A participação de Karol Wojtyła na elaboração da Gaudium et Spes
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
Karol Wojtyla, que em 16 de outubro de 1978 seria eleito o 264º Sucessor de Pedro, participou ativamente do Concílio Vaticano II (1962-1965), inicialmente como bispo auxiliar e depois como arcebispo de Cracóvia. Sua atuação destacou-se na elaboração da Constituição Pastoral Gaudium et spes, defendendo o diálogo com o mundo moderno e a liberdade religiosa, além de contribuições na Constituição Dogmática Lumen gentium sobre a Igreja. Ele participou de todas as assembléias, consolidando sua visão sobre a Igreja como uma comunidade baseada na comunhão e no diálogo.
Principais pontos da participação de Karol Wojtyla:
- Colaboração Teológica: Teve um papel significativo na formulação da Gaudium et Spes, que aborda a relação da Igreja com o mundo contemporâneo, focando na dignidade humana e na cultura.
- Foco na Liberdade Religiosa: Defendeu vigorosamente a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, temas centrais no Concílio.
- Intervenções Pastorais: Wojtyla destacou-se por sugerir que a Igreja deveria apresentar o "sagrado" de modo adequado aos homens de hoje, especialmente em contextos de trabalho e cultura.
Dando sequência a sua série de reflexões sobre os documentos conciliares, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "A participação de Karol Wojtyła na elaboração da Gaudium et Spes":
"O Papa Leão XIV, nas audiências de quartas-feiras, retoma os importantes textos do Concilio Vaticano II, o que aqui também o fazemos. O Sumo Pontífice apontou assim de 07 de janeiro: “Iniciamos um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura dos seus Documentos. Esta é uma preciosa oportunidade para redescobrir a beleza e a importância deste evento eclesial”. Por isso, torna-se ainda mais necessário redescobrir o Concílio de maneira autêntica, não a partir de “boatos” ou leituras parciais, diz o Papa, mas por meio da releitura atenta dos seus Documentos.
Segundo Leão XIV, é precisamente nesses textos que se encontra um Magistério vivo, capaz de orientar ainda hoje o caminho da Igreja. Citando Bento XVI, o Papa recordou que os Documentos conciliares não perderam a sua atualidade; ao contrário, “os seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes” diante das novas situações da Igreja e da sociedade globalizada. O Concílio Vaticano II, explicou o Santo Padre, redescobriu o rosto de Deus como Pai que, em Cristo, chama todos a serem seus filhos; contemplou a Igreja à luz de Cristo, como mistério de comunhão e sacramento de unidade; e promoveu uma profunda reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus. Ao mesmo tempo, ajudou a Igreja a abrir-se ao mundo contemporâneo, dialogando com os seus desafios e mudanças.
Nesse ano de 2026 estamos aprofundando, em nosso espaço “Memória Histórica Vaticano II”, entre outros assuntos correlacionados, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que trata sobre a “Missão da Igreja no mundo”. Diz assim a CS no número 02: “Por isso, o Concílio Vaticano II, tendo investigado mais profundamente o mistério da Igreja, não hesita agora em dirigir a sua palavra, não já apenas aos filhos da Igreja e a quantos invocam o nome de Cristo, mas a todos os homens. Deseja expor-lhes o seu modo de conceber a presença e actividade da Igreja no mundo de hoje. Tem, portanto, diante dos olhos o mundo dos homens, ou seja a inteira família humana, com todas as realidades no meio das quais vive; esse mundo que é teatro da história da humanidade, marcado pelo seu engenho, pelas suas derrotas e vitórias; mundo, que os cristãos acreditam ser criado e conservado pelo amor do Criador; caído, sem dúvida, sob a escravidão do pecado, mas libertado pela cruz e ressurreição de Cristo, vencedor do poder do maligno; mundo, finalmente, destinado, segundo o desígnio de Deus, a ser transformado e alcançar a própria realização”.
Antes de prosseguir nosso aprofundamento queremos apontar algo significativo do Papa João Paulo II, que retomou amplamente esse documento conciliar em seu Pontificado. A participação de Karol Wojtyła, de quem se tornaria o futuro Papa João Paulo II, no Concilio Vaticano II, foi de muita importância. O cardeal de Cracóvia participou efetivamente na elaboração da Constituição Pastoral Gaudium et Spes (A Igreja no Mundo Moderno). Sua presença foi fundamental e é considerada uma das suas maiores contribuições ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Na época, como arcebispo de Cracóvia, ele não foi apenas um observador, mas um dos arquitetos intelectuais do documento. Wojtyła foi Membro da Subcomissão Redatora e participou ativamente da equipe encarregada de redigir o chamado "Esquema XIII", que viria a ser a Gaudium et Spes. Ele trabalhou em colaboração direta com teólogos renomados da época, como Henri de Lubac e Yves Congar. Sua experiência na Polônia sob o domínio comunista trouxe uma perspectiva prática e urgente sobre como a Igreja deveria dialogar com um mundo marcado pelo ateísmo e pela opressão.
Há na Gaudium et Spes um foco na Antropologia Cristã, que é a principal marca de Karol Wojtyła no texto, com ênfase na pessoa humana. Ele argumentava que a Igreja não deveria apenas falar de si mesma, mas explicar o mistério do homem à luz de Cristo. Na GS 22 lemos que um dos parágrafos mais famosos e citados por ele durante seu pontificado. Ele afirma que "Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem". Na GS 24, vemos outro trecho com forte influência sua, que diz que o homem só se encontra plenamente através do "dom sincero de si mesmo". Devido ao contexto polonês, Wojtyła contribuiu significativamente para a seção que trata do ateísmo. Ele insistia que a Igreja precisava entender as causas do ateísmo moderno para poder responder de forma eficaz, defendendo que a dignidade humana é ferida quando se exclui Deus da esfera pública. Em setembro de 1965, Wojtyła proferiu um discurso marcante no Concílio, sugerindo que a nova constituição pastoral deveria ser encarada "mais como uma meditação" do que como uma simples declaração doutrinária. Ele desejava um texto que falasse ao coração das questões existenciais da humanidade.
Como Papa Bento XVI, em 10 de outubro de 2012, na tradicional Audiência Geral das quartas-feiras, afirmou que os documentos do Concílio Vaticano II são "uma bússola que permitem que a nave da Igreja navegue em mar aberto, em meio a tempestades ou na calma com a certeza de chegar à meta". E ainda recordou que ele também participou como perito no Concílio, quando era professor de teologia fundamental da universidade de Bonn (Alemanha). Ali, recordou assim: "pude ver uma Igreja viva – quase três mil Padres conciliares de todas as partes do mundo reunidos sob a orientação do Sucessor do Apóstolo Pedro – que se coloca na escola do Espírito Santo, o verdadeiro motor do Concílio". Recordou que a intenção da assembleia conciliar iniciada a 11 de outubro de 1962 era, para o Papa, “delinear de um modo novo a relação da Igreja com a idade moderna”[1].
Bento repetia a mesma expressão utiliza já por João Paulo II ao término do Grande Jubileu do ano 2000, quando disse assim a respeito do concilio: "À medida que passam os anos, aqueles textos não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da tradição da Igreja. Concluído o Jubileu, sinto ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que se beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa" (Novo millennio ineunte, 57)."
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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[1] http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/vaticano-ii-concilio-e-bussola-da-igreja/
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