Clamor dos povos indígenas contra quem especula e explora as suas terras
Antonella Palermo - Cidade do Vaticano
Yolanda Flores, líder do povo Aimará no Peru, comovida, determinada e sincera, perguntou: "Como podemos nos cuidar se vocês continuam a poluir nossas montanhas? Eu também gostaria de saber se há metais pesados dentro de mim, se o que damos de comer aos nossos filhos é tóxico. Queremos investigar, pois estes problemas não são só meus. Façam também vocês esta mesma pergunta". Nós também ficamos profundamente interpelados diante do tema abordado na manhã desta sexta-feira, 20 de março, durante o lançamento da Plataforma para o Desinvestimento na Indústria Mineira — promovida pela “Rede Igrejas e Mineração” —, uma vez que é justamente uma ativista, que luta pelos direitos dos povos indígenas, que toca as nossas consciências.
Yolanda Flores, líder do povo Aimará: “Ouçam-nos!”
Proveniente de territórios de grande interesse pela extração de minerais críticos, Yolanda apresentou seu comovente testemunho dizendo: “Diante das repetidas violações dos direitos humanos, especialmente na América Latina, perpetradas por multinacionais, que não tutelam os que ali vivem, sua comunidade dedicou um tempo à reflexão, tentando ir à raiz do problema e esclarecendo quem financia a exploração daqueles territórios”. Mas, isso é algo que seu povo não pode fazer sozinho. Por isso, pede ajuda: "Estamos aqui para ver se alguém pode nos ajudar a chegar ao fundo da questão. Sentimos que neste espaço podemos dar visibilidade aos nossos problemas, que, às vezes, parecem insolúveis. Precisamos de profissionais, para que nossos filhos possam chegar a estudar na universidade; precisamos de pastores que caminhem conosco, para que o mundo entenda ‘quem somos e por que reivindicamos nossas terras’. Quando, realmente, colocaremos em prática o que Jesus nos diz no Evangelho?"
Cardeal Baggio: “Não podemos ficar calados diante das injustiças”
Por sua vez, o Cardeal Fabio Baggio, Subsecretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, disse na abertura do lançamento da Plataforma: "Sabemos que os minerais são necessários para muitos aspectos da vida contemporânea. No entanto, sabemos também que, com muita frequência, sua extração ocorre sem consultar as comunidades locais, sem respeitar os direitos dos povos indígenas e sem levar em conta os limites dos ecossistemas, que sustentam a vida". E acrescentou: “A Plataforma para o Desinvestimento na Indústria Mineira pretende ser um sinal concreto de uma conversão necessária, que não seja, simplesmente, uma decisão técnica ou financeira. Trata-se de um ato de coerência com a nossa fé, com a defesa da dignidade humana e com o compromisso de cuidar da nossa Casa Comum. É importante ouvir as vozes das comunidades, que vivem, em primeira mão, os desafios e conflitos causados pela mineração, tanto legal quanto ilegal. Não podemos ficar calados diante de evidentes injustiças".
Comunidades locais: pobres, iludidas, exploradas
O Cardeal Álvaro Ramazzini, bispo de Huehuetenango, Guatemala, conhecido por sua defesa dos direitos humanos, dos povos indígenas, dos migrantes e da justiça social, retomou o conceito de "ecologia integral", desenvolvido pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si', como também a premissa fundamental da interdependência existencial, que deve levar a uma opção preferencial pelos mais pobres, "não apenas no sentido literal da palavra". Depois, falou sobre um acontecimento, que chocou a diocese de São Marcos, que ele governou anteriormente: “Ali, uma mineradora canadense, a Gold Corp, obteve, com o consentimento do governo da época, para não mencionar sua cumplicidade, a licença para explorar uma área indígena do grupo étnico ‘Mam’: pessoas pobres, esquecidas pelas instituições, que não tinham acesso aos serviços de saúde e educação de qualidade e enfrentavam dificuldades de acesso. Ao comprar a terra, a um preço irrisório, a empresa enganou os moradores locais ao fazer uma atividade formalmente legal, mas sem os devidos critérios de justiça distributiva para as populações”.
