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Conceição Lima - A Poética Transcendente da Afro-insularidade

A conhecida escritora e jornalista santomense, Conceição Lima, ia ser protagonista na homenagem, em júlio, à Alda Espírito Santo. Agora, poderá ser também homenageada pelo importante legado literário e intelectual que deixa, após a sua inesperada morte a 15-5-26. A notícia chocou o mundo. Inocência Mata, docente universitária, e o poeta e jurista, Jorge C. Fonseca, dão testemunho disso nas suas análises sobre a sua postura e a sua obra. A crónica do editor, Filinto Elísio, completa o quadro.

Dulce Araújo - Vatican News

Todas as atenções, especialmente na África de expressão oficial portuguesa, mas não só, estavam viradas para a homenagem, prevista para inícios de julho deste ano, em São Tomé e Príncipe (STP), à figura histórica do país, Alda Espírito Santo, no âmbito duma Conferência internacional para marcar o Centenário de Nascimento daquela que foi também poeta e "Matriarca da Nação".

Conceição Lima fazia parte da Comissão organizadora e tinha a seu cargo a parte cultural. Agora ela vai ser certamente também homenageada. Disto está convicta a sua conterrânea, amiga e apreciadora da sua obra literária, Inocência Mata, estudiosa de Literaturas africanas e docente na Universidade de Lisboa.

Incredulidade

Interpelada para falar de Conceição Lima, no programa "África em Clave em Clave Cultural: personagens e eventos", a professora Inocência Mata manifestou a sua incredulidade perante a morte repentina e prematura da Conceição, que definiu como "uma das vozes mais lúcidas, mais éticas, mais pan-africanista e mais poeticamente densas do espaço literário."  Ela soube transformar os contos tradicionais em narrativa de autor e elevar a experiência do arquipélago santomense ao nível de uma reflexão universal sobre a cultura - disse. 

Entre a esperança e o desencanto

A sua escrita, refere ainda a académica santomense, situa-se entre a esperança e o desencanto pelo percurso do país entre o pré e o pós-independência. E para este país que já estava no mapa da literatura, graças a escritores como José Tenreiro, mas também à poeta, Alda Espírito Santo, e outros,  a catedrática da Universidade de Lisboa, embora louvando os escritos de Conceição Lima, não concorda com quem considere que com a autora de "O Útero da Casa" se fecha um ciclo no percurso da literatura santomense. "Uma pessoa só não faz um ciclo" - afirma, acrescentando que "havia outros" nessa geração da transição do colonial para o pós-colonial a que Conceição pertenceu, e há escritores mais novos que, devagar, devagar, estão a surgir.

O Mundo visto do meio

Instada a indicar alguma obra da Conceição que mais reflete a complexidade da sua escrita e a sua convicção de que, não obstante os desvios em relação aos objetivos da independência, STP era e é um país viável, Inocência Mata respondeu: "Todas, porque ela construiu uma geografia afetiva e histórica de São Tomé e Príncipe muito particular (...)”. 

Mesmo assim, esta docente universitária indica alguns títulos, a começar por "O Mundo visto do meio", livro de crónicas sobre STP e sobre o mundo; ou ainda "O Útero da Casa"; "O País de Akendengué"; "Quando Florirem Salambás no Teto do Pico" ; ou "Quando os Cães Deixaram de Falar", cada uma pondo a tónica num aspeto, mas todas "atravessadas por uma ética da vigilância crítica", fazendo uma "arqueologia do poder, mas também da cultura."

Uma vergonha

A professora Inocência Mata não deixa de recordar as perseguições políticas de que Conceição Lima foi outrora vítima e quão desgastante foi para ela, mais recentemente, o facto de não se ter dado o ponta-pé-de-saída no dia 30 de abril de 2026 às comemorações do Centenário de Nascimento de Alda Espírito Santo, que foi a primeira Presidente do Parlamento de STP e a primeira mulher a desempenhar este cargo em África. "É uma cena vergonhosa", ligada à "qualidade de políticos que aquele país tem" - disse Inocência Mata. 

