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Reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como “crime contra a humanidade” pela ONU marca avanço histórico. Reconhecimento do tráfico transatlântico de escravos como “crime contra a humanidade” pela ONU marca avanço histórico. 

Santa Sé destaca combate à escravidão moderna em declarações na ONU e na OEA

Em declarações na ONU e na OEA, Vaticano reafirma combate à escravidão moderna, critica narrativa parcial sobre o tema e destaca a dignidade humana como fundamento da paz

Matheus Macedo - Vatican News

No Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, celebrado nesta quarta-feira (25/03), a Missão de Observação Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, em Nova York, uniu-se às demais delegações para honrar a memória das milhões de pessoas vítimas da escravidão.

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A Santa Sé condenou de forma inequívoca a escravidão, inclusive em suas formas modernas. “O chamado à memória hoje é um lembrete a todos os Estados do seu dever de preservar a verdade histórica e garantir a responsabilização jurídica”, afirma a mensagem.

Evocando o Papa Leão XIV, a missão junto à ONU reiterou que “desde os tempos apostólicos, a Igreja tem visto a libertação dos oprimidos como um sinal do Reino de Deus. Essa missão de libertação tem continuado ao longo dos séculos por meio de ações concretas, especialmente quando a tragédia da escravidão e do encarceramento marcou sociedades inteiras”.

Memorial em Benim lembra vítimas do tráfico transatlântico de escravos.
Memorial em Benim lembra vítimas do tráfico transatlântico de escravos.   (AFP or licensors)

Condenação histórica da escravidão
 

A mensagem recordou que essas convicções foram expressas em numerosos documentos papais. Como exemplo, citou o episódio de 1435, quando o Papa Eugênio IV condenou a escravização dos habitantes das Ilhas Canárias e excomungou aqueles que se recusaram a libertá-los.

Também menciona a condenação da escravidão feita pelo Papa Leão XIII, em 1888, ao classificá-la como contrária aos valores cristãos. Na ocasião, o Pontífice recordou Santo Agostinho: “tendo Deus criado o homem como um ser racional e à sua própria imagem, quis que ele dominasse apenas sobre a criação irracional; que fosse senhor, não dos homens”.

“Crime mais grave contra a humanidade” 
 

Ao se referir a proposta aprovada pela ONU de resolução que busca reconhecer a escravidão transatlântica como o “crime mais grave contra a humanidade” e solicitar reparações, a Santa Sé destacou ainda que “o projeto de declaração contém uma narrativa parcial que, lamentavelmente, poderia não servir à causa da verdade”.

Segundo a declaração, a memória histórica, quando baseada em informações precisas e imparciais, juntamente com educação e conscientização, desempenha papel fundamental na prevenção da repetição de tais tragédias.

O texto reafirmou que, “segundo o direito internacional, a escravidão moderna constitui um crime contra a humanidade quando cometida como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil”. Por isso, destaca que ninguém deve ser mantido em escravidão ou servidão, conforme estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A mensagem conclui com palavras do Papa Leão XIV: a liberdade que Cristo oferece “não é apenas interior: manifesta-se na história como um amor que cuida e nos liberta de todo vínculo de escravidão”.

Intervenção na OEA
 

Também por ocasião da data, no contexto da 9ª Semana Interamericana das Pessoas Afrodescendentes nas Américas, o Observador Permanente da Santa Sé junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), monsenhor Juan Antonio Cruz Serrano, participou da Sessão Extraordinária do Conselho Permanente, em Washington, nos Estados Unidos.

A delegação expressou satisfação pela realização do encontro, destacando o compromisso do continente com a dignidade inalienável de toda pessoa humana, criada à imagem de Deus.

Em seu pronunciamento, monsenhor Serrano recordou palavras do Papa Leão XIV: “diante das teorias de devastação global e de cenários aterradores, é importante que cresça no coração da maioria o desejo de esperar um futuro de dignidade e paz para todos os seres humanos”.

Nesse sentido, afirmou que a reflexão sobre a escravidão e o tráfico transatlântico contribui para impulsionar processos de superação da discriminação e da exclusão.

Dignidade humana e superação do racismo
 

O observador reiterou o ensinamento da Santa Sé de que a abolição da escravidão como estrutura social está ligada à mensagem de liberdade trazida por Cristo.

Destacou ainda que a promoção dos direitos em nível jurídico deve ser acompanhada pelo reconhecimento cultural e social das pessoas e comunidades afrodescendentes, valorizando sua identidade e história. “A sociedade que reconhece a riqueza de seus povos se enriquece a si mesma e fortalece os fundamentos da paz”, afirmou.

“A eliminação da discriminação racial começa com leis que a proíbam e se completa com a conversão dos corações e das mentes a valores autênticos que vêm de Deus, nosso Criador”, acrescentou.

Ao concluir, monsenhor Serrano ressaltou que “a construção de um hemisfério verdadeiramente justo e em paz exige um compromisso constante e coerente, baseado no diálogo, na cooperação e na responsabilidade compartilhada na promoção da dignidade humana”.

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26 março 2026, 12:38