“Não podemos nos intimidar pela tentação do dinheiro”
Dom Vicente Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, sudoeste da Bahia, e assessor da “Rede Igrejas e Mineração”, interveio sobre o que considera de falsas soluções do chamado "capitalismo verde" e os rápidos cenários de guerra, que "levam a aumentar, ainda mais, as preocupações entre os povos latino-americanos e caribenhos; tais territórios estão na mira do neocolonialismo militar, sedento por 'terras raras', como recurso para manter o status quo dos mais poderosos". E enfatizou: "Sonhamos com um novo mundo a partir das bases: comunidades quilombolas, povos indígenas, pescadores, agroecologia e de todos os que protegem as nossas florestas e rios; a partir de tais bases, formamos uma caravana em defesa de toda a criação". A “Rede Igrejas e Mineração” é composta por defensores dos direitos humanos e da natureza, muitos dos quais foram perseguidos ou até mortos por seu testemunho. E o bispo — como já havia antecipado à mídia do Vaticano — alertou: "Não podemos nos deixar intimidar pela tentação do dinheiro".
Dom Vicente Ferreira: “É necessário um novo paradigma para o Desinvestimento na Indústria Mineira”
À mídia do Vaticano, o bispo brasileiro de Livramento de Nossa Senhora (BA) delineou os objetivos e valores da Plataforma, promovida pela “Rede Igrejas e Mineração”, da qual é conselheiro: “Não podemos nos comprometer com...”.
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O Departamento de Missão e Assuntos Sociais da Conferência Episcopal Austríaca, liderado pela Irmã Anneliese Herzig, missionária do Santíssimo Redentor, preocupa-se, sobretudo, com a tutela das crianças em contextos afetados pelas consequências nocivas da exploração minerária. A religiosa recordou o estudo aprofundado sobre a extração de ouro, datado de 2018, que exige a proteção das pessoas, em nome da justiça e do bem comum: “Precisamos de uma profunda mudança de mentalidade”. Outra religiosa, Irmã Maamalifar M. Poreku, missionária de Nossa Senhora da África, natural de Gana, recordou: “A ecologia integral requer não apenas compaixão, mas também transformação sistêmica. O caminho é alinhar fé e escolhas econômicas", utilizando palavras claras ao se referir aos "territórios martirizados," sacrificados em nome do lucro. E concluiu: "A crise ecológica exige mais do que simples ajustes graduais; exige uma liderança profética".
Padre Bossi: “Desinvestimento, uma estratégia ética eficaz contra violações dos direitos”
O sacerdote Dario Bossi, Comboniano ítalo-brasileiro, coordenador da “Rede Igrejas e Mineração”, e ex-conselheiro da Conferência Episcopal do Brasil, com vasta experiência em áreas afetadas pela mineração, foi incumbido de esclarecer que a Plataforma, apresentada no Vaticano, é um espaço para troca de informações, estudo de aspectos da mineração e dos processos financeiros e incentivo à colaboração. Ele fez um exemplo: “Entre 2018 e 2022, precisamente durante os anos em que ocorreram graves crimes socioambientais, por parte de grandes mineradoras com atividades no Brasil, como Vale, em Mariana, e Brumadinho, que receberam mais de US$ 54 bilhões de financiamento internacional de bancos e fundos de investimento de diversos países”. Referindo-se, em conclusão, a diversos documentos, entre os quais o Mensuram Bonam, da Pontifícia Academia de Ciências Sociais (2022), o sacerdote explicou: "Diante de tal realidade, muitas organizações sociais e eclesiais começaram a considerar o desinvestimento como uma estratégia ética e eficaz para lidar com as violações". O referido texto Mensuram Bonam oferece critérios para orientar os investimentos financeiros das instituições católicas de acordo com a Doutrina Social da Igreja; o texto reafirma que o dinheiro deve ser colocado a serviço do bem comum e da dignidade humana, a fim de promover uma economia mais justa, inclusiva e sustentável.
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