Oiça a entrevista com a professora Inocência Mata
A professora Inocência Mata, à direita, no Festival de Literatura Mundo, Sal, Cabo Verde,  junho de 2025
A professora Inocência Mata, à direita, no Festival de Literatura Mundo, Sal, Cabo Verde, junho de 2025
Jorge Carlos Fonseca, em 2020, quando era ainda Presidente da República de Cabo Verde
Jorge Carlos Fonseca, em 2020, quando era ainda Presidente da República de Cabo Verde

Também o jurista, poeta, escritor e antigo Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, ficou desapontado com a morte de Conceição Lima.

Tinha tido a ocasião de a conhecer pessoalmente quando, em 2017, ela apresentou, brilhantemente, em STP, um dos seus livros e, só por coincidências um pouco adversas não chegou a apresentar outros dois. Mas debatiam muito por correspondência assuntos literários e políticos e ele tinha grande admiração pelos escritos dela, pela suavidade com que dissentia quando não estava de acordo com alguma ideia, e pelo “rigor com que lidava com a matéria literária”, o que estava em contraste - afirma o escritor cabo-verdiano - com a sua débil saúde.

Jorge Carlos Fonseca considera ainda que Conceição Lima era talvez muito exigente consigo própria, o que a levava a ser sempre um pouco receosa em aceitar convites para atividades intelectuais, embora fosse, claramente, muito competente.

Tal como a professora Inocência Mata, também o autor de "Porcos em Delírio" - obra poética traduzida para o inglês com a mediação de Conceição Lima - acredita que essa poetisa santomense terá deixado muitos escritos por publicar.  Uma vez chegou mesmo a dizer-lhe que ela podia ser candidata ao Prémio Camões, tendo ela, naturalmente, fugido logo à ideia.

Enfim, ao longo do tempo, mesmo tendo-se encontrado pessoalmente uma única vez, os dois poetas foram “tecendo cumplicidade e amizade” e Jorge Carlos Fonseca está convicto de que Conceição Lima vai "ser lembrada pela qualidade da sua escrita".

Oiça a entrevista com o escritor, Jorge Carlos Fonseca

Por sua vez, o poeta, ensaísta e editor, Filinto Elísio (Rosa de Porcelana Editora), parceiro do Programa "África em Clave Cultural: personagens e eventos",  revela, na sua cróncia, o percurso de Conceção Lima, cuja poetica vai para além das suas ilhas e da África, colocando-se no patamar universal. 

Crónica  

"Conceição Lima: A Poética Transcendente da Afro-insularidade

Morreu no passado dia 15 de maio, Conceição Lima, a poeta que escreveu sobre o legado nas ilhas de híbridas palavras e tétricas plantações, engenhos enferrujados proas sem alento, nomes sonoros aristocráticos e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras.

Nascera Maria da Conceição Lima, em Santana, São Tomé e Príncipe, a 8 de dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1961. Em São Tomé e Príncipe, fez os seus estudos primários e secundários. Começou a escrever poesia muito jovem e, em 1979, participou na 6ª Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, que teve lugar em Luanda.

No início da década de 1980, estudou jornalismo em Portugal. Ao regressar a São Tomé, trabalhou para dois jornais: Revolução e Notícias. De 1985 a 1988, foi responsável pelo departamento de Programação e Transmissões da Rádio Nacional. Foi também correspondente da Agência de Notícias LUSA.

Em 1988, mudou-se para o Reino Unido, onde iniciou uma longa carreira na BBC e, posteriormente, integrou a equipe da redação da emissora em Londres. Na primeira metade da década de 1990, trabalhou como correspondente do jornal português Público e da Rádio France Internationale. Em 1991 e 1992, trabalhou com o PNUD, formando jornalistas e profissionais da imprensa no seu país.

Em 1993 fundou o semanário O País Hoje. De 1995 a 2008, foi repórter e produtora da BBC, produzindo programas e séries de televisão sobre temas políticos, sociais e culturais. Durante sua estadia em Londres, obteve uma licenciatura em Estudos Portugueses, Brasileiros e Africanos pelo King's College London e um mestrado em Estudos Africanos pela Escola de Estudos Orientais e Africanos.

