos, mas de amigos. O texto do Êxodo diz assim: “E falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo; depois tornava-se ao arraial; mas o seu servidor, o jovem Josué, filho de Num, nunca se apartava do meio da tenda” (Ex 33,11). Da mesma forma, no texto do Novo Testamento, Jesus diz assim aos seus discípulos: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15,14-15). Nesses dois textos bíblicos, citados pela Dei Verbum, vemos essa proximidade de Deus que fala so homem como a um amigo, tema destacado pelo Papa Leão em suas audiências".

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*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

[1] A. Luciani – Giovanni Paolo I, Note sul Concilio, em Opera omnia, vol. II, Vittorio Veneto 1959-1962. Discorsi, scritti, articoli, Padova 1988, 451-453.
[2] Homilia no 60º aniversário do início do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 2022.

**O Papa São João Paulo II proferiu 129 catequeses entre 1979 e 1984 durante as suas audiências gerais de quarta-feira, consolidando o ensinamento conhecido como Teologia do Corpo. Esta abordagem revolucionária abordou a sexualidade humana, o corpo e o amor conjugal, definindo o corpo como uma revelação do plano de Deus e o dom de si. 

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16 fevereiro 2026, 08:52