Bienal de Veneza: inaugurado o pavilhão da Santa Sé
Alvise Sperandio - Veneza
Após o Jardim Místico dos Carmelitas Descalços, na sexta-feira, 8 de maio, foi inaugurada em Veneza a segunda sede do Pavilhão da Santa Sé na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal. No Complexo de Santa Maria Auxiliadora, no bairro de Castello tomou forma um 'scriptorium contemporâneo', entre instalações, arquivos vivos e obras dedicadas ao legado espiritual e cultural de Santa Hildegarda de Bingen, monja beneditina, mística, teóloga e compositora musical. Nela se inspira o projeto 'O ouvido é o olho da alma': tema formulado por Alexander Kluge, falecido recentemente em 25 de março. Na ocasião teve os discursos do cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação;d o patriarca de Veneza, Dom Francesco Moraglia; do presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco; e do prefeito Luigi Brugnaro. Surpreendentemente, a cerimônia contou com a presença da cantora Patti Smith que, à tarde, na Igreja dos Scalzi, foi protagonista de Sonic Prayer — uma performance idealizada com o Soundwalk Collective, descrita como uma oração em música.
Cardeal José Tolentino de Mendonça: “Santa Hildegarda, uma voz muito contemporânea”
Contemplação, silêncio e a redescoberta da escuta são o fio condutor que une as duas sedes do Pavilhão da Santa Sé. Uma resposta à sociedade frenética e barulhenta de hoje. O Cardeal Tolentino de Mendonça recordou as palavras do Papa Leão, eleito há um ano: “Voltar a servir o ritmo da vida, a harmonia da criação e curar as suas feridas”. Palavras que serviram de bússola para o projeto do pavilhão da Santa Sé e que escolheu como protagonista uma figura como Hildegarda; que poderia parecer distante, por ser uma mística do século XII, mas que, na realidade, possui uma voz muito contemporânea, capaz de iluminar as interrogações e os caminhos do presente.
Profetas culturais
Segundo o cardeal, “o nosso tempo precisa de novos mestres, e o perfil polifônico de Hildegarda pode nos ajudar como um antídoto à exasperação das monodias, inspirando-nos na gestação de novas visões”. “O nosso tempo — prosseguiu — precisa de profetas culturais, capazes de expressar o que Hildegarda chamava de língua ignota, ou seja, uma força imaginativa capaz de ativar paradigmas culturais que ousam projetar o olhar para a frente e dar início a práticas inovadoras em direção à fraternidade humana, à espiritualidade e à benevolência mútua”. Tolentino de Mendonça recordou que, ao proclamá-la Doutora da Igreja em 10 de maio de 2012, o Papa Bento XVI ressaltou a contribuição de Santa Hildegarda para a civilização, em particular quando afirmou que “toda a criação é um ato de amor e que toda a escala das criaturas é atravessada pela caridade divina como a corrente de um rio. Sem o impulso correto do amor, o mundo está destinado a secar; com o impulso do amor, ao contrário, o mundo ativa novas energias, criatividade e reconstrução”.
Dom Moraglia: “a escuta, espaço privilegiado do encontro com Deus”
O patriarca de Veneza, Francesco Moraglia, explicou que “Hildegarda ilumina bem o percurso desta exposição porque a escuta sempre esteve no centro de suas reflexões teológicas e de suas visões místicas. Na Regra Beneditina, na qual Hildegarda se inspirou profundamente, a vida monástica começa com o imperativo: ‘Escuta, ó filho, os ensinamentos do mestre’. A escuta — sublinhou o patriarca — torna-se, assim, o espaço privilegiado do encontro com Deus, que se comunica não no estrondo, mas na sutil voz do silêncio”. Uma escuta que se torna pressuposto e condição para favorecer o encontro com todas as outras criaturas e com a Criação, obra de Deus. “Na visão de Hildegarda de Bingen, escuta, som e silêncio — prosseguiu o prelado — são dimensões teológicas que se entrelaçam e revelam o vínculo profundo entre o ser humano, a natureza e Deus. Em um mundo sobrecarregado de ruídos, não raro inúteis e também irritantes, a mensagem de Hildegarda ressoa mais atual do que nunca: só quem sabe escutar pode realmente compreender, e só do silêncio nasce a verdadeira harmonia, o melhor som, a sinfonia mais bela”.
O presidente Buttafuoco e o prefeito Brugnaro: “Esperamos o Papa em Veneza”
O presidente da Bienal, Pierangelo Buttafuoco, ressaltou que “a Santa Sé, com o seu pavilhão, nos permite aquela liberdade de espírito e mental e aquela capacidade de liberdade que para outros é negada ou impossível de se alcançar”. Buttafuoco recordou a experiência do pavilhão da Santa Sé dentro do presídio feminino de Giudecca, destacando que o pavilhão atual se encontra em “um dos lugares de maior cuidado de uma cidade tão especial quanto Veneza”. Buttafuoco acrescentou que “hoje, a palavra proibida com frequência excessiva é 'paz'” e a trienal se oferece como uma mensagem adicional de paz para o encontro de povos em guerra. Por fim, houve o convite ao Papa Leão para visitar Veneza. O prefeito Luigi Brugnaro, também manifestando o desejo de uma visita do Pontífice a Veneza, recordou que a concessão do pavilhão nasce da ideia de que este seja um 'lugar de encontro, escuta e respeito, valores que estão na base da paz'. Ele prometeu, então, entregar à Santa Sé uma das duas 'Tese' no Arsenale, para que o pavilhão possa se estabelecer em um local tão importante para Veneza, consolidando-se como um polo de cultura para a cidade. Durante a cerimônia, os curadores também fizeram uso da palavra e, ao final, houve a saudação de Patti Smith que, naquele local antigo — ainda sob um importante processo de restauração —, entoou algumas notas de agradecimento, sob os aplausos do numeroso público que compareceu à inauguração."
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