O seu primeiro livro, O Útero da Casa, em 2004, foi uma estrondosa revelação, ainda que os seus poemas já tivessem saído antes nalgumas antologias e revistas literárias. Desse seu livro, alguns dos seus poemas mais emblemáticos como “Mátria”:

(...) Quero-me desperta/ se ao útero retorno/ para tactear a diurnal penumbra/ das paredes/ na pele dos dedos reviver a maciez/ dos dias subterrâneos/ os momentos idos (...)

Ou o poema ‘’Afroinsularidade’’ que viria, muito mais tarde, a vencer o concurso de tradução Poems in Translation 2021 promovido, nos Estados Unidos da América, pela revista Words Without Borders e a Academia Americana de Poetas. Poema esse em que discorria nestes termos:

(...) E nas roças ficaram pegadas vivas/ como cicatrizes – cada cafeeiro respira agora um/ escravo morto/ E nas ilhas ficaram/ incisivas arrogantes estátuas nas esquinas/ cento e tal igrejas e capelas/ para mil quilómetros quadrados/ e o insurreto sincretismo dos paços natalícios./ E ficou a cadência palaciana da ússua/ o aroma do alho e do zêtê dóchi/ no témpi e na ubaga tela/ e no calulú o louro misturado ao óleo de palma/ e o perfume do alecrim/ e do mlajincon nos quintais dos luchans/ E aos relógios insulares se fundiram/ os espectros –ferramentas do império/ numa estrutura de ambíguas claridades/ e seculares condimentos/ santos padroeiros e fortalezas derrubadas/ vinhos baratos e auroras partilhadas (...)

Em 2005, produziu uma série de televisão sobre o 30º aniversário da independência de Angola, com foco no Acordo de Paz de 2002 na sociedade angolana. Em 2006, nasce-lhe o livro A Dolorosa Raiz do Micondó, profundamente marcado pela história de São Tomé e Príncipe, bem como pelo diálogo com escritores que lhe eram de referência como Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo.

Em 2009, funda e dirige o programa televisivo Em Directo, dedicado ao debate político na emissora pública de São Tomé. O programa, o mais visto na televisão do país, foi reconhecido como referência do debate democrático. Em 2010, porém, o Governo mandou cancelar o programa, o que resultou em protestos de jornalistas nacionais e estrangeiros. Conceição Lima passa a escrever regularmente para a revista online Téla Nón e para a Revista África 21 (angolana).

Em 2011, o livro O País de Akendenguê, poesia pan-africanista, com vários versos dedicados aos líderes africanos como Amílcar Cabral, Patrice Lumumba e Nkwame Nkrumah.

Em 2013, apresentou um novo programa de televisão, Cartas na mesa, dedicado ao debate político. Em 2015, publicou Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico, com versos como:

[...] Água Grande não tão Congo não tão Nilo/Água Grande sem canoas sem regatas/ Apenas rio/ Cumprindo no mar seu destino de água. / Mas tu que conheces todas as cidades/ Tu de tantos rios peregrino habitante/ Não conheces o rosto de minha cidade/ Não conheces o rio no corpo da minha cidade. / Água Grande além de todas as viagens/ Rio apenas, irmão de todos os rios. (...)

Conceição Lima é o nome mais traduzido da literatura são-tomense, com livros e poemas em alemão, árabe, espanhol, checo, francês, galego, italiano, inglês, shona, servo-croata e turco. Foi membro-fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses (UNEAS) e, em 2021, foi nomeada coordenadora nacional, para São Tomé e Príncipe, do Movimento Poético Mundial. E permanecerá como a voz poética transcendente da afroinsularidade."

Filinto Elísio
Filinto Elísio

Link do podcast da emissão: 

https://www.vaticannews.va/pt/podcast/africa-em-clave-cultural-personagens-e-eventos/2026/05/africa-em-clave-cultural-personagens-e-eventos-21-05-2026.html

 

 

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21 maio 2026, 14:55