O maior comunicador do mundo
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
“Preservar vozes e rostos” foi o tema escolhido pelo Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações. E sua mensagem, vai de encontro ao seu predecessor, o Papa Francisco, que via Jesus como o maior comunicador da história, pois o que queria transmitir não dependia apenas de discursos, mas de atitudes, proximidade e empatia. Seguindo este modelo, ele defendia que a comunicação cristã autêntica deve ser simples, acolhedora e focada em tocar o coração das pessoas, sem floreios. E neste sentido, para Francisco, a parábola do Bom Samaritano era o modelo ideal para a comunicação, ou seja, sair de si mesmo para ir ao encontro do outro, estar próximo.
Depois de "A comunicação daquele Galileu", Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "O maior comunicador do mundo":
"Os Evangelhos comprovam que Jesus era um grande comunicador, pois “jamais um homem falou como Ele...” (Jo 7,46). Seus conterrâneos admitiam: “O povo todo ficava fascinado ao ouvi-lo falar” (Lc 19,48). Ao pregar a mensagem do Pai, despertava a admiração do povo, pois, “ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1,22). Ensinou na sinagoga de Cafarnaum (cf. Jo 6,59), no templo (cf. Jo 7,15), perto do lago (cf. Jo 6,25) e em qualquer lugar. Fala para as multidões, para os doentes, para os grupos, para os apóstolos à parte ou para pessoas isoladas, como foi o caso de Nicodemos, à noite (cf. Jo 3,2). Cristo é o comunicador perfeito do Pai. É o comunicador por excelência. É a perfeição da comunicação de Deus. É o rosto visível do Deus invisível que veio mergulhar na história dos homens.
Jesus é a Palavra de Deus que se fez carne e veio morar no meio de nós (Jo 1,14). Supremo comunicador do Pai, optou por um processo inculturado e dialógico de comunicação, que se apresenta como um modelo básico para os projetos de comunicação de sua Igreja (CNBB, 1997, p. 7). Na evangelização, Jesus não tem medo, nem vergonha de expressar os seus sentimentos diante dos amigos e mesmo diante dos que o observam: “Jesus viu que Maria e os judeus que iam com ela estavam chorando. Então ele se conteve e ficou comovido (...) Jesus começou a chorar” (Jo 11,33-35). Permitiu aos discípulos que fossem ver onde morava, deixando-se desvelar na sua intimidade (cf. Jo 1,38-39). Ele percebe quando é ouvido com o coração, sem julgamentos e sem preconceito. O objetivo de Jesus foi de comunicar o Pai: “A Deus ninguém viu” (Jo 1,18). A Palavra se tornou corpo, no corpo de uma mulher, Maria. E o corpo é ponte, sinal sensível do Deus invisível, para que o Pai seja conhecido. Pelo corpo, a Palavra pode ser ouvida, vista, tocada, apalpada com as próprias mãos (cf. 1 Jo 1,1). “Nele a palavra de Deus se fez não só ‘ouvir’, mas também ‘ver’ e ‘tocar’. Jesus é a definitiva Teofania do Pai”[1]. Condenou qualquer hipocrisia e qualquer tipo de comunicação que fosse tendenciosa e perversa: “Dizei sim quando for sim e não quando for não” (Mt 5,37).
À luz da realidade de Jesus, agora podemos voltar à Igreja: quando olhamos de perto para ela, descobrimos uma dimensão humana feita de pessoas concretas, que às vezes manifestam a beleza do Evangelho, e outras esforçam-se e erram como todos. No entanto, precisamente através dos seus membros e dos seus limitados aspetos terrenos, manifestam-se a presença de Cristo e a sua ação salvífica. Como dizia Bento XVI, não há oposição entre Evangelho e instituição; aliás, as estruturas da Igreja servem precisamente para «a realização e a concretização do Evangelho no nosso tempo» (Discurso aos bispos da Suíça, 9 de novembro de 2006). Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história.
É nisto que consiste a santidade da Igreja: na constatação de que Cristo habita nela e continua a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros. Contemplando este milagre perene que acontece nela, compreendemos o “método de Deus”: Ele torna-se visível através da debilidade das criaturas, continuando a manifestar-se e a agir. Por isso na Evangelii gaudium, o Papa Francisco exorta que todos aprendam «a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5)» (n. 169). Isto torna-nos ainda hoje capazes de edificar a Igreja: não só organizando as suas formas visíveis, mas construindo aquele edifício espiritual que é o corpo de Cristo, através da comunhão e da caridade entre nós.
Com efeito, a caridade gera constantemente a presença do Ressuscitado. «Queira o céu — afirmava Santo Agostinho, do qual o Papa Leão é seguidor - que todos prestem atenção unicamente à caridade: sim, só ela vence tudo, e sem ela, todas as coisas não valem nada; onde quer que ela esteja, atrai tudo a si» (Serm. 354, 6, 6)".
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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[1] MANNUCCI, 1986, p.33.
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