Do poeta à sua poesia: o cardeal De Mendonça e as palavras desarmadas que levam à paz
Andressa Collet - Vatican News
"A poesia não cabe no nosso quintal." Uma afirmação de propriedade vinda do cardeal poeta, José Tolentino De Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, em pleno Dia Mundial da Poesia, instituído pela Unesco para celebrar e promover a diversidade das línguas e o intercâmbio entre as culturas. A poesia, continua o purpurado português em entrevista ao Vatican News para este 21 de março, "é uma palavra que não desiste de ninguém e que espera por todos", educando "a uma visão universal e a uma valorização da harmonia":
"A poesia é uma arte da esperança porque nos ajuda a perceber que temos necessidade de todas as palavras, de todos os vocabulários, de todas as línguas, para nos podermos avizinhar da poesia do mundo, que é aquela poesia invisível que desde sempre acompanha o homem na sua aventura sobre a terra."
A poesia está do lado da paz
Uma poesia, então, "não tem fronteiras", explica ainda De Mendonça que é poeta, teólogo e intelectual, além de já ter sido professor em universidades católicas no Brasil. Ela não vive "sem o interesse pelo diferente" e é caracterizada por ser "a hospitalidade do diverso", ajudando, assim, a construir uma "experiência negociada do mundo":
E inclusive em tempos de novas tecnologias, salienta o cardeal que concilia a sua alta função no Vaticano com uma aclamada produção literária, inclusive digna de reconhecimento de prestígio, como o Grande Prêmio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE e o Prêmio Pessoa (2023). De Mendonça defende que a poesia e a arte são essenciais para o diálogo com o mundo contemporâneo: o algoritmo, segundo ele, vive do passado, enquanto "a poesia é uma escuta daquilo que vem":
"O algoritmo tem um um pacto com o passado. O poema tem um pacto com o futuro porque trabalha continuamente a possibilidade. Dizer ao ser humano 'é possível, é possível, é possível', nesse sentido, a poesia tem uma aliança com a esperança, tem uma aliança com a elaboração da paz. A poesia vai além da declaração fatalista de que é impossível. O algoritmo é um mapa dos passos percorridos. O poema é um mapa dos caminhos a percorrer."
A poesia educa o sentido, o olhar e o ouvido
José Tolentino De Mendonça então explorou na entrevista a importância de recursos da educação como a poesia serem fundamentais para descontruirem a "fatalidade visível" para ir além:
"Penso em poetas como Rilke, penso em poetas como Fernando Pessoa, que nos ajudaram a olhar do limiar, a escutar aquilo que nas palavras à primeira vista não está presente, mas que depois se torna decisivo que é a experiência do mistério. Por isso, o Papa Francisco dizia muito bem quando recomendava que a literatura e a poesia poderiam servir muito na formação sacerdotal, porque educam os sentidos, educam o olhar, educam o ouvido para uma hospitalidade mais profunda do mundo e para uma cartografia do ser humano, do mistério do ser humano. A poesia sabe o que é o coração do homem."
O cardeal, então, citou São John Henry Newman, proclamado Doutor da Igreja em novembro de 2025. Ele acreditava muito no papel da educação e, "sem dúvida, a poesia, a literatura e a filosofia serviam a ele para transmitir as ferramentas necessárias que cada ser humano precisa para realizar a sua vocação". De Mendonça finalizou a entrevista enaltecendo a importância da poesia na vida das pessoas, como o próprio Newman utilizou "em diversos momentos para tornar mais eficaz" e para "chegar mais profundamente na sua ambição de ajudar a pessoa humana a humanizar-se completamente":
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